Às vésperas das eleições de outubro de 2026, os partidos políticos brasileiros travam uma corrida silenciosa longe dos palanques e das propagandas eleitorais: a disputa por filiados. Mais do que um requisito burocrático exigido pela legislação eleitoral, a filiação partidária continua sendo uma das engrenagens centrais da democracia representativa brasileira.
É por meio dela que candidatos obtêm acesso formal às eleições, partidos ampliam sua presença territorial e lideranças políticas tentam consolidar bases de apoio capazes de influenciar o resultado das urnas.
A Constituição brasileira determina que a filiação partidária é condição obrigatória para quem deseja disputar cargos eletivos. Por isso, os partidos seguem exercendo papel fundamental na organização da vida democrática.
Ao reunir eleitores em torno de programas, ideologias e projetos de poder, as legendas funcionam como pontes entre sociedade e Estado, além de servirem como instrumentos de responsabilização política. Em tese, quanto maior e mais estruturada for a base de filiados de um partido, maior tende a ser sua capacidade de mobilização eleitoral.
Mas os números da filiação partidária nem sempre se traduzem automaticamente em votos. O cenário real no Brasil é de milhões de filiados em um sistema marcado por forte fragmentação partidária, personalismo e alianças regionais. Em muitos casos, a filiação ocorre mais por conveniência política ou vínculos locais do que por identificação ideológica duradoura.
Isso ajuda a explicar por que partidos com estruturas gigantescas podem enfrentar dificuldades eleitorais, enquanto legendas menores — impulsionadas por lideranças populares, redes sociais ou movimentos de opinião — conseguem alcançar desempenho expressivo nas urnas.
Nesta reportagem, a Gazeta do Povo fez uma análise da filiação partidária no Brasil segundo os dados oficiais da Justiça Eleitoral: quais partidos mais cresceram, quais diminuíram, como funcionam as regras de filiação e fidelidade partidária, além de outros recortes importantes, como a escolaridade e a faixa etária dos filiados.
Quais partidos mais cresceram no último ano?
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 155.912.680 brasileiros estão aptos a votar nas eleições de outubro de 2026. Destes, pouco mais de 10%, 16.129.441 eleitores, estão filiados a algum dos 30 partidos políticos registrados junto à Justiça Eleitoral. O número está em queda desde abril de 2024, quando o TSE contabilizou cerca de 16,4 milhões de filiados.
O ápice da série registrada pela corte eleitoral ocorreu entre os anos de 2018 e 2019, quando a quantidade de filiados a partidos políticos chegou perto dos 16,9 milhões de eleitores. O maior desinteresse ocorreu em 2013, quando havia apenas 13,8 milhões de filiados.
Em um cenário de queda no número de filiados, o PL é um dos destaques positivos. O partido presidido por Valdemar da Costa Neto e liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu aumentar seu quadro de filiados do ano passado para cá.
Nos últimos 12 meses completos, o PL passou de 899.223 filiados em abril de 2025 para 947.503 em abril de 2026. Os 48.280 novos inscritos representam de 5,37% de aumento de filiados no período.
Com o PL, apenas quatro partidos não perderam filiados entre 2025 e 2026. Veja a lista:
| Partido | CRESCIMENTO DE FILIADOS |
| PL | 48.280 |
| NOVO | 14.640 |
| UP | 2.776 |
| PCO | 99 |
O recém-criado Missão, formado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), não aparece na lista por ter sido fundado em novembro de 2025. Ainda assim, em menos de um semestre conseguiu angariar mais de 22,3 mil filiados em seus quadros. O partido está apto a lançar candidatos, como Renan Santos, pré-candidato à Presidência.
Por outro lado, partidos mais tradicionais sofreram perdas significativas no número de filiados no último ano. Veja a lista dos 10 partidos que mais perderam filiações entre 2025 e 2026:
| Partido | VARIAÇÃO DE FILIADOS |
| MDB | -40.641 |
| PRD | -31.569 |
| PSDB | -27.699 |
| PP | -27.090 |
| PDT | -24.160 |
| UNIÃO | -22.515 |
| PODE | -12.975 |
| PSB | -11.850 |
| PT | -10.737 |
| PV | -7.980 |
Quais são os partidos com mais e menos filiados?
Mesmo com o bom desempenho no último ano, o PL ainda não conseguiu romper a barreira do milhão de filiados. Assim, ocupa a 8ª posição no ranking nacional dos partidos, liderado com folga pelo MDB.
Partido mais longevo registrado no TSE – ativo desde junho de 1981 – o Movimento Democrático Brasileiro é presidido pelo deputado federal Baleia Rossi (SP) e conta com mais de 2 milhões de filiados.
