quarta-feira, 27, maio , 2026 12:21

Criador de 'Os Testamentos' afirma que seguirá história enquanto houver interesse

Há algo muito poderoso em ser uma garota adolescente. Até mesmo em Gilead, uma teocracia fictícia imaginada por Margaret Atwood, que ocupou o lugar dos Estados Unidos e onde as mulheres são meras perpetuadoras da espécie. “Não tem a ver com seu poder na sociedade, é uma coisa de potência física, sexual, emocional, de crescer, de ver tudo isso explodir”, diz o roteirista e produtor Bruce Miller.

Foi ele que transformou em série “O Conto da Aia” (“The Handmaid’s Tale“), obra-prima da canadense Atwood, e agora dá vida à sequência dessa distopia social tão presciente, “Os Testamentos: das Filhas de Gilead“.

A segunda temporada foi confirmada pouco após ele conversar com a reportagem da Folha, no último dia 20. A primeira, que chega ao fim nesta quarta (27) após dez episódios na Disney+, é permeada tanto pela força súbita que o roteirista descreve quanto por uma esperança teimosa inimaginável na primeira adaptação, que ficou no ar de 2017 a 2025 e cavou um lugar definitivo na cultura pop.

“Acho que [essa mistura de forças] traz otimismo”, diz. Não importa o que tentem fazer com elas. Tentam arrancar a adolescência delas, e isso não funciona.”

Não que “Os Testamentos” tenha um enredo infanto-juvenil, longe disso. Ainda assim, a ideia de contar a história de um regime hediondo pelo ponto de vista de quem cresceu dentro dele subverte a lógica de sofrimento que marcou “O Conto da Aia”. É um alento bem-vindo nestes tempos em que o noticiário compete com a ficção quando os temas são autoritarismo, misoginia e retrocesso de direitos civis.

A série, como o livro, alterna relatos de três mulheres que Gilead forjou: Agnes (Chase Infiniti), a filha da protagonista de “O Conto da Aia” sequestrada e criada por uma família da elite local; Daisy (Lucy Halliday), uma garota canadense cooptada pelos rebeldes e enviada ao centro do regime como espiã; e tia Lydia (Ann Dowd), a responsável por educar as filhas da aristocracia e já conhecida na série anterior como a implacável tutora das aias (as servas sexuais obrigadas a repovoar o país).

É uma visão daquelas que foram “privilegiadas” por Gilead, ainda que esse privilégio se manifeste de forma circunscrita. “Eles colocam [as meninas] em um pedestal, depois as derrubam e pisoteiam. Permitem que elas tenham vontades e depois dizem que ter vontades é algo terrível. Querem que elas se tornem criaturas perfeitas, mas que não pensem e sejam assexuadas”, afirma Miller.

O showrunner não faz a comparação; é difícil, porém, ouvir seu comentário e não pensar na promoção da cultura das “tradwives”, segundo a qual a felicidade, para as mulheres, está exclusivamente em servir ao marido. Por isso, talvez “Os Testamentos” sirva como sobreaviso para jovens (e velhos) que andem encantados com a retomada de um passado simples e idílico que na realidade nunca existiu.

“Há muita diferença em Gilead entre as pessoas que conheceram o mundo como ele era e aquelas que não conheceram nada. Para nós que assistimos, contudo, as coisas não são claras asim. Veja Agnes e Hulda [sua colega, vivida por Isolde Ardies]. São mulheres fortes, tomam suas próprias decisões. E não são as decisões que o governo quer que elas tomem”, aponta, referindo-se à obrigação do casamento na adolescência com um homem que elas não escolheram.

Esse elemento traz uma ambiguidade moral a “Os Testamentos” que não aparecia, ao menos não como um tema relevante, em “O Conto da Aia”. Já o mote secular de que os fins justificam os meios, recorrente tanto nos defensores do regime quanto nos rebeldes, continua a ser um alicerce da história.

É sob essa luz que temos o retorno da tia Lydia, personagem magistralmente interpretada por Ann Dowd. Nela residem as principais provocações e dualidades de “O Testamento”, mais evidentes quando temos um flashback de sua vida pregressa. Antes uma colaboradora, Lydia agora também é uma sobrevivente, frisa Miller.

Com a mudança na missão das tias —de tutoras de aias para educadoras de futuras esposas—, Lydia passa a se preocupar com seu legado, ao mesmo tempo em que desperta para a corrupção no sistema de Gilead, onde nem as mulheres que supostamente estão no topo escapam de uma vida servil.

“Tem algo na forma como ela se autoexamina, a franqueza, sua inteligência, as justificativas que dá a si mesma, que faz com que nos conectemos. Ela não está mentindo para si mesma de uma forma imbecil, ela está mentindo de uma forma que nós fazemos para mesmos.”

Miller conta que foi Dowd quem infundiu mais humanidade à personagem, deixando patente a ternura de Lydia pelas alunas, ou mesmo por algumas das aias, apesar de tudo. Se isso será suficiente para movê-la resta saber.

“Esse amor está incrustado na Lydia da mesma forma que está incrustado na Ann Dowd, alguém que adora seus colegas de cena. Isso transparece. A contradição da Lydia nasce na atriz. Isso é o melhor da TV, você consegue, com o tempo, levar coisas do intérprete para o personagem.”

O roteirista diz que não esperava deixar uma marca tão forte no imaginário pop quando começou, na década passada, o projeto de levar a obra de Atwood às telas —o livro “O Conto da Aia” foi lançado em 1985; a sequência passou 34 anos em produção e só chegou às livrarias em 2019. (Miller comenta que a obra tem muitos fãs no Brasil, e solta um “sinto muito” sincero ao ouvir que há motivos para isso).

“Eu fiquei surpreso [com a repercussão], nunca estive envolvido em nada assim. Por aí você vê o poder desse livro, 40 anos depois, com a série, parece que foi escrito agora.”

Uma crítica que o autor recebeu em relação a “O Conto da Aia” foi a de que a série se esticou por temporadas demais, esgarçando a história do livro. E em “Os Testamentos”, há mais temporadas por vir?

“Acho que cobri pouco do livro na série. Enquanto as pessoas estiverem interessadas na história, eu adoraria continuar acompanhando esses personagens, e a TV permite que você explore pequenos desvios na narrativa”, afirma. “Vou ficar feliz se alguém fizer outra série com base nos livros. Sou tão fascinado pelo que está acontecendo [no seriao] que não acho que esteja esticando nada.”

Por ora, os desdobramentos no mundo real parecem corroborar a opinião de Miller. Não que isso seja bom sinal.

noticia por : UOL