Mais de uma centena de espécies passaram a integrar a lista brasileira de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção. Entre elas estão as de animais endêmicos, como a arraia-xingu (Potamotrygon leopoldi), que só existe no rio que a batiza, e o coral-de-fogo (Millepora braziliensis), que habita o litoral do Nordeste, e também muito populares, como o tambaqui (Colossoma macropomum), comum na culinária amazônica.
A nova lista foi divulgada pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente) no último dia 28, atualizando uma portaria de 2022 sobre o tema. Ao todo, são 490 peixes e invertebrados considerados sob risco, número semelhante aos 485 da edição anterior, já que também saíram da relação mais de uma centena de espécies aquáticas.
O monitoramento e classificação das espécies é realizado periodicamente, servindo como ferramenta para elaborar medidas de conservação.
“A lista é a principal ferramenta para construir políticas públicas para preservação da biodiversidade“, afirma o diretor de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do MMA, Bráulio Dias, acrescentando que o documento reflete o avanço do conhecimento científico sobre o tema.
Ele diz que o Brasil tem uma das mais abrangentes listas de biodiversidade ameaçada no mundo, com cerca de 5.000 espécies, mais da metade delas sendo da fauna. Ao todo, mais de 15 mil espécies são avaliadas a cada ciclo de atualização.
“Essa lista representa uma aproximação muito mais real do que está acontecendo com as espécies”, avalia Alberto Akama, ictiólogo (estudioso de peixes) e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ele atua na classificação do nível de conservação de espécies desde 2010.
“Muitas espécies foram retiradas da lista de espécies ameaçadas porque obtivemos melhores critérios [técnicos]“, afirma. “Isso é bom, porque assim podemos direcionar mais recursos para aquelas que realmente precisam. A lista não é um fim em si mesma. [O objetivo] é melhorar o estado de conservação dessas espécies.”
Os dados devem ser considerados, por exemplo, em estudos de impacto ambiental associados ao licenciamento de grandes obras. Se a área alvo de algum empreendimento for o habitat de espécies em risco de extinção, podem ser exigidas medidas de compensação ou adaptações do projeto.
As informações também são usadas para a definição de planos de manejo de recursos da flora e da fauna que tenham interesse comercial —aspecto que fica bastante evidente no caso dos peixes, que sofrem, principalmente, com a sobrepesca (captura maior do que a capacidade de recuperação da espécie).
O pargo (Lutjanus purpureus), peixe marinho muito exportado, por exemplo, teve piora no patamar de conservação: passou de “vulnerável” para “em perigo” de extinção. Por isso, o governo federal anunciou que vai revisar as políticas de manejo da espécie, com a adoção de mais restrições à pesca.
Dias afirma que, além da pesca excessiva, um problema para a espécie é a captura de peixes juvenis, que não começaram a se reproduzir, reduzindo a possibilidade de recuperação populacional.
“A maior parte do pargo é exportada para os EUA, e lá eles querem um pargo que caiba inteiro em um prato. Então, não pode ser um peixe muito grande. Isso pressiona o setor pesqueiro a querer pegar mais juvenis. Mas aí qual é a consequência? Diminui a taxa de reprodução da espécie e a coloca em maior risco”, explica.
Outros fatores de pressão para espécies aquáticas variam, em maior ou menor grau, de acordo com a região do país, diz Akama.
Na amazônia, hidrelétricas represam e mudam o curso de rios e fragmentam habitats. No litoral nordeste, a introdução de espécies exóticas e a carcinicultura prejudicam as espécies locais. Já no litoral sul e sudeste, a especulação imobiliária e o desordenamento territorial destroem habitats e contaminam a água. No pantanal, o avanço do agronegócio sobre os aquíferos e rios do cerrado impacta diretamente o fluxo de água para a planície alagada.
Há, ainda, o caso dos tubarões e arraias, que são tanto objeto de pescaria como de captura acidental —e isso não se restringe à pesca industrial, segundo a bióloga Patricia Charvet, professora da Universidade Federal do Ceará e especialista em peixes cartilaginosos.
“O estado de conservação dos tubarões no Brasil não é bom, de modo geral”, afirma a pesquisadora. “Eles mereceriam uma atenção maior quanto à regulamentação e dar alternativa para os pescadores que dependem dessa pesca.”
Charvet ressalta que tubarões e raias têm características únicas entre os peixes, como baixo número de filhotes, crescimento lento e maturação sexual tardia, ou seja, demoram a se reproduzir e deixar descendentes. Isso torna a situação deles preocupante.
“Por exemplo, o tubarão ou cação-mako (Isurus oxyrinchus) e o tubarão-mangona (Carcharias taurus) merecem atenção quanto à conservação. A mangona praticamente desapareceu da nossa costa. Algumas raias de água doce também não têm mais o mesmo patamar de conservação”, diz ela, citando dois tubarões classificados como criticamente ameaçados de extinção.
“Toda espécie que é mantida, ou que sobe de categoria [piora] dentro da lista, preocupa. Significa que os nossos esforços para recuperar a população dessa espécie não estão surtindo efeito, ou pelo menos não no prazo em que houve essa reavaliação”, afirma.
As listas de espécies brasileiras ameaçadas do restante da fauna, flora e fungos estão em processo de elaboração, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
noticia por : UOL