Veja a seguir a lista dos sete partidos políticos brasileiros com mais de um milhão de filiados:
| Partido | FILIADOS |
| MDB | 2.020.280 |
| PT | 1.668.828 |
| PP | 1.289.140 |
| PRD | 1.284.504 |
| PSDB | 1.264.112 |
| PDT | 1.076.218 |
| UNIÃO | 1.069.086 |
Do outro lado da tabela aparecem os “nanicos”, os partidos que contam com o menor número de filiados no país. Veja a lista das 10 agremiações com menos filiações no Brasil:
| Partido | FILIADOS |
| PCO | 7.099 |
| PCB | 11.792 |
| UP | 13.426 |
| PSTU | 14.647 |
| MISSÃO | 22.355 |
| DEMOCRATA | 55.540 |
| REDE | 55.909 |
| NOVO | 79.677 |
| PRTB | 143.278 |
| DC | 182.947 |
Quais são as regras para filiação e desfiliação dos partidos?
A legislação eleitoral brasileira trata a filiação partidária como um direito e um dever. Qualquer cidadão pode pedir, a qualquer tempo, a filiação a um dos partidos políticos em atividade no Brasil. Essa possibilidade, porém, se torna uma obrigação para aqueles que quiseram concorrer a cargo eletivo – para a Justiça Eleitoral, não há como um candidato independente, sem partido, concorrer em uma eleição.
Para vereadores, deputados estaduais e deputados federais, há a figura da “janela partidária”. É um período específico no qual podem ocorrer as mudanças de agremiações. Segundo a lei brasileira, o mandato nos cargos proporcionais pertence não só ao candidato, mas também ao partido pelo qual ele foi eleito. Em 2026, esse período se encerrou em 3 de abril.
Filiados x Fidelidade
De forma natural, é possível atribuir a um partido que conta com mais filiados um maior “potencial eleitoral”. Essa força eleitoral se dá por uma maior capilaridade territorial, garantida por estruturas locais mais amplas e a possibilidade de uma mais militância. Porém, curiosamente, esse potencial não garante automaticamente uma maior capacidade de mobilização eleitoral. Isso ocorre porque no Brasil não são incomuns as filiações feitas por conveniência ou por estratégias eleitorais locais. Na prática, acaba reduzida a capacidade de transformar filiados mais pragmáticos em apoio político efetivo.
Já partidos altamente personalistas podem ter grande desempenho eleitoral mesmo sem bases massivas de filiados. Não raro, no Brasil contemporâneo alguns fatores como a exposição midiática, presença nas redes sociais, liderança carismática, recursos do fundo partidário e apoio de prefeitos e governadores muitas vezes pesam mais do que o tamanho formal da militância.
Outro fator é a fidelidade partidária, ou, em outras palavras, por quanto tempo determinado eleitor permanece filiado a um determinado partido. Também é natural que partidos mais antigos, como o MDB e o PT – registrado no TSE em novembro de 1981 – tenham mais filiados igualmente longevos.
E é exatamente o que se verifica nos dados da Justiça Eleitoral. Ambas as legendas, ao lado do PSDB, com quase um milhão de filiações com mais de uma década de duração formam o pódio entre os partidos com filiados há mais tempo. Destaque também para o PRD – formado em 2023 pela fusão do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) com o Patriota – que assim como os anteriores conta com mais de 78% de seus quadros filiados há mais de uma década.
Na lista dos partidos com os filiados mais antigos aparecem legendas relativamente novas, como o União, PL e o Podemos. Pelas contas do TSE, preserva-se o tempo de filiação das antigas agremiações que se fundiram ou foram absorvidas pelos novos partidos, como Partido Social Liberal (PSL) e Democratas (DEM) fundidos no União em 2022; Partido da República (PR) renomeado como PL em 2019; e Partido Trabalhista Nacional (PTN) renomeado como Podemos em 2017.
Veja a lista dos 10 partidos com maior número de filiados há mais de 10 anos
| PARTIDO | % DO TOTAL DE FILIADOS | FILIADOS HÁ MAIS DE 10 ANOS |
| MDB | 80,97 | 1.635.958 |
| PDT | 79,14 | 851.778 |
| PSDB | 78,58 | 993.410 |
| PRD | 78,26 | 1.005.248 |
| PT | 76,64 | 1.279.079 |
| PP | 75,64 | 975.057 |
| UNIÃO | 72,57 | 775.873 |
| PSB | 64,04 | 410.120 |
| PODE | 60,52 | 483.070 |
| PL | 57,89 | 548.510 |
Por outro lado, os dados do TSE permitem filtrar também aqueles partidos com uma atração recente de novos filiados. Neste recorte, que abrange os partidos com maior número de filiados há 5 anos ou menos, o PL aparece em franca liderança no ranking de renovação de quadros, em números absolutos.
Quando são levados em conta os percentuais de filiados recentes, o Psol se destaca, com mais de 42% de seus quadros filiados há 5 anos ou menos.
Veja a lista de partidos com mais filiados há 5 anos ou menos:
| PARTIDO | FILIADOS HÁ 5 ANOS OU MENOS | % DO TOTAL |
| PL | 285.680 | 30,15 |
| PT | 204.162 | 12,23 |
| MDB | 177.395 | 8,78 |
| REPUBLICANOS | 149.470 | 26,42 |
| PP | 147.209 | 11,42 |
| UNIÃO | 136.561 | 12,77 |
| PSD | 132.800 | 28,53 |
| PSOL | 124.068 | 42,57 |
| PSB | 97.829 | 15,27 |
| PODE | 87.198 | 10,92 |
Filiados x Faixa Etária
O voto dos eleitores maiores de 16 anos e menores de 18 anos foi garantido pela Constituição de 1988. Para esta faixa etária, diferente daqueles que atingiram a maioridade, o comparecimento às urnas é permitido, mas não obrigatório.
