É impressionante. Não menos do que impressionante. Para minha geração, que se acostumou a ver o Oscar como uma diversão cafona ou, no meu caso, como uma cólica jornalística anual, é impressionante. É impressionante no que transformam o Oscar. Os indicados ao Oscar. Os discursos do Oscar. A emoção falsa do Oscar. E no que transformaram o cinema.
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Isto é, numa forma de arte panfletária, muito mais comprometida com a ideologia do que com a (olha o clichê aí, gente!) condição humana. Acabaram o amor e a risada. Os dramas morais foram todos sufocados pelo identitarismo. Tampouco há espaço para o perdão num mundo tomado pelo desejo de vingança. E por aí vai. Exceções à parte e tal. E não excluamos da equação o pecado da plateia: ninguém mais vai ao cinema para ver filmes, e sim para confirmar certas posições políticas.
Sabujice
Mas quero voltar ao Oscar para falar, primeiro, da sabujice da esquerda. Da esquerda, cara! Aquela mesma esquerda que ria do Oscar e que vomitava com os enlatados dos U.S.A. de nove às seis, agora só falta dar a patinha, se sentar e rolar no chão à espera de uma cosquinha de Hollywood. “Good boy! Pega aqui a estatueta e pode voltar lá para a selva falar de ditadura, ditadura e ditadura!”.
Porque uma coisa o Oscar (e o cinema) nunca deixou de ser: a premiação burguesa de uma arte que sempre almejou ser aristocrática, mas nunca conseguiu. E uso o termo aqui no seu sentido mais marxista possível. O Oscar é burguês em tudo: na superficialidade, na ostentação, na vulgaridade e na estupidez de acreditar que a premiação é garantia de qualidade, de relevância e de imortalidade. É patético.
Pequenez de espírito
Diante disso, o que faz a direita? Mostra-se superior e dá de ombros para essa festa estranha e com uma gente para lá de esquisita? Tenta explicar às pessoas que, apesar do fuzuê todo, ao longo da história vários filmes icônicos e diretores, atores, roteiristas e técnicos incontestavelmente geniais jamais receberam um Oscar – nem nunca almejaram ganhar a estatueta? Ensina o espectador a apreciar um filme para além das querelas ideológicas?
Não! Claro que não. Incapaz de ignorar a festa, a direita ficou do lado de fora, fazendo piada dos convidados, mas sem desgrudar os olhos da porta, na esperança de que alguém, por engano, dissesse “entra, vem cá ver comigo este espetáculo deprimente de ignorância e ostentação da virtude”. Depois, celebrou a “derrota” de Wagner Moura e Kléber Mendonça – o que, convenhamos, é de uma pequenez de espírito indigna de quem se diz “do lado certo da história” e outras coisas do tipo.
Nada
E é por isso que disse e repito: está todo mundo errado nessa história do Oscar. A esquerda por fingir que não vê que o Oscar premia muito mais o espírito do tempo do que a grandeza de uma obra. Sempre foi assim. E a direita porque, no fundo, adoraria se ver ali, fazendo parte de tudo aquilo que é só uma moda passageira. Um vento frio e seco. Um nada que por algumas semanas só parece tudo porque sempre tem alguém para dizer que é tudo. Não é.
E eu, claro! Sim, também estou errado (e cansado). Eu que insisto em falar para uma plateia cada vez menos interessada em cinema. Uma plateia que, se perguntada, vai dizer, ou melhor, vai jurar que não, que é isso, Paulo?, tá me estranhando?, mas está mais interessada na briga, em tripudiar sobre seus adversários ideológicos, do que em passar por uma experiência estética que tenha algo de minimamente transcendente. (Lacrei).
noticia por : Gazeta do Povo


