Passei a vida inteira me embananando com aqueles tais de cones e bastonetes –afinal de contas, para que serve cada uma das categorias mesmo, meu Deus? Caso você seja ainda mais desmemoriado do que eu, esclareço: essas palavras se referem a dois sistemas especializados de detecção de luz, presentes nas retinas dos olhos de animais como nós.
Os cones, células sensíveis à luz “fabricadas” para operar em condições de luminosidade forte, estão por trás da nossa visão diurna em cores e de alta resolução. Já os bastonetes se viram bem melhor em baixa luminosidade, embora não detectem cores –colaboram para uma espécie de “visão em preto e branco”.
Portanto, parece que, juntos, eles cobrem todas as eventualidades. Acontece, porém, que a capacidade de detectar a luz não serve só para enxergar. Nossas retinas também ajudam a acompanhar as mudanças de luminosidade do dia para a noite e ao longo das estações do ano (com mais luz no verão e menos no inverno, em diferentes graus, dependendo da distância do Equador). E isso, por sua vez, sincroniza direitinho o relógio biológico, fazendo com que o corpo otimize seu funcionamento em conformidade com os ritmos da natureza ao seu redor.
Ora, e se os cones e bastonetes sumissem por completo dos olhos? Os cientistas se puseram a estudar o que acontecia com hamsters e camundongos nessa condição e perceberam que a sincronização do relógio biológico com a luz e as trevas externas continuava indo bem, obrigado. E assim chegaram à descoberta de um terceiro tipo de célula receptora de luz na retina.
Infelizmente, o nome é muito mais indigesto que “cones” e “bastonetes”: ipRGCs (sigla inglesa de “células ganglionares da retina intrinsecamente fotossensíveis”. Ufa). O mais interessante é que, em vez de reagirem à luz num ritmo que, do nosso ponto de vista, parece instantâneo, como o olho normalmente faz, essas células possuem pigmentos com sensibilidade luminosa lenta, segura e gradual. Precisam de minutos ou horas para “carregar”, digamos, e também de uma intensidade mais forte da luz.
O que faz todo o sentido, claro, se o papel delas é “dar corda” no relógio biológico. “É necessário que a duração da luz seja consistente o suficiente para indicar que de fato se trata da fase clara do dia”, escreve o biólogo Tiago Andrade, professor da Faculdade de Medicina da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) e autor do livro “Biotempo: Origem e Evolução do Relógio Biológico”, que acaba de ser lançado pela Editora da Unicamp e de onde tirei essa historieta surpreendente.
O livro de Andrade é um achado. Partindo da lógica evolutiva, indispensável para entender o “design” de qualquer estrutura do mundo vivo, o autor passeia pelas interações intrincadas entre os diferentes relógios internos dos seres vivos e a maneira como eles buscam prever as mudanças do mundo externo e se ajustar a elas.
Como seria de esperar, a luz é, aqui, um dos grandes protagonistas –foi assim que parece ter surgido o primeiro rudimento de relógio biológico, envolvendo apenas três moléculas, em bactérias que faziam fotossíntese (tal como as plantas de hoje e, claro, outros micróbios ainda fazem).
Recomendo a obra para quem quer saber se existiram dinossauros notívagos –e também para quem deseja entender melhor os efeitos da atual profusão de luz artificial na nossa cara 24 horas por dia, sete dias por semana. (Spoiler: coisa boa não é.)
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL


