domingo, 7, junho , 2026 09:39

Feira do Livro, no último dia, debate gênero com Carol Pires e Thomás Aquino

Neste domingo, 7, último dia de Feira do Livro, a jornalista Carol Pires e a psicanalista Vera Iaconelli convidaram o advogado Renan Quinalha e o ator Thomás Aquino para o papo “Nem Todo Homem”, sobre masculinidade e as consequências de não falar sobre ela.

Considerados “aliados” pelas mediadoras, o advogado e o ator se colocaram em um debate do qual muitos homens estão acuados —por medo de cometerem erros ou de lembrarem algum que já cometeram, disse Pires.

A expressão que deu nome ao encontro é, segundo a jornalista, usada por muitos homens como muleta para sair do debate das questões de gênero sem resolver os seus problemas.

Apesar disso, ela é verdadeira. “A gente está fingindo que os homens legais não estão por aí, mas eles estão”, afirmou Iaconelli. “Sem aliados masculinos a gente não vai sair dessa pocilga”.

Essa pocilga à qual a psicanalista se refere é uma realidade onde mulheres são vítimas de um sistema patriarcal que em grande parte das vezes resulta na morte delas. “A solução do masculino muitas vezes é descontar”, afirmou Aquino.

Suas amizades com homens, contou o ator, são baseadas em momentos que envolvem mais bebidas do que conversas sobre sentimentos.

Quinalha afirmou que a masculinidade é produzida com violência, seja sobre si mesmo ou sobre os outros. O processo de tornar-se homem, segundo ele, envolve um endurecimento e uma rejeição de tudo que aproxime o indivíduo do feminino.

O seu processo, em particular, ainda ganhou uma camada mais complexa. Sendo um homem gay, Quinalha cresceu ouvindo que não era homem o suficiente.

O mesmo acontece com mulheres heterossexuais, disse Iaconelli. “Se elas não escolhem o celibato, estão dormindo com o inimigo.”

O encontro ocorreu sob o som alto de uma cerimônia de formatura da Polícia Militar do Estado de São Paulo, realizada no estádio do Pacaembu, e que acabou sendo usada no encontro como metáfora para a importância de levar as conversas sobre o masculino para os ambientes de homens. Iaconelli brincou extendendo um convite aos militares para participarem do “curso para homens”.

Longe do som do rito que durou o dia inteiro, Reinaldo Moraes e Ian Uviedo encheram o auditório em uma conversa potencializada por seus 49 anos de diferença.

Aos 76 , Moraes contou que começou a levar “porradas” no final dos anos 1970, quando as amigas começaram a corrigir falas machistas que ele reproduzia. Pai de três filhas, ele é constantemente educado dentro de casa. “Não há estância onde eu possa me sentir cancelável porque só tenho WhatsApp”, afirmou.

Já Ian Uviedo, de 27 anos, é de uma geração que vive a consequência das ações de gerações anteriores. Os nascidos na transição do último século, segundo ele, receberam uma “bucha” de questões ambientais, de gênero e raciais para discutir. “Tenho orgulho e prazer de fazer parte dessa geração”, disse o autor.

Provocado pelo mediador Fernando Luna, Moraes contou que se percebeu velho quando passou a perceber déficits biológicos e cognitivos. “Mas graças ao envelhecimento eu esqueço disso”, brincou ele, levando a plateia a gargalhadas.

No início da tarde, a médica e escritora Ana Claudia Quintana Arantes falou no palco externo sobre um assunto que muitos ainda evitam: a morte. Sem tabu, Arantes afirmou que não falar sobre a morte, não a adia. Assim como falar sobre ela, também não a atrai. “Eu falo sobre isso há 30 anos e ainda não morri”, lembrou.

Arantes ganhou notoriedade ao falar sobre o tema em uma palestra Ted em 2013 que depois se tornou o livro “A Morte É Um Dia que Vale a Pena Viver”, há dez anos no topo da lista de livros mais vendidos no Brasil, como lembrou o jornalista da Folha Uirá Machado, que mediava a mesa. Para a autora, o sucesso contínuo da obra se dá porque as pessoas continuam morrendo.

A dificuldade de falar sobre o tema, segundo ela, se dá porque as pessoas acreditam que isso vai causar sofrimento —mas não falar sobre o causa também. Ela lembrou de diversos caso de pacientes que, com parentes em coma, não sabiam dizem se estes queriam ser cremados ou enterrados. “Pessoas que não falam sobre a morte estão escolhendo viver mal, morrer mal e amar pouco.”

Uma das formas de atenuar o sofrimento envolvido na morte é através dos cuidados paliativos, tema que Arantes discute em seu “Cuidar até O Fim”, livro sobre uma experiência de morrer mais humana. O cuidado paliativo, como explicou a médica, provê o alívio do sofrimento de uma pessoa quando ela está diante de uma doença que ameaça a continuidade da sua vida.

No Brasil, costuma-se adiar esse alívio para quando a cura parece improvável. Arantes propõe que esse cuidados sejam aplicados desde o começo do tratamento. “A banalização do sofrimento faz parecer que esse é o preço que se paga pela cura, mas não é”.

noticia por : UOL