quinta-feira, 12, março , 2026 07:21

Por que a esquerda não abandonou o X — apesar das promessas

Já há algumas eleições, a política brasileira passou a ser disputada nas redes sociais e na internet. Foram-se os tempos em que cada voto era decidido no palanque, no rádio e no horário eleitoral gratuito da televisão.   

Para a esquerda brasileira, essa transição tem sido marcada por uma tensão que parece não ter fim. Um dilema entre criticar as estruturas dessas plataformas e, ao mesmo tempo, ocupá-las para não desaparecer do debate público. 

Se a esquerda critica as redes por supostamente favorecer discursos de direita, por que seus principais atores políticos utilizam as plataformas? E se outras redes são apresentadas como ambientes mais saudáveis, por que elas não se sustentam? 

Tchau X, oi Bluesky 

O fenômeno mais recente da tensão da esquerda com as redes sociais ocorreu em torno do X. Desde a compra do antigo Twitter por Elon Musk, a plataforma passou a ser alvo de críticas por uma suposta inclinação do algoritmo a favorecer discursos de direita.

A reação estimulou uma tentativa de migração para redes como Bluesky e Threads, apresentadas por setores progressistas como ambientes mais saudáveis e democráticos. Durante a suspensão do X no Brasil, em 2024, esse movimento ganhou força entre os governistas. 

Naquele momento, o Bluesky chegou a ser tratado como uma espécie de “rede de resistência”, impulsionado pela saída temporária do X após decisão do ministro Alexandre de Moraes. O crescimento, porém, não se sustentou com a retomada da plataforma de Musk no país. 

Após a volta do X, a maior parte dos atores políticos da esquerda refez o caminho e retomou sua presença na rede. O retorno mostrou que, apesar das críticas, o alcance e a centralidade do X no debate público continuam pesando mais do que a rejeição política à plataforma. 

Além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quase todos os ministros do governo detêm perfis ativos na plataforma de Musk. Uma exceção no governo é a primeira-dama Janja, que não voltou a postar no X desde agosto de 2024.

O atraso estratégico da esquerda 

Analistas de comunicação política e pesquisadores de comportamento digital frequentemente apontam um diagnóstico comum. Historicamente, a esquerda brasileira, vinculada a movimentos de base, sindicatos e à ocupação física de espaços, demorou a compreender a dinâmica das redes.

“A esquerda sempre adotou uma comunicação mais argumentativa, mais institucional. E está tentando mudar isso desde 2010, 2013, a partir daqueles movimentos que tomaram as ruas do país”, avalia Marcos José Zablonsky, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e especialista em opinião pública. 

Enquanto isso, grupos conservadores e a chamada nova direita passaram a investir com mais rapidez na construção de ecossistemas digitais. Segundo Zablonsky, a direita brasileira soube explorar melhor a capacidade de mobilização nas plataformas. 

Essa diferença de tempo de resposta criou um descompasso. Grupos mais mobilizados e com discursos de ruptura tendem a ocupar novas plataformas com mais assertividade. Para o professor, esse modelo segue funcionando porque combina comunicação direta e mensagens fáceis de reconhecer.  

“A direita trabalha quase de forma individual. Vai cada um falando e vai aumentando e amplificando”, afirma Zablonsky. Já a esquerda, mais institucionalizada, acaba recorrendo a uma linguagem mais lenta, mais discursiva e menos adaptada à lógica acelerada das redes. 

Na prática, isso ajuda a explicar por que tentativas de migração para plataformas alternativas não se sustentaram politicamente. Mesmo criticando o ambiente do X, antigo Twitter, e também redes da Meta, a dona do Facebook, setores da esquerda voltaram a ocupar esses espaços por uma razão objetiva: é ali que o debate continua concentrado.  

Para Zablonsky, “não há como fugir dessas plataformas hegemônicas”, porque foi a própria sociedade que consolidou seu uso cotidiano. “O povo já escolheu as plataformas”, afirma, citando WhatsApp, X, Instagram e Facebook como espaços centrais da circulação política e social. 

