Nesta semana, o mundo evangélico recebeu uma notícia inusitada. Um pastor conhecido e controverso pediu exoneração do seu cargo não por imoralidade sexual ou outro pecado que comumente escandaliza as pessoas das igrejas, mas por confessar seu abuso espiritual.
Paulo Junior, midiático líder da Igreja Aliança do Calvário, sediada no interior de São Paulo, anunciou sua saída da liderança. “Muitas vezes, aquela dureza que vocês viam no púlpito era manifestada nos relacionamentos, na maneira como conduzia a igreja, ferindo membros e pessoas”, afirmou. Sua radicalidade e postura inquisitória são conhecidas, já que ele costumava apontar duramente o pecado de todos.
O episódio escancara um problema silencioso: o abuso espiritual nas igrejas evangélicas. Esse tipo de realidade se estabelece em ambientes nos quais líderes controlam, dominam ou humilham seus liderados utilizando a autoridade pastoral.
Situações como essas não são resolvidas facilmente. Em muitos contextos, não existe uma instância oficial da igreja capaz de conduzir um tratamento adequado. Além disso, os membros frequentemente não conseguem identificar, porque a figura pastoral é vista como representante da divindade e seu porta-voz.
Munido desse poder, em vez de orientar suas ovelhas, pastores com esse perfil impõem suas vontades. Em vez de aconselhar e recomendar, fazem com que as pessoas se sintam culpadas por não cumprirem suas ordens e vontades.
O problema é mais grave nas igrejas que têm dono. Líderes que se intitulam apóstolos se apresentam como “figuras sagradas”, ungidos por Deus, e exigem subserviência e obediência inquestionável. No entanto, esse risco não se limita aos neopentecostais com suas igrejas com donos. O próprio Paulo Junior era pastor de uma igreja considerada tradicional.
Tudo o que acontece de ruim entre evangélicos serve de munição para atacar qualquer igreja e qualquer pastor. Por isso é importante não generalizar. Ao mesmo tempo, nós, evangélicos, devemos ficar atentos para a existência desses casos e saber como proteger pessoas dessas lideranças personalistas.
A exploração espiritual ocorre especialmente em instituições religiosas nas quais a dominação se estabelece por meio de exigências e imposições. E, diferentemente do colega Paulo Junior, a maioria dos pastores não é capaz de admitir seus abusos, perpetuando as relações “adoecedoras”. Existem maneiras para as igrejas estarem menos vulneráveis a estas situações, entre elas a criação de fóruns institucionais aos quais pastores e líderes prestem contas, para onde membros podem encaminhar denúncias. Além disso, em casos de crime, a igreja não deve se esquivar dos encaminhamentos judiciais e oferecer total acolhimento às vítimas.
Este caso reforça o alerta para a nossa comunidade sobre o perigo de se submeterem a líderes abusivos, que usam falas recheadas de textos bíblicos distorcidos que dão autoridade espiritual para subjugar os fiéis aos seus caprichos. E que sirva de sinal a todos nós, pastores, porque essa função nos coloca em um lugar sedutor de poder que, por vezes, anula o senso crítico dos membros, tornando-os presas fáceis.
noticia por : UOL