Existe um escândalo no centro do cristianismo que dois mil anos de teologia não conseguiram domesticar: Deus ama os homens. Não nos ama como um relojoeiro ama seu mecanismo, nem como um escultor ama a estátua que acabou de polir. Ele nos ama como quem ama o que não merece ser amado, e sabe disso, e ama assim mesmo. Santo Agostinho, que antes de ser santo foi tudo o que um santo não deveria ser, compreendeu essa assimetria com a lucidez de quem a viveu na carne. Nas Confissões, o Amor de Deus pelos homens aparece não como recompensa pela virtude humana, mas como a própria condição que torna a virtude possível. Deus não ama porque o homem é bom; o homem pode ser bom porque Deus o ama. A ordem causal está invertida em relação a tudo o que a razão natural esperaria, e é precisamente essa inversão que Agostinho chama de graça.
Thomas Mann, que não era teólogo mas entendia de abismos, captou algo dessa dinâmica no Doutor Fausto. Adrian Leverkühn, o compositor genial que vende a alma ao diabo em troca de vinte e quatro anos de inspiração criativa sobrenatural, vive sob uma cláusula contratual terrível: é-lhe proibido amar. O pacto demoníaco exige a renúncia ao Amor como condição da grandeza artística. Mas Mann insinua (uma insinuação teológica, não apenas literária) que a interdição do Amor é, em si mesma, a essência da danação. O inferno não é o fogo, e sim a impossibilidade de amar, e Leverkühn não se perde apenas porque fez um pacto com o diabo, mas porque, ao substalecê-lo, aceitou o horror que é viver sem ágape. E quando, no final, sua última composição tenta revogar o pacto (tenta, pela música, reconquistar o direito ao Amor), o gesto tem a estrutura exata de uma oração agostiniana: o homem que não pode salvar-se a si mesmo clama por aquilo que só pode vir de fora, ex.
Dostoiévski entendeu isso com uma profundidade que expunha a ferida aberta. Em Os Irmãos Karamázov, o Grande Inquisidor confronta Cristo com o argumento definitivo do pragmatismo: os homens não querem liberdade, mas pão, milagre e autoridade. O Amor de Jesus Cristo pelos homens, segundo o Inquisidor, é cruel precisamente porque os respeita demais, porque insiste em amá-los como seres livres quando eles prefeririam ser amados como escravos obedientes. É a acusação mais devastadora já feita ao ágape divino, e Dostoiévski a coloca na boca de um cardeal da Igreja, não de um ateu, porque sabia que o escândalo do Amor de Deus é mais visível de dentro da fé do que de fora dela. A resposta de Cristo ao Inquisidor é, famosamente, o silêncio, e um beijo. Não há argumento, não há refutação, não há teodiceia. Há apenas o gesto irredutível do Amor que não se justifica porque não precisa se justificar. Agostinho decerto teria reconhecido esse beijo.
Machado de Assis, que era católico do jeito que o Rio de Janeiro era católico, com ironia, esculhambação reticente e uma fé que passava pelo crivo do humor antes de chegar à devoção, tratou do Amor divino pelo avesso. Em Machado, Deus quase nunca aparece diretamente, mas sua ausência tem peso gravitacional. Brás Cubas, narrando do além-túmulo com a desenvoltura de quem já não deve satisfações a ninguém, oferece ao leitor um inventário minucioso, digno de Eclesiastes, da vaidade humana, sem jamais explicitar o contraste. O contraste, contudo, está lá, estruturalmente. Cada capítulo das Memórias Póstumas de Brás Cubas é, lido desde a perspectiva católica, uma demonstração involuntária de por que o homem precisa de uma graça que não pode produzir por conta própria. Machado não prega: ele disseca. Mas a dissecção, em sua implacável honestidade, aponta para o vazio que só a graça agostiniana poderia preencher. O autor que não menciona Deus é, paradoxalmente, o que mais eloquentemente demonstra Sua necessidade.
