quinta-feira, 3, abril , 2025 05:03

'Foram atacados um por um e enterrados em vala comum': a indignação da ONU e da Cruz Vermelha com morte de 15 paramédicos e membros de equipes de resgate por soldados de Israel

‘Eles foram mortos pelas forças israelenses enquanto tentavam salvar vidas’, diz o chefe de Assuntos Humanitários da ONU. A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês) e a Organização das Nações Unidas (ONU) manifestaram sua “indignação” e “horror” diante da morte de 15 profissionais de saúde e socorristas palestinos por forças israelenses no sul de Gaza — e exigiram “respostas e justiça”.
As organizações denunciaram que oito médicos palestinos, seis socorristas da Defesa Civil e um funcionário da ONU foram alvo do Exército de Israel quando tentavam resgatar feridos.
Seus corpos, denunciam ambas as organizações, foram enterrados em uma vala comum — e a autorização para acessar o local só foi concedida cinco dias após os acontecimentos.
“Eles foram mortos pelas forças israelenses enquanto tentavam salvar vidas. Exigimos respostas e justiça”, denunciou no X (antigo Twitter) Tom Fletcher, chefe de Assuntos Humanitários da ONU.
Cinco ambulâncias, um caminhão dos bombeiros e um veículo das Nações Unidas foram atacados em Al-Hashahin em 23 de março, de acordo com a ONU.
Quinze corpos foram recuperados do local no último domingo (30/3).
O Crescente Vermelho Palestino (PRCS, na sigla em inglês) denunciou o desaparecimento de um nono médico — e acusou Israel de atacar sua equipe.
O Exército israelense alegou que as tropas dispararam contra veículos que avançavam de forma suspeita, sem faróis ou sinais de emergência, e disse que entre os mortos também estavam um agente do Hamas e oito terroristas.
‘Estavam cuidando dos feridos’
A IFRC declarou no domingo que recuperou os oito corpos dos médicos do Crescente Vermelho Palestino após sete dias de silêncio e sem acesso à região de Rafah, onde foram vistos pela última vez.
A organização identificou os mortos como os profissionais de ambulância Mostafa Khufaga, Saleh Muamer e Ezzedine Shaath, e os voluntários socorristas Mohammad Bahloul, Mohammed al-Heila, Ashraf Abu Labda, Raed al-Sharif e Rifatt Radwan.
E acrescentou que outro profissional de ambulância, Assad al-Nassasra, ainda estava desaparecido.
“Estou arrasado. Esses dedicados profissionais de ambulância estavam cuidando dos feridos. Eram trabalhadores humanitários”, disse o secretário-geral da IFRC, Jagan Chapagain.
Chapagain observou que os profissionais de saúde “estavam usando emblemas que deveriam protegê-los” — e “suas ambulâncias estavam claramente identificadas”.
“Mesmo nas zonas de conflito mais complexas, existem regras. Estas regras do Direito Humanitário Internacional são claras: os civis devem ser protegidos; os trabalhadores humanitários devem ser protegidos; os serviços de saúde devem ser protegidos”, acrescentou.
Recuperados de uma vala comum
O chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês) em Gaza, Jonathan Whittall, declarou em uma postagem no X que sua equipe havia ajudado o Crescente Vermelho e a Defesa Civil na recuperação dos corpos de “uma vala comum”, que “estava marcada com a luz de emergência de uma das ambulâncias destruídas”.
“Os profissionais de saúde nunca deveriam ser um alvo, e aqui estamos hoje escavando uma vala comum de socorristas e paramédicos”, denunciou Whittall em um vídeo, enquanto escavadeiras e socorristas procuravam restos mortais humanos em uma vala atrás dele.
O diretor do OCHA em Gaza informou que ambulâncias da Defesa Civil e do Crescente Vermelho Palestino haviam chegado a este local sete dias antes — e ali “foram atacadas uma por uma”.
“Seus corpos foram agrupados e enterrados em uma vala comum.”
Ele acrescentou que a equipe do OCHA encontrou os veículos parcialmente enterrados, e conseguiu recuperar o corpo de um trabalhador da Defesa Civil debaixo do caminhão dos bombeiros.
“Hoje, no primeiro dia do Eid, voltamos e recuperamos os corpos enterrados de 8 integrantes do PRCS, 6 membros da Defesa Civil e 1 funcionário da ONU. Eles morreram de uniforme. Estavam dirigindo seus veículos claramente identificados. Estavam usando luvas. A caminho para salvar vidas. Isso nunca deveria ter acontecido”, ele disse.
