segunda-feira, 16, março , 2026 06:46

Por que o ChatGPT está sendo cancelado?

Na cultura do cancelamento, empresas ou figuras públicas costumam ser alvo de boicotes após declarações ou comportamentos considerados problemáticos pelos ativistas. Foi assim em 2020, quando a escritora J.K. Rowling foi cancelada após publicar comentários interpretados como transfóbicos.

Como resposta, milhares de leitores anunciaram um boicote à franquia Harry Potter. Livrarias passaram a ser pressionadas a retirar seus livros das vitrines e atores dos filmes da série se distanciaram publicamente da escritora.

É óbvio que movimentos como esse iriam, uma hora ou outra, chegar ao universo da inteligência artificial. A mira agora está apontada para o ChatGPT, o mais novo alvo da cultura do cancelamento.

Ao mesmo tempo em que avança em novas frentes de disputa no Oriente Médio, a guerra contra o Irã está ganhando novos contornos dentro dos Estados Unidos. Esta batalha está sendo travada nas trincheiras digitais, entre a OpenAI e a Anthropic por conta de contratos entre as gigantes da Inteligência Artificial e o governo de Donald Trump. O impasse teve como resultado uma onda de desinstalações do ChatGPT, da OpenAI, e um aumento na busca pelo Claude, da empresa rival. 

O movimento batizado de “Quit GPT” – “Abandone o GPT”, em tradução livre – afirma contar com a adesão de mais de 4 milhões de pessoas que desinstalaram o app de IA de seus dispositivos eletrônicos. A principal justificativa para buscar alternativas ao ChatGPT, descreve o site do movimento, são as ligações estreitas da empresa com o governo Trump.

Além do contrato firmado entre a OpenAI e o Pentágono, em substituição ao acordo anterior da Defesa dos EUA com a Anthropic, o movimento destaca as doações feitas pelo presidente da criadora do ChatGPT, Greg Brockman, à campanha eleitoral de Donald Trump: mais de US$25 milhões.

A ferramenta também estaria sendo utilizada pelo Departamento de Justiça em Washington para recrutar agentes do ICE. Logo, pela lógica dos ativistas digitais, quem usa o ChatGPT financiou indiretamente a morte de duas pessoas em Minneapolis durante protestos realizados na cidade contra o serviço de imigração do governo norte-americano.

Celebridades defendem desinstalação do ChatGPT

Esse discurso foi adotado pelo ator Mark Ruffalo, uma das celebridades que puxam a fila pela desinstalação do ChatGPT. Em uma postagem a favor do boicote compartilhada em seu perfil no Instagram, o ator que deu vida a Hulk em filmes da Marvel afirmou que “a tecnologia deles [OpenAI] dá força ao ICE”. Um seguidor, postando uma resposta, perguntou se o ator abandonaria também seu perfil no Instagram, já que o proprietário da Meta, o empresário Mark Zuckerberg, é simpático ao governo Trump.

A cantora Kate Perry foi outra a se manifestar a favor do Claude, IA rival do ChatGPT. Em seu perfil no X, a artista postou o que seria um print confirmando sua assinatura no serviço de inteligência artificial da Anthropic. Em resposta, uma seguidora questionou se a cantora precisa da IA para compor as músicas.

Boicote ao ChatGPT sugere alternativas, mas pede que pessoas não usem GroK

Após a Anthropic ter se recusado a atender as demandas do pentágono para o uso da inteligência artificial pelos militares, um novo contrato do Departamento de Guerra foi firmado com a OpenAI para o mesmo uso da inteligência Artificial, desta vez com o ChatGPT. O anúncio desencadeou uma reação imediata no setor de tecnologia e entre usuários.

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Dados de empresas que monitoram o setor de tecnologia mostram que o aplicativo ChatGPT registrou um salto de 295% nas desinstalações após o anúncio. Ao mesmo tempo, a Anthropic viu sua popularidade crescer, com o Claude se tornando o app de IA mais popular entre os usuários.

Os ativistas do movimento Quit GPT sugerem o uso de ferramentas alternativas de código aberto como Lumo, Confer, Mistral e LLaMA. Para eles, grandes empresas estariam mais propensas a permitir o autoritarismo pelo uso de suas linguagens.

Há ainda uma clara sugestão de boicote ao uso do GroK, modelo de IA do X, de propriedade do empresário Elon Musk. Segundo o movimento, “as razões para não usar o GroK são óbvias” (apesar de não citar nenhuma dessas razões), mas “felizmente quase ninguém usa o chatbot do Elon”.

“As pessoas acham que o ChatGPT é a única IA disponível, mas não sabem que seus executivos são os maiores doadores de Trump. É hora de mudar esse cenário. Vamos atingi-los no bolso”, aponta o manifesto do Quit GPT.

Ativistas querem que boicote seja adotado na Europa

O sonho de quebrar financeiramente a OpenAI por meio do boicote é compartilhado também do outro lado do Atlântico. Em um artigo publicado no jornal britânico The Guardian, o historiador e escritor holandês Rutger Bregman defende que o movimento de desinstalação do ChatGPT seja abraçado por usuários europeus.

Ele ainda compara a estratégia digital à mobilização feita nos anos 1950 nos Estados Unidos contra a prisão da costureira negra Rosa Parks, que se negou a dar seu lugar no ônibus a um homem branco. Por mais de um ano, moradores negros de Montgomery, Alabama, deixaram de andar de transporte coletivo, o que teria ajudado a falir uma das empresas.

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“Eles não tentaram desmontar todo o aparato de segregação de uma só vez, mas escolheram um alvo e por 381 dias, caminharam, pegaram carona ou dirigiram até o trabalho. Isso quebrou financeiramente a empresa de ônibus. A OpenAI é a nossa empresa de ônibus agora, e é possível cancelar o ChatGPT em segundos. Uma ação pequena, repetida várias vezes, pode se tornar um terremoto político”, escreveu.

Protesto contra ChatGPT não é inédito 

O protesto contra o ChatGPT não é algo inédito no campo da tecnologia digital em uso por forças militares. Em 2018, o Google passou por situação semelhante quando funcionários descobriram que a empresa estava colaborando com o Pentágono no “Projeto Maven”. 

O programa usava tecnologia de Inteligência Artificial para analisar imagens captadas por drones militares e identificar automaticamente objetos e possíveis alvos. 

Houve uma forte reação interna, com mais de 4 mil funcionários do Google assinando uma carta de protesto e a demissão de engenheiros. Como consequência das manifestações internas, a empresa decidiu não renovar o contrato militar e publicou diretrizes públicas de uso ético da IA. 

noticia por : Gazeta do Povo