O avanço da proposta que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal para 40 horas na Câmara dos Deputados acendeu o alerta no mercado. O texto, que agora depende do aval do Senado, empurra os empresários para o retrovisor. Em meio às discussões mais acirradas sobre a medida, as atenções se voltam para movimentos estratégicos em direção ao exterior.
Luciano Hang, dono da Havan, realizará uma visita ao Paraguai, a convite do presidente Santiago Peña. O empresário, que projeta um aumento de custos de 15% a 20% com o fim da 6×1 e prevê uma “quebradeira” de pequenas e médias varejistas, foi direto ao explicar o movimento. Ele disse à Folha de S.Paulo que não pode ser “o último empresário a apagar a luz”. Seus fornecedores, contou, já estão lá. Seus amigos também. Ele quer entender por que o vizinho atraiu mais de 250 empresas brasileiras.
Hang é o nome mais conhecido, mas está longe de ser o único. A têxtil Lupo já ergueu uma fábrica de meias em Ciudad del Este. A Riachuelo também atravessou. E o movimento não se mede apenas em grandes marcas: em 2025, mais de 17 mil brasileiros obtiveram residência no país, um recorde que consolidou o Paraguai como o principal destino regional para quem foge da burocracia e dos custos de operar no Brasil. Se a 6×1 cair, a tendência é que a fila aumente.
O que o vizinho oferece, e o que o Brasil deixou de oferecer, cabe em alguns pontos.
1. O modelo “10-10-10”
A explicação mais simples para a migração também é a mais poderosa. No Paraguai vale uma regra que cabe em três números: a alíquota máxima do imposto de renda é a mesma para empresas e pessoas físicas, 10%, e o imposto sobre valor agregado segue o mesmo teto. Em alguns casos a taxa cai pela metade ou nem é cobrada.
A simplicidade, sozinha, já é um atrativo. No Brasil, estima-se que a carga fique na faixa de 30%. O empresário que cruza a fronteira troca uma alíquota alta por uma baixa, além de abandonar um sistema confuso por um que ele consegue entender sem advogado.
2. A renda que o fisco não enxerga
O Paraguai não tributa a renda de origem estrangeira. Para um empreendedor que vende para fora, ou para um trabalhador remoto, o efeito é imediato: aquilo que entra de outro país não passa pela mão do Estado paraguaio.
É o tipo de regra que torna o país atrativo não só para quem quer montar fábrica, mas também para empreendedores internacionais e trabalhadores remotos.
3. Um IVA que é um terço do brasileiro
A reforma tributária no Brasil projeta um IVA (Imposto sobre Valor Agregado) na casa dos 28%, despontando como o mais alto do mundo. Do outro lado da fronteira, o mesmo imposto unificado tem teto de 10%, e produtos essenciais como aluguel, cesta básica, hortifruti e medicamentos pagam 5%.
Não é uma diferença de ajuste fino. É quase três para um. Para indústrias de margem apertada, têxteis, plásticos, metalúrgicas, esse espaço decide se o negócio fecha no azul ou no vermelho.
4. A Lei de Maquila
O instrumento mais inteligente que o Paraguai criou tem nome próprio. O Regime de Maquila permite importar máquinas, matéria-prima e insumos com imposto zero, desde que a produção se destine à exportação, e cobra um tributo único de 1% sobre o valor dos produtos que saem do país. As cargas ainda passam mais rápido pela alfândega.
A engrenagem foi desenhada para o vizinho. Dados do Ministério da Indústria e Comércio paraguaio mostram que 65% do que se produz sob o regime vem para o Brasil. A Lupo é o retrato do mecanismo: com a planta de Ciudad del Este operando a plena capacidade neste ano de 2026, são esperados 350 empregos diretos e 20 milhões de pares de meia por ano, com investimento de R$ 30 milhões.
5. Mão de obra mais barata e menos amarrada
Este é o ponto que conversa com a votação no Congresso. Para o adido comercial Sebastián Bogado, a soma de proximidade, custos operacionais menores, impostos baixos, energia barata e regras trabalhistas mais leves pode reduzir o custo final de produção em até 40%. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele resumiu a inversão: hoje são as empresas brasileiras que procuram o Paraguai, e não o contrário.
O fim da escala 6×1 entra exatamente nessa conta. No Paraguai, a lei prevê uma jornada de até 48 horas por semana. Se a jornada de 40 horas encarece a folha do varejo e da indústria brasileira, como projetam empresários como Hang, o diferencial de custo que já existe fica maior.
6. A fronteira logo ali
Há outro detalhe que torna o cálculo irresistível para o industrial brasileiro: a distância. Ciudad del Este não fica do outro lado do mundo. Fica do outro lado de uma ponte.
Em entrevista à Gazeta do Povo, o economista Cláudio Shimoyama, que mantém uma consultoria no país para atender quem quer migrar, disse que sai mais barato produzir no Paraguai e exportar para o Brasil do que manter a fábrica em território nacional. Os custos menores compensam o gasto extra de transporte. A energia barata ajuda a fechar a equação.
7. Uma política de Estado, não de governo
O que mais impressiona empresários não é nenhuma alíquota isolada, mas a promessa de que ela continuará lá amanhã. Shimoyama destacou que o desenho tributário paraguaio foi tratado como política de Estado, não de governo, o que dá previsibilidade a quem investe pensando em décadas. Para ele, alíquotas menores ainda alimentam um círculo virtuoso, porque reduzem o incentivo à sonegação.
Os números chancelam a fama. Com tributos equivalentes a apenas 14% do PIB, o Paraguai obteve recentemente 96 pontos de 100 em carga tributária no Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, a maior nota da América Latina. É esse retrato, mais do que qualquer propaganda oficial, que tem feito o empresário brasileiro olhar para o oeste.
noticia por : Gazeta do Povo


