segunda-feira, 15, junho , 2026 05:10

Como a frase ‘Em Deus nós confiamos’ foi parar no dólar?


Os filhos de Matthew Rothert Sr., empresário do estado do Arkansas que liderou uma campanha para incluir a expressão “In God We Trust” (“Em Deus nós Confiamos”) nas cédulas dos Estados Unidos, afirmam que a trajetória do pai demonstra como uma iniciativa individual pode produzir impacto nacional.

Presbiteriano, fabricante de móveis e colecionador de moedas, Rothert afirmou ter iniciado sua campanha após uma experiência ocorrida durante um culto em Chicago, em 21 de junho de 1953. Segundo sua filha, Alice Rothert Nelson, ele acreditava que Deus o havia inspirado a defender a inclusão da frase nas notas de papel, já que a inscrição já aparecia em moedas americanas.

“O prato da coleta estava circulando, e ele sentiu que Deus lhe dizia que as moedas tinham a inscrição ‘In God We Trust’, mas eram as notas que davam a volta ao mundo”, relatou Alice.

A expressão já possuía uma longa história nos Estados Unidos. Ela passou a ser utilizada em moedas durante a Guerra Civil Americana, após um pedido feito em 1861 pelo pastor batista Mark Richards Watkinson ao então secretário do Tesouro, Salmon P. Chase. O religioso defendia que o país reconhecesse publicamente sua fé em Deus em meio aos desafios do conflito.

A iniciativa recebeu apoio de autoridades federais e resultou na aprovação de leis que permitiram a inclusão da frase em moedas americanas a partir de 1864. Décadas depois, durante a Guerra Fria, Rothert passou a defender que o mesmo lema também fosse impresso nas cédulas.

Segundo relatos da família, ele dedicou grande parte de seu tempo à campanha, enviando cartas a autoridades, realizando discursos e buscando apoio político. Entre os destinatários de suas correspondências estavam o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, e o secretário do Tesouro, George W. Humphrey.

Em entrevista concedida em 1987, Rothert afirmou que acreditava estar cumprindo uma missão.

“Parecia que o Senhor me dizia para fazer isso. Ele colocou a ideia tão fortemente em minha mente que trabalhei nela até alcançar meu objetivo”, declarou.

A família relata que a mobilização contou com o apoio de diversos parlamentares. Rothert mantinha relações com políticos influentes da época, incluindo os senadores Mike Monroney, John L. McClellan e J. William Fulbright, além do deputado Oren Harris.

Em janeiro de 1955, um projeto de lei propondo a inclusão da frase nas cédulas foi apresentado ao Congresso. A proposta avançou rapidamente pelas duas casas legislativas e chegou à mesa do presidente Eisenhower em julho daquele ano.

A implementação também foi favorecida por mudanças já programadas nos processos de impressão do governo americano, o que reduziu os custos da alteração.

A frase passou a aparecer oficialmente nas cédulas de um dólar em 1º de outubro de 1957. No ano anterior, o Congresso havia aprovado por unanimidade sua adoção como lema nacional dos Estados Unidos.

Hope Rothert Taft, outra filha do empresário, afirmou que a sequência de acontecimentos que levou à aprovação da medida foi vista pela família como resultado da providência divina.

“Dá para ver como tudo se encaixou perfeitamente para que isso acontecesse”, declarou, de acordo com informações do The Christian Post.

Ela afirmou que costuma usar a história do pai como exemplo de que pessoas comuns podem influenciar a sociedade independentemente de sua origem ou posição social.

Segundo documentos preservados pela família, Rothert também via a iniciativa como uma forma de transmitir uma mensagem religiosa além das fronteiras americanas. Em correspondências da época, ele observou que as cédulas circulavam internacionalmente e poderiam alcançar países sob regimes comunistas.

Apesar do reconhecimento recebido, Rothert atribuía o resultado de sua campanha à direção de Deus: “Estou imensamente orgulhoso do papel que desempenhei, mas dou todo o crédito a Deus, porque Ele colocou isso em minha mente”, afirmou em entrevista ao National Enquirer.

Os filhos relatam que, nos últimos anos de vida, Rothert demonstrava preocupação com o que considerava um afastamento crescente dos valores religiosos nos Estados Unidos. Ele morreu em 1989.

Segundo Matthew Rothert Jr., seu pai acreditava que a gratidão a Deus deveria continuar fazendo parte da identidade nacional americana. Para a família, o legado deixado por ele permanece representado na inscrição que continua estampada nas cédulas em circulação no país.





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