sexta-feira, 8, maio , 2026 12:14

'Intervenção externa' na Venezuela pode 'incendiar' a América do Sul, diz Celso Amorim


Donald Trump fala em ataques terrestres contra narcotraficantes
Uma “intervenção externa” na Venezuela “pode incendiar a América do Sul”, disse Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula, em entrevista à agência de notícias France Presse (AFP) nesta sexta-feira (24).
“Não podemos aceitar uma intervenção externa porque isso vai criar um ressentimento imenso”, disse Amorim. Uma intervenção “pode incendiar a América do Sul” e levar à “radicalização da política em todo o continente”, acrescentou o assessor, sem citar os Estados Unidos.
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A fala de Amorim ocorreu em meio à escalada das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, que já teve bombardeios a 10 barcos no mar do Caribe e no Oceano Pacífico próximo à América do Sul —que, segundo o governo Trump, carregavam drogas— e a possibilidade de operações militares americanas em solo venezuelano. O presidente dos EUA, Donald Trump, disse na quinta (23) que fará ações terrestres contra cartéis de drogas em breve, também sem citar a Venezuela.
Desde agosto, o governo do republicano designou cartéis de drogas sul-americanos como organizações terroristas e ordenou operações militares contra eles. Além disso, acusou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de chefiar o Cartel de Los Soles e dobraram a recompensa pela captura dele para US$ 50 milhões (cerca de R$ 269 milhões).
Como parte da pressão contra o regime Maduro, o governo Trump também mobilizou uma grande presença militar no mar do Caribe, que envolve navios de guerra, jatos, helicópteros de operações especiais e aviões bombardeiros.
Segundo Amorim, um dos elementos do caos no continente causado por uma eventual ação militar dos EUA contra a Venezuela seria, por exemplo, “problemas concretos de refugiados” no Brasil e na Colômbia.
Amorim também disse à AFP que Lula evitará “dar lições” a Trump sobre o assunto, caso um encontro entre os dois líderes ocorra neste fim de semana na Malásia. Lula disse nesta sexta não acreditar que os ataques a barcos feitos pelo governo Trump sejam justificativa para combater o narcotráfico e acrescentou que “se o mundo virar uma terra sem lei, vai ficar muito difícil”.
“Acho que falta um pouco de compreensão da questão da política internacional”, disse Lula sobre a afirmação de Trump de que vai ‘”apenas matar as pessoas que estão levando drogas para o seu país.'”
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Maduro: ‘No crazy war, please’
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante evento em 12 de outubro de 2025
Frederico Parra/AFP
O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, disse na quinta-feira (23) que a “Venezuela quer paz” e pediu, em inglês, que não haja uma “guerra maluca” na região, frente as ações militares dos EUA.
Em agosto, Washington enviou contratorpedeiros, um submarino e barcos com efetivos das forças especiais para águas internacionais no Caribe.
Em 2 de setembro, a flotilha realizou o primeiro dos nove ataques contra embarcações e submersíveis na região da América do Sul — dois deles no Pacífico, nos quais matou pelo menos 37 supostos traficantes de drogas.
Maduro classificou essas operações como ameaça e assédio por parte de Washington, e afirma que elas têm como objetivo uma mudança de regime para se apropriar do petróleo venezuelano.
Venezuela mobiliza militares contra possível invasão dos Estados Unidos
“Não à guerra”, disse Maduro durante uma assembleia com sindicatos associados ao chavismo ao enviar uma mensagem aos trabalhadores dos Estados Unidos. “‘Yes peace, yes peace, forever, peace forever. No crazy war!’ Não à guerra louca! ‘No crazy war!'”
Trump cogita ações em terra
Nesta quinta, Trump disse que deve realizar ações militares em terra contra cartéis. Ele não citou diretamente a Venezuela. Segundo o presidente, o assunto deve ser discutido com o Congresso.
O anúncio foi feito um dia após o bombardeio de uma embarcação no Oceano Pacífico, o nono ataque do tipo ocorrido na América do Sul. Segundo o Departamento de Guerra, o barco transportava drogas. Três pessoas morreram.
Em conversa com jornalistas, Trump afirmou que não precisará pedir ao Congresso uma declaração de guerra aos cartéis e reiterou que as operações irão continuar.
Bombardeios contra barcos
Imagem mostra o presidente dos EUA, Donald Trump (E), em Washington, DC, em 9 de julho de 2025, e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro (D), em Caracas, em 31 de julho de 2024.
AFP/Jim Watson
No início desta semana, ao ser questionado sobre se os EUA têm autoridade para bombardear embarcações em águas internacionais, Trump respondeu que sim. O presidente justificou as ações afirmando que 300 mil pessoas morrem nos EUA por ano por problemas relacionados às drogas.
A presença militar americana no Caribe inclui destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6,5 mil militares.
Nas últimas semanas, as ofensivas americanas foram criticadas por analistas. Na terça-feira (21), um grupo independente de especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que os bombardeios violam o direito internacional e constituem execuções extrajudiciais.
O grupo, nomeado pelo Conselho de Direitos Humanos, disse que os ataques violam a soberania do país sul-americano e as “obrigações internacionais fundamentais” dos EUA de não intervir em assuntos domésticos ou ameaçar usar força armada contra outro país.
Apesar da justificativa de Trump de combater o tráfico de drogas, os especialistas apontam que “mesmo que tais alegações fossem comprovadas, o uso de força letal em águas internacionais sem base legal adequada viola o direito internacional do mar e equivale a execuções extrajudiciais”.
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Fonte: G1