domingo, 6, abril , 2025 04:24

Efeito Trump impulsiona armamento, diz CFO

O brasileiro Rodrigo Torres, 48, comanda o Edge Group, um dos maiores conglomerados de tecnologia bélica e defesa do mundo. Fundado em 2019 e sediado em Abu Dhabi, o grupo vê os negócios prosperarem não somente com o aumento do clima de tensão acirrado por Donald Trump, mas também com as “guerras internas” de cada país.

Com 35 companhias espalhadas pelo mundo, o Brasil entrou na rota em 2023, com um investimento de R$ 3 bilhões na compra de participação em duas empresas, a SIATT e a Condor. Neste ano, o Edge avalia a compra de mais uma e a construção de outra fábrica em São Paulo.

guerra na Ucrânia, conflitos armados no Oriente Médio e o presidente Donald Trump inicia seu mandato ampliando esse clima de tensão na Europa. Isso impulsiona seus negócios? Tem o efeito Trump, mas não só. Há o da Rússia, Israel, Coreia do Norte. As tensões estão aumentando e os países querem garantir sua soberania.

De quanto deve ser o crescimento por conta disso? Nosso faturamento atual é de US$ 5 bilhões e, nos próximos três anos, esperamos chegar a US$ 10 bilhões.

O Brasil voltou a investir em defesa? As Forças Armadas tentam dar nó em pingo d´água para continuar se equipando. Temos diversos programas. Com a Marinha, são quatro fragatas em construção, mas, pelo tamanho do Brasil, era preciso 16. No caso dos Gripen, é a mesma situação.

A companhia tem fábrica no Brasil, mas as vendas são fundamentalmente para fora. Funciona ter uma indústria exportadora de alto valor agregado em um país de custos elevados? Investimos no Brasil pensando no exterior. Só com o mercado brasileiro, não é possível se sustentar. Mas, sabendo se equilibrar, dá para ser competitivo.

O que é, exatamente, o mercado brasileiro. É só Forças Armadas? O ministro da Defesa [José Mucio] nos disse que o presidente Lula quer olhar para isso [compras] porque percebe o movimento global. Além disso, a proteção da Amazônia Azul é relevante. Há pesqueiros [em águas brasileiras], plataformas de petróleo a vigiar. Recentemente, teve um caso de um navio oceanográfico fazendo pesquisa ilegal. Há pirataria. É um tipo diferente de guerra. Agora, os estados também estão se aparelhando.

De que forma? O Mato Grosso compra equipamentos para monitoramento da fronteira. Tem ali uma questão de segurança devido ao tráfico de drogas e de armas. São Paulo é o maior polo de cocaína da América Latina. O que se busca lá é melhorar a inteligência da força de segurança pública. O efetivo de homens da polícia estadual paulista é de cerca de 150 mil. É maior que muito exército, mas o problema é que não usam tecnologia para enfrentar o que está acontecendo. Na Bahia, é a mesma coisa.

Neste caso, o sr. se refere a aparatos eletrônicos. Esse segmento já é relevante em vendas? Existe uma demanda bem grande por sistemas contra drones, por comunicação segura [livre de interceptação], mas não é a maior fatia. O que se vê é uma modernização das forças no mundo todo. Antes, todo mundo achava que, com uma força aérea, seria possível se defender. A guerra da Ucrânia mostrou que não é verdade.

A situação da Europa é ruim com o movimento de Trump de desgastar a Otan. Os países do bloco já são seus maiores compradores? A Europa está investindo pesado em armamento e está preocupada com isso porque, até então, sempre ficou muito dependente dos EUA, inclusive nessa parte de satélites. Na Ásia, Japão, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Malásia, com suas milhares de ilhas, investem bastante também. O que acho interessante é ver a África [nesse movimento]. Estamos, por exemplo, construindo a Marinha de Angola, um contrato de US$ 1,2 bilhão, e um programa na Nigéria de US$ 2 bilhões. Há procura pelo Quênia, Mauritânia, entre outros. Na América Latina, o Paraguai está se movimentando, inclusive com um projeto de radares de defesa. Chile e Colômbia estão bem avançados.


RAIO-X

Rodrigo Torres, 48

Engenheiro mecânico (PUC-RJ) com especialização em inteligência artificial (Chicago University) e finanças e administração (Harvard University), possui mais de vinte anos de carreira com passagens pelo Banco BBM, General Electric (aviação e óleo e gás) e grupo Renault. Em 2019, ingressou no Edge Group.


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noticia por : UOL