Dois anos depois da tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul, a rede estadual de ensino ainda tem 42 escolas aguardando a conclusão de obras.
As escolas estão situadas na região metropolitana de Porto Alegre e nos vales, duas das áreas mais afetadas pelas enchentes históricas, chuvas e deslizamentos de terra. A maior concentração de obras está nos municípios de Canoas, com sete, e Guaíba, com cinco.
A Secretaria da Educação informou que sete escolas estão funcionando em espaços alternativos enquanto novos locais estão sob construção ou planejamento. Segundo a pasta, os alunos realocados foram encaminhados para unidades próximas às escolas de origem, a fim de não prejudicar o transporte.
Segundo o governo, as escolas que ainda passam por obras seguem em funcionamento, com previsão de conclusão de todos os trabalhos até o fim deste ano.
“Há escolas que seguem em obras não mais por conta dos danos provocados pelas águas, mas por outras demandas que já haviam para qualificação da infraestrutura”, disse a SOP (Secretaria Estadual de Obras Públicas), via assessoria.
A pasta diz que 164 escolas receberam obras após as enchentes, com investimento de R$ 185 milhões, sendo que 105 instituições já tiveram os trabalhos concluídos.
As reformas são financiadas com recursos estaduais e federais, por meio do Funrigs (Fundo do Plano Rio Grande). Criado pelo governo do Rio Grande do Sul, o fundo centraliza e administra verbas destinadas à reconstrução do estado após a tragédia climática de 2024. Os recursos incluem aportes do próprio governo estadual, repasses da União, além de outras fontes, como operações de crédito e doações.
Considerando alagamentos, bloqueios de acesso e suspensão de atividades, 1.104 escolas foram impactadas, quase metade da rede estadual. Apenas entre as escolas estaduais com danos causados pela chuva e pelas enchentes, foram 611 unidades, uma em cada quatro das 2.300 escolas da rede.
As intervenções abrangeram desde limpeza e reposição de equipamentos até reformas estruturais, como substituição de telhados, recuperação de instalações sanitárias e renovação de redes elétricas. Nos primeiros meses após a enchente, o governo destinou cerca de R$ 19 milhões para a compra de 27.436 conjuntos de classes escolares, beneficiando 189 escolas em 59 municípios.
Em Roca Sales, no vale do Taquari, os cerca de 200 alunos da Escola Padre Fernando estão estudando provisoriamente em um espaço da paróquia São José alugado pelo governo estadual.
A escola foi desativada após a enchente do rio Taquari, em setembro de 2023, e o prédio foi inundado novamente em maio de 2024. As duas enchentes deixaram 31 mortos na cidade de 11.000 habitantes. A unidade será reaberta em uma nova área, fora da zona de inundação, com previsão de conclusão das obras para o segundo semestre do próximo ano.
As reformas escolares também contaram com ajuda da população, especialmente em escolas de educação infantil em cidades menores.
Em Muçum, vizinha a Roca Sales, a comunidade precisou se mobilizar duas vezes para reconstruir a rede municipal.
A primeira perda ocorreu em setembro de 2023, quando três das cinco escolas do município foram atingidas, incluindo duas que nunca haviam sido inundadas. “Por isso, as perdas foram enormes. Não retiramos documentos, móveis, nada. Perdemos tudo, restou apenas a estrutura. Foram perdidos bancos, equipamentos eletrônicos, computadores, televisores, classes”, diz Rogéria Sperotto, coordenadora pedagógica da rede municipal de Muçum.
A tragédia afetou toda a comunidade, com professores, funcionários e pais de alunos lidando com faxina e reconstrução de casas, sem estrutura para aulas ou transporte de estudantes.
A escola de ensino infantil Família Feliz funcionou junto a outra escola situada em área seca até o fim do ano letivo de 2023. Reinaugurada com ajuda da comunidade em fevereiro de 2024, ficou novamente submersa dois meses após a entrega.
Na segunda enchente, conseguiram retirar parte dos móveis e equipamentos, mas o prédio foi novamente danificado, com prejuízos na pintura, fiação elétrica e outros itens. “Restou praticamente só o telhado.” As aulas foram suspensas novamente, e os alunos voltaram à escola Pingo de Gente, que havia sido ampliada após as enchentes de 2023.
O Colégio Municipal Alternativo também teve perdas totais, mas já contava com uma estrutura antiga e precária. “Não reabrimos mais essa escola, porque seria necessário praticamente reconstruí-la do zero.” Outra unidade, a Castelo Branco, já havia sofrido com enchentes menores, mas, desta vez, a água chegou ao segundo piso.
Rogéria afirma que as quatro unidades já foram reestruturadas e estão bem equipadas, com doações de materiais escolares e obras de infraestrutura executadas com verba pública e contribuições de empresários e da comunidade. Ela destaca ainda que as tragédias aproximaram ainda mais as famílias das escolas, com maior participação dos pais em eventos escolares. “A escola é vista como um espaço acolhedor”, diz.
A coordenadora diz que o retorno das atividades pedagógicas foi desafiador, e a comunidade escolar continua em reconstrução.
“As crianças ainda demonstram receio em dias de chuva, perguntando se haverá nova enchente. Estamos trabalhando isso aos poucos, ajudando a reconstruir a sensação de segurança e confiança”, afirma Rogéria.
noticia por : UOL


