quarta-feira, 11, março , 2026 06:21

Menus de R$ 7 mil, estrelas Michelin e abusos: chef premiado é denunciado por agressões e humilhações




Noma, comandado pelo chef dinamarquês René Redzepi, se tornou um dos nomes mais celebrados da alta gastronomia internacional.
Noma/ Divulgação
Três estrelas Michelin, menus de R$ 7 mil por pessoa e uma reputação construída ao longo de duas décadas. Foi assim que o Noma, comandado pelo chef dinamarquês René Redzepi, se tornou um dos nomes mais celebrados da alta gastronomia internacional.
Mas essa imagem de excelência começou a ruir depois que ex-funcionários vieram a público denunciar uma cultura de abusos dentro da cozinha do restaurante.
Uma reportagem do jornal “The New York Times” reuniu relatos de agressões físicas e constrangimentos públicos. Cerca de 35 ex-funcionários que trabalharam no Noma entre 2009 e 2017 foram ouvidos pelo jornal.
“Ele batia, cutucava e empurrava funcionários por erros pequenos e às vezes chegava a socar alguém quando perdia a paciência”, relatou um ex-trabalhador ao veículo.
Os relatos também descrevem jornadas de trabalho extremamente longas dentro da cozinha, muitas vezes ultrapassando 12 ou até 16 horas por dia durante os períodos mais intensos do restaurante.
Ex-funcionários disseram ainda que parte significativa da equipe era formada por estagiários estrangeiros que recebiam pouca ou nenhuma remuneração pelo trabalho, apesar da carga pesada de tarefas.
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As denúncias já tiveram consequências imediatas. Dois patrocinadores desistiram de apoiar uma temporada de jantares — conhecidos como “pop-ups”, quando restaurantes operam por um período limitado em outra cidade — que o Noma estava prestes a iniciar em Los Angeles.
A American Express e a startup de hospitalidade Blackbird anunciaram que retiraram o apoio ao evento, que teria ingressos de US$ 1,5 mil (cerca de R$ 7,7 mil ) por pessoa e estava com todas as reservas esgotadas.
As duas empresas afirmaram que vão reembolsar clientes que haviam comprado ingressos por meio delas e doar o dinheiro arrecadado a organizações que defendem trabalhadores do setor de restaurantes.
“As práticas passadas de René, segundo ele próprio admitiu, eram inaceitáveis e abomináveis”, afirmou Ben Leventhal, fundador da Blackbird, em comunicado.
“Não podemos simplesmente nos apoiar no tempo decorrido e em alegações de reabilitação quando essas coisas ressurgem.”
Uma porta-voz da Resy, plataforma de reservas da American Express, afirmou que a empresa também decidiu se afastar do patrocínio do evento e que os recursos envolvidos serão redirecionados para iniciativas em apoio aos trabalhadores do setor de hospitalidade em Los Angeles.
“Nossa prioridade é apoiar a comunidade gastronômica e não permitir que essa decisão prejudique as muitas pessoas que trabalharam arduamente para dar vida a este projeto, desde agricultores locais até fornecedores e outros profissionais envolvidos”, afirmou a empresa.
Considerado um dos restaurantes mais influentes da gastronomia contemporânea, o Noma ajudou a redefinir a culinária moderna com pratos experimentais e forte uso de ingredientes locais, sazonais e muitas vezes colhidos diretamente na natureza.
René Redzepi
The Best Chef Awards
Localizado em Copenhagen, capital da Dinamarca, o restaurante foi eleito cinco vezes o melhor do mundo pela lista The World’s 50 Best Restaurants e acumula três estrelas no Michelin Guide.
Redzepi também recebeu reconhecimento internacional ao longo da carreira. A revista Time já o descreveu como um “Deus da Gastronomia”, e o chef foi nomeado cavaleiro por suas contribuições à cultura dinamarquesa.
Segundo os relatos reunidos pelo The New York Times, no entanto, o ambiente dentro da cozinha do restaurante era marcado por pressão extrema e episódios frequentes de agressividade.
Ex-funcionários disseram ao jornal que Redzepi reagia com violência a erros considerados pequenos. Alguns relataram empurrões e tapas durante o serviço; outros afirmaram que o chef chegou a arremessar objetos ou usar utensílios de cozinha para atingir funcionários.
Além da violência física, trabalhadores também disseram ter sido alvo de humilhações públicas diante de colegas.
Em alguns casos, segundo os depoimentos, o chef teria ameaçado funcionários estrangeiros com deportação ou com a possibilidade de nunca mais conseguirem emprego em restaurantes de prestígio.
O The New York Times também descreve uma cultura de trabalho extremamente exigente, com equipes frequentemente submetidas a longos turnos e forte pressão para manter o padrão de excelência do restaurante.
Em alguns períodos, segundo os relatos, estagiários representavam uma parcela significativa da força de trabalho na cozinha — muitos deles vindos de outros países para ganhar experiência em um restaurante de prestígio, mas recebendo pouca ou nenhuma remuneração.
Noma, em Copenhague, foi eleito um dos melhores restaurantes do mundo
Instagram
Repercussão nas redes e protestos
As acusações começaram a ganhar visibilidade nas últimas semanas, quando um ex-funcionário do restaurante, Jason Ignacio White, passou a publicar nas redes sociais relatos sobre episódios de abuso ocorridos durante o período em que trabalhou no local.
Após a publicação da reportagem do The New York Times, organizações de defesa de trabalhadores também passaram a pressionar o restaurante.
O grupo One Fair Wage anunciou que pretende realizar um protesto em frente ao restaurante temporário do Noma no bairro de Silver Lake.
A organização pede compensação para funcionários que trabalharam no restaurante e mudanças nas políticas de trabalho da empresa.
O que diz o restaurante
Procurado pelo The New York Times, o Noma não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário sobre as denúncias.
Uma porta-voz do restaurante afirmou ao jornal que, nos últimos anos, a empresa implementou mudanças internas, incluindo a criação de estruturas formais de recursos humanos, treinamento para gestores e maior flexibilidade nos horários de trabalho.
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