Quando as pessoas falam sobre o coronavírus, às vezes descrevem essa entidade invisível como se ela tivesse uma personalidade, e até uma consciência. Se você perguntar a um estudante de biologia ou de medicina o que é um vírus, ele lhe dirá que um vírus não é um organismo vivo ou, no máximo, que ele existe na fronteira entre o vivo e o morto —uma espécie de morto-vivo.
Para os biólogos especializados em virologia, entretanto, essa visão não é clara. Os cientistas ainda discordam sobre o fato de os vírus estarem realmente vivos ou não.
O que os cientistas podem concordar é que um vírus se adapta a novas condições, evolui e, às vezes, prejudica os seres humanos. Ele também é um agente infeccioso que só pode se replicar em um organismo hospedeiro, como bactérias, plantas ou animais.
O limite entre estar vivo e morto é um conceito sem nenhum critério específico. Portanto, para ajudá-lo a pensar se os vírus estão vivos, falarei sobre algumas das diferentes definições de vida na ciência.
Ao longo da história, os cientistas debateram a definição de vida e pesquisadores de diferentes áreas ainda discordam. Esse debate molda o entendimento científico e influencia as decisões de saúde pública —por exemplo, definir se os vírus estão “vivos” afeta a forma como criamos vacinas e estratégias para impedir sua disseminação.
Os biólogos podem lhe indicar a definição de vida de Erwin Schrödinger.
Schrödinger foi um físico austríaco ganhador do Prêmio Nobel que publicou um livro em 1944 chamado “O que É Vida?”. Ele foi um dos primeiros cientistas a tentar definir a vida e talvez seja mais conhecido na cultura popular por seu experimento mental do gato de Schrödinger.
Ele propôs que a vida é uma forma de “entropia” negativa, um conceito científico que explica o quanto algo está desordenado. Um sistema físico sempre aumentará em entropia/desordem, a menos que seja inserida energia para alterar esse processo. Schrödinger dizia que acreditava que os seres vivos criam e mantêm a ordem usando energia.
Por exemplo, um quarto bagunçado não se limpa sozinho, mas uma pessoa pode arrumá-lo. Os organismos fazem algo semelhante em nível molecular. O DNA é altamente estruturado, o que lhe permite armazenar informações genéticas. As proteínas se dobram em formas específicas para funcionar adequadamente. Em contraste, depois que um organismo morre, suas moléculas se quebram, aumentando a desordem.
Mais tarde, por volta da década de 1950, Schrödinger revisou sua visão, sugerindo que a vida depende da energia livre. A energia livre é a energia que impulsiona as reações químicas nos seres vivos. Isso marcou uma mudança do foco na ordem (entropia negativa) para enfatizar a energia como essencial para a vida.
Em meados do século 20, os cientistas passaram da definição de vida para a descrição de suas principais características. Estudando organismos como bactérias, plantas e animais, eles identificaram características comuns, estabelecendo um precedente que ainda hoje é seguido.
Em vez de buscar uma definição única, os cientistas classificam as entidades com base nessas características. Para decidir se um vírus está vivo, eles avaliam se atende a esses critérios.
De acordo com a biologia, a menor unidade de vida é a célula. Uma célula é uma unidade independente que produz moléculas funcionais (como proteínas e enzimas). As células podem usar suas próprias moléculas para replicar o material genético de forma independente. Um vírus também tem material genético, mas precisa usar as enzimas da célula hospedeira para produzir moléculas funcionais ou replicar seu material genético.
Em outras palavras, um vírus não se replica nem funciona de forma independente. Portanto, pela definição biológica, um vírus não pode ser classificado como um organismo vivo.
Mas, do ponto de vista genético e evolutivo, um organismo vivo é definido por sua capacidade de se reproduzir. Uma pessoa que não tem filhos ainda é considerada viva, pois faz parte do “pool” genético e descende de pessoas que tiveram filhos. Sob esse ponto de vista, um vírus está vivo, já que pode produzir descendentes semelhantes.
Alguns cientistas também se concentram no metabolismo e na produção de energia como critérios para a vida. O metabolismo inclui o catabolismo (quebra de moléculas como os açúcares durante a digestão) e o anabolismo (construção de moléculas como o tecido muscular), ligando energia e material. Essas reações exigem estruturas moleculares para gerar ou usar energia, estruturas que os vírus não possuem.
Isso significa que os vírus não estão vivos? Uma ameba, por exemplo, usa nutrientes e enzimas para se sustentar, enquanto os vírus dependem totalmente de um hospedeiro. Sob essa perspectiva, os vírus não atendem aos critérios metabólicos para a vida. Entretanto, alguns argumentam que, como os vírus sequestram o metabolismo do hospedeiro para se replicar, eles apresentam comportamento semelhante ao da vida.
Se considerarmos os nutrientes como fontes de energia livre, uma célula usa a energia do ambiente para construir o que precisa. À medida que a célula absorve energia do ambiente, ela constrói e mantém suas estruturas internas, como proteínas e membranas.
Ela também libera um subproduto —dióxido de carbono— que contribui para a desordem no ambiente externo. Os vírus também fazem isso. Eles criam suas estruturas usando o ambiente externo, nesse caso, uma célula hospedeira. Os subprodutos dos vírus podem ser o que nos deixa doentes.
Conforme exploramos as complexidades da biologia, fica claro que definir a vida em si não é nada simples. Os vírus apresentam características tanto de vida quanto de não vida, o que influencia a forma como abordamos tratamentos como os medicamentos antivirais projetados para bloquear sua replicação dentro das células hospedeiras.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original
noticia por : UOL