terça-feira, 28, julho , 2026 03:14

A roupa fala: alfaiate dos papas palpita sobre vestes do próximo escolhido

Curiosamente, o encerramento dessa fase coincide com a exposição que preparava para a Pinacoteca Ambrosiana de Milão, entre 15 e 27 de maio. O que começou como uma retrospectiva de carreira transformou-se em despedida. A mostra, que entrelaça vestes sagradas com perfumes – sua outra grande paixão -, ganha novos significados. Cada paramento exibido dialoga com uma fragrância especialmente criada por ele: “como se cada aroma fosse capaz de revelar o que as vestes apenas sugerem”.

Sorcinelli, agora fora da cena litúrgica, segue adiante. Mas deixa um aviso, com a precisão de quem vestiu o poder: a roupa fala. E no caso do papa, ela pode definir como o mundo enxerga a fé.

Francisco usava trajes simples, não “trapos”

Francisco, para Sorcinelli, encarnou uma “nobre simplicidade”, eco do Concílio Vaticano II. Desde o início, o papa argentino buscou trajes simples. “Não trapos”, ressalta o estilista, “mas vestes belas e despojadas, que comunicassem essência. Tirar também é um valor.” O problema, segundo ele, é que essa simplicidade foi muitas vezes mal interpretada. “Francisco nunca quis roupas feias. Quis roupas simples e belas.”

Esse “curto-circuito estético” teve seu peso simbólico: sapatos pretos no lugar do vermelho papal, cruz de ferro no lugar do ouro, batina sem a mozeta carmesim. Mas Sorcinelli temia que, ao despir demais, a imagem do papado perdesse força. “O paramento litúrgico comunica. Se você o esvazia, sobra um trapo. E para honrar a Deus, não se veste um trapo.”

A comparação com Bento XVI é inevitável. Enquanto Francisco optou pela horizontalidade, Ratzinger manteve uma estética barroca, vertical, carregada de história. Sorcinelli recorda que, na segunda metade de seu pontificado, Bento cedeu à nostalgia litúrgica de alguns colaboradores, abandonando a inovação em favor de modelos antigos. “Criaram um muro visual lindíssimo, mas que bloqueou o diálogo com o mundo.”

noticia por : UOL