domingo, 3, maio , 2026 11:58

Robô subaquático rastreia conversas de baleias cachalotes em tempo real

Nas profundezas do oceano, cachalotes nadam pelas águas escuras, comunicando-se uns com os outros em rajadas de cliques sonoros que podem viajar por quilômetros. Agora, cientistas afirmam que estão começando a acompanhar essas trocas em tempo real usando um robô submarino autônomo capaz de rastrear as vozes dos animais.

Os cachalotes usam cliques para navegar e caçar, e também produzem sequências padronizadas de cliques, conhecidas como “codas”, que acredita-se desempenharem um papel fundamental na comunicação. Os cientistas identificaram pela primeira vez que os cachalotes vocalizam em 1957, mas entender como eles se comunicam foi um desafio até então, porque esses mamíferos marinhos mergulham a profundidades de mais de 1.600 m por cerca de 50 minutos a cada hora, tornando a observação contínua desafiadora.

“O planador submarino escuta as baleias por meio de quatro hidrofones e então se direciona até elas usando um recurso chamado ‘backseat driver’ (piloto automático secundário)”, disse David Gruber, fundador e diretor-executivo do Projeto Ceti (Iniciativa de Tradução de Cetáceos, em inglês), professor de biologia e ciências ambientais no Baruch College da Universidade da Cidade de Nova York e coautor do estudo publicado esta semana na revista Scientific Reports.

“Quando o planador detecta as vocalizações características dos cachalotes, o software de bordo identifica de onde vem o som e se comunica automaticamente com o sistema de navegação do planador para mudar de direção e seguir a baleia”, acrescentou Gruber.

Um planador é um pequeno robô que altera lentamente sua flutuabilidade, tornando-se ligeiramente mais pesado para afundar e mais leve para subir.

“Você pode pensar nele como um explorador silencioso de longa distância, mais parecido com um albatroz planando do que com um veículo motorizado, viajando constantemente pelo oceano enquanto escuta e coleta informações pelo caminho”, disse Gruber.

Os métodos tradicionais de rastreamento dependem de etiquetas de sucção que caem após alguns dias ou de sensores fixos que perdem contato quando as baleias se afastam. O Projeto Ceti também utiliza hidrofones —dispositivos subaquáticos que detectam e gravam sons— rebocados por barcos.

O que torna o novo sistema robótico diferente, disse Gruber, é que ele “pode tomar decisões em tempo real enquanto ainda está debaixo d’água”, em vez de gravar dados acústicos para análise posterior.

Métodos anteriores permitiam aos cientistas reconstruir onde uma baleia havia estado, mas não segui-la ativamente no momento. A nova abordagem “atualiza continuamente a trajetória do planador para que ele possa permanecer com uma única baleia por períodos prolongados —potencialmente meses”, disse Gruber.

A capacidade de rastrear baleias por períodos mais longos marca o que Gruber chamou de mudança “de encontros breves para relacionamentos contínuos”, permitindo que os cientistas permaneçam com a mesma baleia ou grupo em vez de depender de avistamentos curtos e oportunistas, e observem padrões de como as baleias se coordenam, socializam e respondem ao seu ambiente ao longo do tempo.

Esses dados também podem ajudar a responder perguntas antigas sobre como os cachalotes se comunicam.

“Ao acompanhar pares de mãe e filhote ao longo do tempo, podemos começar a ver como os filhotes adquirem padrões vocais de suas mães”, disse Gruber.

O sistema também pode revelar como as baleias reagem à atividade humana, permitindo que pesquisadores rastreiem como sua comunicação muda na presença de ruídos produzidos pelo homem e oferecendo uma imagem mais clara de como o transporte marítimo, a construção offshore ou a pesca as afetam.

Ao vincular o comportamento das baleias com pressões ambientais, a tecnologia pode embasar decisões políticas mais precisas e baseadas em evidências, como quando reduzir a velocidade dos navios, redirecionar o tráfego ou implementar restrições de pesca para minimizar perturbações em áreas sensíveis, disseram os pesquisadores.

Desenvolver o sistema “nos aproxima de compreender outra forma de inteligência na Terra, o que tem implicações não apenas para a conservação, mas para como pensamos sobre comunicação e vida além de nossa própria espécie”, acrescentou Gruber.

No entanto, a localização precisa continua sendo um desafio, já que o planador pode detectar a direção de uma baleia, mas não sua posição exata, limitando sua capacidade de distinguir entre baleias individuais e rastreá-las com precisão. A comunicação é outra limitação. O robô precisa vir à superfície a cada poucas horas para enviar e receber atualizações, tornando o monitoramento de longo prazo no mundo real menos fluido.

Para Gruber, o momento em que o planador agiu por conta própria ofereceu o primeiro vislumbre real do que essa tecnologia pode se tornar.

“Estamos começando a construir sistemas que podem operar de forma independente e responder ao mundo natural conforme ele se desenrola”, disse Gruber.

noticia por : UOL