quarta-feira, 18, março , 2026 11:20

Manuscritos deixados por Paulo Leminski em avião são recuperados após 44 anos

Em 1982, após um voo entre Curitiba e São Paulo, o poeta Paulo Leminski (1944-1989) deixou para trás um envelope na poltrona do avião. O material foi recolhido por Ernani Edson de Paula, então gerente da Varig, que o guardou entre objetos esquecidos sem avaliar seu conteúdo. 

O envelope tinha rascunhos, esboços, páginas datilografadas com correções à caneta, desenhos a pincel atômico e o cartão de embarque original de Leminski. Entre os itens, chamava a atenção uma tradução para o inglês da canção “Esotérico”, de Gilberto Gil, com uma anotação à mão explicando que o trabalho foi feito especificamente para o músico baiano. 

O material permaneceu intocado por 44 anos. Até que, recentemente, a filha de Ernani, Caroline, percebeu que aqueles papéis poderiam ter valor histórico e decidiu buscar uma confirmação de sua autenticidade. 

Ela procurou o jornalista Célio Martins, editor na Gazeta do Povo e conhecedor do trabalho de Leminski desde a década de 1970. Martins imediatamente reconheceu a relevância do conteúdo. 

“Achados originais de figuras importantes do mundo da literatura são acontecimentos incríveis”, diz o jornalista — que avisou as herdeiras do escritor e começou a pensar numa forma de divulgar a descoberta. 

Exposição aberta ao público 

O material será entregue à família de Paulo Leminski nesta quarta-feira (18), às 17h30, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná — um dos locais preferidos de Leminski em Curitiba. Alice Ruiz, escritora e companheira do poeta por mais de 20 anos, e as filhas Aurea e Estrela participam do evento.  

Além de acompanhar a cerimônia, o público terá a oportunidade de conhecer de perto parte dos registros: uma pequena mostra com alguns dos achados ficará em exibição na Biblioteca até o final do mês. 

“O envelope mostra o jeito de produzir dele. Música, poesia, ideias, tudo ao mesmo tempo”, afirma Estrela Leminski, cantora e compositora. “Vai ser importante para o acervo, para a memória cultural brasileira, além de ser uma história muito curiosa.” 

Diferentes linguagens 

Paulo Leminski deixou uma obra variada, marcada pelo trânsito entre diferentes linguagens. Foi poeta, romancista, tradutor, jornalista, publicitário e professor. 

Ele estreou em livro com Catatau (1975), título experimental escrito ao longo de quase uma década. Durante a carreira, combinou poesia breve — muitas vezes influenciada pelo haicai — com ensaios, biografias e traduções.

Leminski traduziu para o português autores como James Joyce e Samuel Beckett. Também dialogou com a música popular, com letras gravadas por diferentes artistas (como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e o grupo local Blindagem).

A publicação da coletânea Toda Poesia, em 2013, ampliou seu alcance e consolidou sua posição como nome influente da literatura brasileira do século XX. O material recém-recuperado não acrescenta obras acabadas ao conjunto, mas revela como elas eram construídas — e ajuda a entender por que sua escrita continua a ser lida e estudada.

noticia por : Gazeta do Povo