
Kevin Warsh, presidente do Fed indicado por Trump.
Reuters
O economista Kevin Warsh assume nesta sexta-feira (22) a presidência do Federal Reserve (Fed). Indicado por Donald Trump, o novo chefe do banco central dos Estados Unidos toma posse em um cenário de inflação pressionada pelos preços de energia, devido à guerra no Oriente Médio. A cerimônia ocorre às 12h (horário de Brasília).
A atenção do mercado em relação ao novo comandante do banco central americano cresceu diante da forte pressão exercida por Donald Trump sobre Jerome Powell, ex-presidente do Fed, a partir de 2025. Powell deixou a chefia do BC na última sexta (15), mas segue como diretor.
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Veterano na máquina pública americana, Kevin Warsh já foi diretor do Fed e, agora, passa a liderar o comitê responsável pela política monetária dos EUA — ou seja, o grupo que decide a taxa básica de juros do país, hoje na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
Há um cenário de desconfiança em relação a Warsh por causa das críticas frequentes de Trump ao Fed e, especialmente, a Powell, em meio à pressão do presidente por cortes nos juros. Nesse contexto, o principal receio do mercado é uma possível interferência do republicano nas decisões da instituição, que atua com independência.
🔎 Mudanças no comando do banco central dos EUA podem influenciar diretamente os rumos dos juros no país — com reflexos também no Brasil. Os impactos costumam ser sentidos na taxa básica de juros, a Selic, na cotação do dólar e na bolsa de valores. (leia mais abaixo)
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Para especialistas ouvidos pelo g1, apesar do fator político envolvendo Trump, Warsh também é visto como um nome técnico por já ter passado pelo Fed. Ele atuou como diretor na instituição durante o governo de George W. Bush, entre 2006 e 2011.
“Warsh não é visto como um nome totalmente político. Isso pode reduzir parte do receio do mercado”, afirma Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, tem a mesma leitura. Segundo ele, Warsh sempre adotou uma postura mais rígida no combate à inflação, defendendo juros mais altos quando necessário para controlar os preços.
“Por isso, a expectativa é que ele mantenha essa linha e não ceda às pressões políticas de Donald Trump por cortes nos juros. Acredito que, pela trajetória dele, essa deve ser a postura adotada”, afirma.
De forma geral, a avaliação é que os temores iniciais de interferência de Trump diminuíram, mas não foram eliminados por completo. Por isso, agentes do mercado global vão monitorar de perto a postura do Fed nas primeiras decisões sobre os juros sob o comando de Warsh.
Incerteza à frente
O Fed tem um mandato duplo: controlar a inflação e sustentar o mercado de trabalho. Para isso, usa principalmente a taxa de juros.
🔎 Quando os preços sobem muito, o banco central eleva as taxas para frear o consumo e o crédito. Já em momentos de desaceleração econômica, reduz os juros para estimular a atividade.
Plínio Zanini, diretor de risco da Ciano Investimentos, afirma que ainda é cedo para saber qual será a postura predominante de Warsh no comando do Fed.
Segundo ele, o mercado tenta entender se o novo presidente manterá uma linha mais rígida no combate à inflação ou se adotará uma postura mais favorável à redução dos juros.
Parte dessa dúvida vem das declarações de Warsh sobre os ganhos de produtividade gerados pela Inteligência Artificial (IA). Na visão do novo chefe do Fed, o avanço da tecnologia pode ajudar a conter a inflação naturalmente, sem a necessidade de juros tão altos.
“A grande ambiguidade hoje é entender qual Warsh vai aparecer: o que defendia juros altos para controlar a inflação ou o que pode apostar menos na taxa para conter os preços”, diz Zanini.
Pressão do petróleo muda cenário
A escalada das tensões no Oriente Médio e a alta do petróleo passaram a ser o principal obstáculo para uma eventual redução dos juros nos EUA. O avanço dos preços dos combustíveis pressionou a inflação americana e mudou as expectativas do mercado.
Segundo Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, a guerra alterou rapidamente o cenário. O mercado, que antes esperava cortes nas taxas, agora já discute a possibilidade de juros mais altos por mais tempo para conter a inflação.
“O grande assunto no curto prazo continua sendo o petróleo”, afirma o estrategista, acrescentando que a alta da commodity aumenta a pressão inflacionária e dificulta um alívio nos juros pelo banco central americano.
Mudança na comunicação do Fed
A expectativa do mercado é que Kevin Warsh adote uma comunicação mais discreta no comando da instituição, reduzindo indicações antecipadas sobre os próximos passos dos juros — prática conhecida como “forward guidance”.
“Warsh é crítico ao modelo atual de comunicação do Fed”, afirma Marco Saravalle, da Krivo Capital.
Plínio Zanini, da Ciano Investimentos, avalia que essa postura pode dar mais flexibilidade ao banco central, ao permitir mudanças de trajetória sem compromissos públicos tão claros. Por outro lado, diminui a previsibilidade.
Segundo analistas, Warsh também pode reduzir a frequência de coletivas de imprensa, o que tende a aumentar a incerteza e a volatilidade nos mercados no curto prazo.
Os impactos para o Brasil
As decisões do Fed afetam diretamente o Brasil porque influenciam o movimento global de investimentos.
“Nós temos um fluxo de capitais dividido entre países emergentes e os EUA. Se o juro sobe lá, os recursos tendem a ir para o mercado americano, e a moeda brasileira sofre um pouco”, explica Alex Agostini, da Austin Rating.
🔎 Taxas elevadas nos EUA também reduzem o espaço para cortes na Selic, a taxa básica brasileira. Isso acontece porque o ambiente externo mais pressionado fortalece o dólar e exige que países emergentes mantenham juros altos para atrair capital e para conter a inflação.
Nesse contexto, o mercado ficará de olho na condução de Warsh.
Uma eventual redução dos juros tende a favorecer a entrada de investimentos no Brasil. Se isso acontecer por pressão de Trump, no entanto, a leitura será de perda de independência do Fed — o que pode gerar o efeito contrário.
Se o mercado enxergar uma perda de credibilidade no combate à inflação, a curva de juros futura dos EUA pode subir, fortalecendo o dólar e reduzindo o fluxo para países emergentes, explica Tales Barros, da W1 Capital.
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