segunda-feira, 16, março , 2026 02:43

Filmes falaram mais que seus criadores em Oscar sem discursos políticos

A coroação de “Uma Batalha Após a Outra” como melhor filme foi a cereja do bolo de um Oscar recheado de prêmios para compensar a falta de discursos políticos. Afinal, o filme de Paul Thomas Anderson se destacou desde seu lançamento, no ano passado, por evocar uma caricatura política dos Estados Unidos de hoje —um país marcado pela polarização, pelo fortalecimento de grupos supremacistas brancos e pela perseguição a imigrantes.

Quando subiu ao palco, porém, Anderson se limitou a agradecer e soltar uma ou outra frase chocha passível de interpretação. Palavras tímidas para alguém que fez de Leonardo DiCaprio um revolucionário frustrado em uma América decadente, que chega a explodir bombas para libertar imigrantes detidos na fronteira do país com o México.

O filme tocou os votantes do Oscar, em sua maioria profissionais da indústria, conhecida por ser um antro anti-Trump e progressista no país. Essa tendência ajuda a explicar também os holofotes para o cinema brasileiro.

Ainda que não tenha levado prêmios na noite deste domingo, “O Agente Secreto” foi ovacionado pelos presentes no Dolby Theatre sempre que citado. Afinal, assim como “Ainda Estou Aqui”, que levou a estatueta de melhor filme internacional em 2025, a trama de Kleber Mendonça Filho se passa na ditadura militar e faz um retrato da violência endêmica de governos repressivos.

Produções que não dialogam com o caos do mundo atual foram esnobadas. Caso de “Marty Supreme”, com Timothée Chalamet como um ambicioso jogador de tênis de mesa judeu no subúrbio de Nova York, que sonha em ser campeão. O longa é uma típica apologia ao sonho americano —com direito a uma vitória do esportista sobre os japoneses logo após a Segunda Guerra Mundial— e saiu de mãos vazias da cerimônia.

Não fosse o Oscar de melhor atriz a Jessie Buckley, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” também teria passado despercebido. Apesar de ser um retrato dilacerante sobre o luto pelo ponto de vista feminino, a trama se passa no Reino Unido do século 16, às voltas com os dramas de William Shakespeare e sua mulher.

O longa serviu para uma piada de Conan O’Brien, apresentador da cerimônia, quando disse que o parto doloroso que a protagonista faz no meio da floresta, sem assistência, se parece com o serviço oferecido pelo sistema de saúde dos Estados Unidos.

Depois de “Uma Batalha Após a Outra”, o grande vencedor da noite foi “Pecadores”, com quatro estatuetas, terror que conseguiu divertir e ser um sucesso de bilheteria —sem deixar de carregar uma crítica racial afiada. Quando subiu ao palco para pegar o troféu de melhor roteiro, o diretor Ryan Coogler também se absteve de tocar em assuntos delicados, assim como Michael B. Jordan, eleito melhor ator pelo seu trabalho como os gêmeos protagonistas.

Na trama, vampiros brancos tentam invadir uma festa de blues na zona rural dos Estados Unidos nos anos 1930 e transformar todos em monstros sem vontade própria, em uma clara analogia à exploração cultural de pessoas negras e à sua perda de identidade.

A produção foi celebrada por ser uma trama sobre pessoas negras feita por profissionais negros, joia rara em uma indústria ainda pouco diversa. Seu triunfo cai bem a uma Academia que se comprometeu, nos últimos anos, a aumentar a diversidade entre seus laureados e milhares de votantes.

As vitórias do filme representam, ainda, um manifesto da Academia —ou ao menos de parte dela— a favor do cinema em tempos difíceis para os grandes estúdios, que têm penado em conseguir convencer o público a frequentar as salas com seus blockbusters. A história original de Coogler foi um vento fresco em uma Hollywood abafada por sequências e remakes.

Há outro detalhe. Tanto “Uma Batalha Após a Outra” quanto “Pecadores” são da Warner Bros., estúdio centenário que, apesar de mais tímido em relação ao passado, foi até agora responsável por alguns dos poucos filmes de grandes proporções e, ainda assim, com narrativas frescas e ousadas. Uma trajetória que ameaça chegar ao fim com a compra da empresa pela Paramount, estúdio que tem se dobrado aos caprichos de Trump.

O único que pareceu se lembrar disso, no palco, foi Jimmy Kimmel. “Como vocês sabem, há alguns países com líderes que não apoiam a liberdade de expressão. Eu não tenho autorização para dizer quais. Vamos só mencionar Coreia do Norte e a CBS”, disse ele, em alusão à emissora da Paramount que encerrou o programa de Stephen Colbert, crítico ao presidente, quando subiu ao palco para anunciar o vencedor de melhor documentário. Ele ainda zombou do republicano ao dizer que ele estaria triste porque o documentário da primeira-dama, “Melania”, foi esnobado.

Com a retração dos americanos, sobrou para os estrangeiros questionar o status quo. “Todos os adultos são responsáveis por todas as crianças. Não devemos votar em políticos que não levam isso em consideração”, disse o norueguês Joachim Trier, que superou “O Agente Secreto” com “Valor Sentimental”, um dramalhão sobre a relação tempestuosa entre pai e filha.

“Em nome do nosso futuro, parem as guerras”, disse o russo Pavel Talankin, diretor do documentário vencedor “Um Zé Ninguém Contra Putin”. Em outro momento, o ator espanhol Javier Bardem disse “Palestina livre” no microfone, enquanto usava um broche “não à guerra”.

Quando subiu ao palco para receber a estatueta de melhor animação por “Guerreiras do K-pop”, a diretora sul-coreana Maggie Kang falou que o prêmio abriria caminhos para que as novas gerações de cineastas asiáticos não demorassem tanto para serem reconhecidos. A equipe do curta franco-americano “Duas Pessoas Trocando Saliva” fez questão de citar a nacionalidade de cada membro.

Outros comentários políticos ficaram por conta de O’Brien, que disparou alfinetadas contra o governo de Donald Trump, ainda que sem citar o presidente. Ele chegou a falar da lista de Jeffrey Epstein, dizendo que artistas britânicos não estão indicados, mas pelo menos prendem seus pedófilos.

O comediante ainda saudou os espectadores da premiação em Los Angeles falando em espanhol, apontando para a forte presença de latinos na cidade, em oposição às detenções promovidas por agentes federais.

O’Brien ainda disparou contra as big techs. Acenando para a presença do CEO da Netflix no auditório, Ted Seandros, o comediante disse que aquela era a primeira vez do executivo em uma sala de cinema —uma crítica à plataforma, que tem enxugado os períodos entre os lançamentos nas telonas e a chegada ao strea . Em outro momento, uma esquete mostrou um futuro em que filmes seriam feitos em formato horizontal, para o TikTok.

O’Brien tentou, enfim, preencher os silêncios que ecoaram no Dolby Theatre. Quanto aos filmes da safra, eles falam mais que seus criadores.

noticia por : UOL