O Crescente Vermelho Palestino disse estar devastado pelo “massacre” da sua equipe.
“Os ataques contra os médicos do Crescente Vermelho, apesar do status de proteção de sua missão e do emblema do Crescente Vermelho, só podem ser considerados um crime de guerra punível de acordo com o direito humanitário internacional”, declarou a organização em comunicado.
No funeral dos médicos na segunda-feira, o pai de Ashraf Abu Labda, um dos mortos, disse à BBC que as tropas israelenses “atacaram o primeiro veículo, depois o segundo e, na sequência, o terceiro. Eles os mataram a sangue frio”.
“Passamos oito dias tentando resgatá-los. Eles se recusaram a se coordenar com o Crescente Vermelho, o OCHA ou a ONU. Ninguém pode responsabilizá-los. Só Deus”, afirmou Nasser Abu Labda.
A versão de Israel
As Forças de Defesa de Israel (FDI) disseram em comunicado que durante uma operação no sul de Gaza em 23 de março, “vários veículos foram identificados avançando de forma suspeita em direção às tropas das FDI sem faróis ou sinais de emergência” — e “seu deslocamento não foi coordenado com antecedência”, então “as tropas das FDI abriram fogo contra os veículos suspeitos”.
“Após uma avaliação inicial, foi determinado que as forças haviam eliminado um agente militar do Hamas, Mohammad Amin Ibrahim Shubaki, assim como outros oito terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina”, acrescentaram.
Eles afirmaram ainda que “após o ataque, as FDI se coordenaram com organizações internacionais para facilitar a retirada dos corpos”.
De acordo com uma declaração anterior das forças israelenses sobre o incidente, uma investigação inicial havia determinado que “alguns dos veículos suspeitos que se dirigiam às tropas eram ambulâncias e caminhões de bombeiros”.
As FDI também condenaram o que chamaram de “uso reiterado de infraestrutura civil por organizações terroristas”, e não comentaram sobre o paradeiro do médico desaparecido.
Investigação dos fatos
A porta-voz do OCHA, Olga Cherevko, pediu uma investigação minuciosa para determinar exatamente o que aconteceu.
“Eles eram trabalhadores humanitários em veículos claramente identificados, por isso é crucial ir ao fundo da questão e apurar todos os fatos”, disse ela à BBC.
Questionada sobre as declarações das FDI sobre as mortes de membros do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina, ela afirmou:
“Todas as guerras têm certas regras, e é por isso que todas as partes no conflito devem obviamente cumpri-las. E isso é o que sempre dissemos. Mas isso não exclui que os trabalhadores humanitários e as equipes de emergência não devam ser alvo de ataques.”
Um alto funcionário do Hamas, Basem Naim, condenou, por sua vez, o ataque.
“O assassinato seletivo de equipes de resgate, protegidas pelo direito humanitário internacional, constitui uma violação flagrante das Convenções de Genebra e um crime de guerra”, declarou.
O retorno ao combate
O incidente em al-Hashashin ocorreu no mesmo dia em que as FDI anunciaram que suas tropas tinham cercado a área próxima de Tel al-Sultan, em Rafah, e atacado o que alegavam ser um centro de comando e controle do Hamas.
As FDI emitiram uma nova ordem geral de evacuação para toda a região de Rafah na segunda-feira, pedindo a todos os residentes que se dirijam à zona humanitária de al-Mawasi, nas proximidades, para sua segurança.
O porta-voz árabe das FDI advertiu que eles estavam “voltando ao combate com grande força para eliminar as capacidades das organizações terroristas nestas áreas”.
Israel lançou a sua primeira grande operação em Rafah em maio do ano passado, deixando grande parte da cidade em ruínas.
No entanto, durante o recente cessar-fogo de dois meses, dezenas de milhares de pessoas regressaram ao que restava de suas casas na cidade.
Israel retomou os bombardeios aéreos e a ofensiva terrestre em Gaza em 18 de março, após o fim da primeira fase do acordo de cessar-fogo e o impasse das negociações para uma segunda fase.
Desde então, pelo menos 921 pessoas morreram em Gaza, segundo o Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas.
A guerra eclodiu quando o Hamas atacou o sul de Israel em 7 de outubro de 2023, matando cerca de 1,2 mil pessoas e sequestrando 251 reféns, que foram levados para Gaza.
Em resposta, o Exército israelense lançou uma campanha para destruir o Hamas, na qual mais de 50.270 pessoas foram mortas, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
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Fonte: G1