A estratégia digital do governo Lula 

Desde a posse em 2023, o governo Lula vem demonstrando que a comunicação digital passou ao centro da estratégia de sobrevivência política. A criação de uma estrutura voltada às redes sinaliza essa mudança de postura. 

Na avaliação de Zablonsky, a chegada de Sidônio Palmeira como ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal teve justamente o objetivo de tornar a resposta do governo mais afinada com o ritmo da internet.  

“Essa decisão foi para tentar ter uma linguagem mais rápida, uma percepção do movimento que acontecia dentro da internet”, afirma. O problema, segundo ele, é que em redes marcadas por velocidade e impulsos emocionais, reagir tarde demais pode significar perder a disputa antes mesmo de entrar nela. 

Influenciadores ajudam, mas não resolvem 

Em busca de mais tração nas redes sociais, o governo Lula ampliou a contratação de influenciadores digitais para melhorar sua imagem e divulgar programas oficiais, apostando em perfis com públicos diversos e linguagem adaptada às redes.  

A estratégia buscou criadores que já tinham afinidade com pautas progressistas ou histórico de críticas à direita, além de nomes que não atuavam diretamente com política, mas passaram a fazer publieditoriais sobre ações como o Luz para Todos e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.  

Entre os nomes contratados, estão influenciadores como Lauany Schultz, Carolline Sardá, Laura Sabino, Thiago Foltran, Beatris Brantes e Martina Giovanetti. As contratações representaram um aumento expressivo no gasto com impulsionamento nas plataformas. 

Para Zablonsky, o peso dos influenciadores não deve ser superestimado. “Não é porque o influencer tem 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de seguidores que necessariamente as pessoas vão aceitar a indicação dele”, afirma.  

Na visão do professor, esses perfis podem ajudar a formar contexto, levantar dúvidas, apresentar fontes e servir como ponto de partida para determinadas conversas, mas não têm poder automático de transferir apoio político em massa. 

Ele observa ainda que o papel dos influenciadores no debate político parece hoje mais reduzido do que se imaginava há alguns anos. Em muitos casos, diz, sua força se concentra mais em temas do cotidiano, consumo e estilo de vida do que em grandes disputas sobre os rumos do país.  

Por isso, mesmo quando essa estratégia produz algum efeito, ele tende a ser restrito. O professor avalia que a disputa está em uma faixa menor do eleitorado, fora dos núcleos mais duros da polarização.  

O campo de batalha pela atenção dos jovens 

Um dos fatores que mais pressionam a urgência dessa nova estratégia é a mudança profunda no consumo de informação entre os jovens. A política, para parte dessa geração, aparece em vídeos curtos, cortes, memes, trends e conteúdos distribuídos em plataformas de consumo rápido. 

Zablonsky avalia que o TikTok se tornou hoje uma das principais frentes dessa disputa. “O TikTok talvez seja a plataforma em que, quem souber usar melhor, é onde eles estão”, afirma, referindo-se à geração Z.  

Segundo o professor, trata-se de um público acostumado a uma linguagem visual rápida, em que o conteúdo precisa capturar a atenção quase instantaneamente. Isso altera profundamente as estratégias de comunicação política.  

Zablonsky destaca ainda que essa juventude hiperconectada se relaciona com o ambiente digital de modo mais fragmentado e mais protegido. Ele menciona, por exemplo, a existência de perfis paralelos e espaços de circulação restrita entre jovens, que escapam ao olhar das instituições, da família e até de observadores mais atentos ao debate público.

Proteger a liberdade de expressão 

Zablonsky chama atenção para um aspecto importante do atual contexto político. A internet ampliou a participação e democratizou a comunicação, mas também consolidou uma “disputa narrativa permanente”.

“Todo dia, a internet está em fervor. Nessa correria, nessa luta dos embates das narrativas. E o que a gente observa é que o desafio das democracias contemporâneas, agora que a gente vê, é fortalecer o debate público. Mas sem comprometer também a liberdade de expressão. Esse é o grande dilema”, comenta o professor.  

noticia por : Gazeta do Povo