Olavo de Carvalho, que dedicou parte considerável de sua obra a restaurar a dignidade intelectual da experiência religiosa num ambiente acadêmico que a tratava como superstição superada, percebeu algo que escapa tanto aos teólogos profissionais quanto aos ateus militantes: que o Amor de Deus pelos homens não é uma proposição a ser demonstrada, mas uma experiência a ser reconhecida. Em sua leitura, o erro moderno, de Descartes em diante, consiste em tratar a relação entre Deus e os homens como um problema epistemológico, quando na verdade é uma relação pessoal. Você não prova que alguém o ama; você percebe, ou não percebe. E a percepção depende não apenas de quem ama, mas da disposição de quem é amado. Agostinho, nas Confissões, não chega a Deus por um silogismo, e sim por uma rendição. A inteligência prepara o caminho, mas quem atravessa a porta é o coração, ou, para usar o vocabulário agostiniano, a vontade reordenada pelo Amor.
Há, nisso tudo, uma ironia que Machado apreciaria e que Mann transformaria em leitmotiv: o Amor de Deus pelos homens é, do ponto de vista humano, a coisa mais improvável do Universo. Somos, e basta uma tarde lendo o noticiário para confirmá-lo, criaturas de vaidade prodigiosa, crueldade inventiva e uma capacidade quase artística de autodestruição. Que Jesus Cristo, o Criador do Universo, com seus bilhões de galáxias e suas leis de uma elegância matemática que beiram o insulto, ocupe-se de amar precisamente estas criaturas que mentem, que traem, que constroem campos de concentração e reality shows com igual entusiasmo, é um fato tão absurdo que só pode ser verdadeiro. Nenhum homem o inventaria. É estranho demais para ser ficção e escandaloso demais para ser metáfora.
Agostinho distinguia entre uti e frui, usar e fruir. Usamos as coisas do mundo; fruímos de Deus. O erro, para aquele que decerto foi o homem mais inteligente de todos os tempos, é inverter a ordem: fruir das coisas e usar Deus, transformá-Lo em instrumento de nossos projetos, em fiador de nossas ambições, em coadjuvante da nossa narrativa de autossuficiência. O Amor de Deus, ágape, opera na direção contrária: não é um meio para um fim, mas o fim que reorganiza todos os meios. Quando Dostoiévski faz Cristo beijar o Inquisidor, está dramatizando exatamente isso: o Amor que não serve a nada, não compra nada, não negocia nada e, por isso mesmo, é a única coisa que salva.
E é aqui que ágape e eros se encontram, não como opostos, mas como oitavas da mesma nota. Eros é o Amor que deseja, que busca, que sobe em direção ao que lhe falta. Ágape é o amor que desce, que se dá, que transborda do que tem em excesso. Platão descreveu eros como uma escada; Agostinho descreveu ágape como uma chuva. A escada exige esforço; a chuva exige apenas que não se feche a janela. Mas esta é a intuição que atravessa de Mann a Dostoiévski, de Machado a Olavo, pois a escada e a chuva não são dois amores separados. São o mesmo Amor visto de baixo e de cima. Eros é o homem subindo em direção a Deus; ágape é Deus descendo, por misericórdia, em direção ao homem. E o ponto onde se encontram, esse ponto impossível, esse vértice onde a escada toca a nuvem, é o que Agostinho chamou de Cidade de Deus.
A Cidade de Deus não é um lugar, e sim os corações dos homens. É o que acontece quando eros e ágape deixam de ser movimentos contrários e se revelam como o mesmo movimento visto de perspectivas diferentes, a criatura que busca e o Criador que se oferece, a sede e a fonte, o grito e a resposta que já existia antes do grito. Agostinho escreveu, com imenso acerto, que nosso coração é inquieto até repousar em Deus. Porque o escândalo do cristianismo não é que o homem precisa de Deus, já que isso qualquer filosofia pode deduzir. O escândalo é que Deus, por razões que nenhuma teodiceia explicará satisfatoriamente, fez o homem à Sua semelhança. E essa ficção sublime, essa loucura racional, essa ironia definitiva, essa busca pela plenitude que a Cidade dos Homens não pode nos dar, é o que chamamos de Amor.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são estritamente pessoais e não necessariamente refletem aquelas do MRE.
noticia por : Gazeta do Povo