Apesar de não poderem concorrer a cargo eletivo – o piso etário é de 18 anos para candidatos a vereador – esses adolescentes já podem se filiar a partidos políticos no Brasil.
Proporcionalmente, entre os 10 partidos com mais filiados jovens, o UP lidera com 32,82% dos seus quadros dentro da faixa etária igual ou abaixo de 24 anos. Logo atrás aparecem o Missão, com 28,42% de jovens, e o Novo, com 5,36% dos quadros nesse recorte.
Veja a lista proporcional de partidos com mais filiados jovens, com 24 anos ou menos:
| PARTIDO | % DE FILIADOS COM 24 ANOS OU MENOS |
| UP | 32,82% |
| MISSÃO | 28,42% |
| NOVO | 5,36% |
| PCO | 4,96% |
| REDE | 4,16% |
| PSOL | 3,82% |
| PSD | 1,65% |
| REPUBLICANOS | 1,59% |
| PL | 1,48% |
| AVANTE | 1,44% |
Filiados X Escolaridade
O processo eleitoral brasileiro, quando comparado ao de outros países do mundo, é um dos mais abrangentes. Prova disso é que até as últimas eleições gerais, em 2022, até mesmo pessoas privadas de liberdade puderam votar.
O voto dos eleitores analfabetos, por exemplo, foi um direito garantido durante o período do Brasil colonial e no Império. Em 1881 essa possibilidade foi abolida, e só voltou em 1985, por meio de uma emenda à Constituição Federal em vigor à época, promulgada em 1967.
Para integrar esse público iletrado, a Justiça Eleitoral alterou a forma do eleitor indicar seus favoritos. Se antes só eram válidos os votos onde constasse o nome completo do candidato, passou a valer o voto nos números – base do sistema de urnas eletrônicas, em vigor desde 1996.
Os dados mais recentes do IBGE sobre este tema, de 2022, mostram que 11,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais são analfabetas. Segundo o TSE, 5,5 milhões dos eleitores aptos a votarem em outubro de 2026 estão nesse recorte, não sabem ler nem escrever. Deste total, 365 mil desses brasileiros sem instrução são filiados a algum partido político.
Proporcionalmente falando, o PCB é o partido com mais filiados analfabetos no Brasi – 4,49% de seus quadros não sabem ler nem escrever. Outro partido ligado ao comunismo, o PCdoB, aparece em segundo lugar, com um total de analfabetos de 3,14%. O Mobiliza, antigo Partido da Mobilização Nacional (PMN), completa o pódio com 2,88% de filiados iletrados.
Veja a lista dos 10 partidos com mais filiados analfabetos:
| PARTIDO | % DE ANALFABETOS NO TOTAL DE FILIADOS |
| PCB | 4,49 |
| PCDOB | 3,14 |
| MOBILIZA | 2,88 |
| PRD | 2,75 |
| PRTB | 2,73 |
| PSTU | 2,69 |
| CIDADANIA | 2,58 |
| DC | 2,52 |
| UNIÃO | 2,46 |
| AGIR | 2,44 |
| AVANTE | 2,44 |
O TSE também permite a filtragem dos partidos políticos com mais filiados com ensino superior completo, o mais alto grau de escolaridade presente na base de dados da Justiça eleitoral. A seguir, os partidos com maior proporção de filiados no teto da escolaridade:
| PARTIDO | % DE FILIADOS COM ENSINO SUPERIOR |
| NOVO | 36,25 |
| PSTU | 23,90 |
| PCO | 21,85 |
| REDE | 19,65 |
| PSD | 19,30 |
| PV | 19,03 |
| MISSÃO | 18,30 |
| PSDB | 17,63 |
| PT | 17,30 |
| PSB | 16,49 |
Identidade de gênero x filiação partidária
A base de dados do TSE também permite a filtragem de eleitores que se autodeclaram transgênero.
Quando analisados apenas os números absolutos, PT e Psol, sozinhos, somam mais de 25% dos filiados a partido que se declararam transgênero. Mas quando se leva em conta o percentual de filiados sob esse recorte, a liderança passa para o UP, com mais de 1,5% de transgêneros entre seus filiados. Psol e PCO completam a lista dos três primeiros.
Veja, a seguir, quais são os 10 partidos com mais filiados transgênero em proporção:
| PARTIDO | QUANTIDADE DE FILIADOS TRANSGÊNERO | % DO TOTAL DE FILIADOS |
| UP | 211 | 1,57% |
| PSOL | 540 | 0,19% |
| PCO | 10 | 0,14% |
| REDE | 52 | 0,09% |
| DEMOCRATA | 36 | 0,07% |
| MISSÃO | 11 | 0,05% |
| PCDOB | 160 | 0,04% |
| PSTU | 6 | 0,04% |
| SOLIDARIEDADE | 148 | 0,04% |
| PT | 637 | 0,04% |
noticia por : Gazeta do Povo


