Ekrem Imamoglu foi preso em 19 de março pelo governo do presidente Recep Tayip Erdogan, o que desencadeou uma onda inédita de protestos em mais de uma década no país. População protesta na Turquia
Angelos Tzortzinis/AFP
Dezenas de milhares de pessoas de todas as idades se reuniram neste sábado (29) em Istambul, convocadas pelo CHP, o partido de oposição do prefeito da cidade, Ekrem Imamoglu, para protestar contra a prisão do líder da sigla, apesar da violenta repressão que continua a atingir os manifestantes.
A multidão, na qual se via menos jovens do que nas manifestações anteriores, se concentrou ao meio-dia (hora local) a leste da metrópole “para continuar a caminhada em direção ao poder”, segundo o chamado do líder do Partido Republicano do Povo (CHP), Özgür Özel.
Entre os manifestantes, que gritavam “Taksim está em todos os lugares, a resistência está em todos os lugares!”, estavam a esposa, a mãe e os dois filhos de Ekrem Imamoglu. Eles faziam referência à Praça Taksim, em Istambul, epicentro de um grande movimento de protesto em 2013.
Desde o início da manhã, balsas fretadas pelo partido começaram a levar os participantes, que carregavam bandeiras turcas e retratos de Mustafa Kemal Atatürk, considerado pelos turcos como “o pai da nação”, até o local dos protestos.
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A prisão de Imamoglu em 19 de março desencadeou uma onda inédita de protestos em mais de uma década em toda a Turquia, mobilizando dezenas de milhares de manifestantes todas as noites nas ruas, até segunda-feira à noite. Desde então, o partido parou de convocar a multidão em frente à prefeitura.
No entanto, em entrevista ao jornal francês Le Monde, datada deste sábado (29), Özgür Özel, que se tornou a voz da oposição contra Recep Tayip Erdogan, anunciou a realização de novas manifestações regulares, “todos os sábados em uma cidade da Turquia” e às quartas-feiras à noite em Istambul.
“Achamos que as prisões vão diminuir a partir de agora”, afirmou. Lembrando que os protestos foram proibidos pelas autoridades logo após a prisão do prefeito, o líder do partido afirmou estar disposto a “arriscar passar oito, dez anos na prisão, se necessário. Porque se não afastarmos essa tentativa de golpe de Estado, será o fim das urnas”.
O CHP, maior força de oposição, estava prestes a lançar Imamoglu como seu candidato para as próximas eleições presidenciais, previstas para 2028, quando ele foi preso em 19 de março e enviado à prisão cinco dias depois.
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511 estudantes presosOs jovens e estudantes tentaram continuar a mobilização, mas a repressão, que segue com prisões de manifestantes, jornalistas, advogados e pessoas detidas em suas casas ao amanhecer, parece estar desmotivando os mais determinados.
Só em Istambul, 511 estudantes haviam sido detidos na sexta-feira (28), dos quais 275 foram encarcerados, segundo o advogado Ferhat Güzel. “Mas esse número provavelmente é muito maior”, afirmou Güzel à AFP.
De acordo com os dados oficiais mais recentes, publicados na quinta-feira, mais de 2.000 pessoas foram presas, das quais 260 se encontravam encarceradas.
Na sexta-feira à noite, o jornalista sueco Joakim Medin, preso na quinta-feira ao desembarcar do avião, foi colocado em detenção em uma prisão de Istambul, conforme informou o editor-chefe de seu jornal, o Dagens UTC.
Andreas Gustavsson, editor, disse ue “não foi informado das acusações contra ele”, mas, segundo a mídia turca, o repórter é acusado de “insultar o presidente” turco, Recep Tayyip Erdogan, e de ser “membro de uma organização terrorista armada”.
“Eu sei que essas acusações são falsas, 100% falsas”, insistiu Gustavsson em sua conta no X.
Jornalistas também foram detidosAntes de Medin, o repórter da BBC, Mark Lowen, foi expulso “por perturbação da ordem pública”. Pelo menos doze jornalistas turcos foram presos durante a semana. A maioria foi liberada, mas ainda enfrentam acusações de participação em manifestações proibidas que estavam cobrindo para seus meios de comunicação, incluindo um fotógrafo da AFP, Yasin Akgül, que afirmou temer “uma tentativa de impedir os jornalistas de fazerem seu trabalho”.
Na sexta-feira, o advogado do prefeito de Istambul, Mehmet Pehlivan, foi “preso por motivos inventados”, segundo Imamoglu, e depois libertado à noite.
No início deste longo fim de semana do Aïd el Fitr, que será celebrado no domingo para marcar o fim do ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, o comício do CHP terá um valor simbólico para a oposição, já que muitos habitantes de Istambul terão deixado a cidade para visitar suas famílias.
Ainda mais considerando que o presidente Recep Tayyip Erdogan anunciou nesta semana a concessão de nove dias de férias para os funcionários públicos e instituições públicas.
Segundo o CHP, 15 milhões de pessoas, muito além do partido, participaram da primária simbólica realizada no mesmo dia para apoiar o movimento.
“A candidatura de Ekrem Imamoglu é o início de uma jornada que garantirá a justiça e a soberania da nação”, declarou Özgür Özel no X, para motivar os apoiadores.
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Fonte: G1
Multidão protesta em Istambul contra prisão de prefeito da oposição, apesar da repressão do governo
