Do terraço do escritório no décimo andar do edifício 2020 Ponce, em Coral Gables, Bruno Costa aponta para diferentes direções da paisagem. Depois de quase uma hora de entrevista, o diretor do escritório da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em Miami tenta transformar em imagem o argumento que justifica a presença física da entidade nos Estados Unidos.
Sem interromper seu raciocínio, ele indica onde ficam os escritórios da Fifa (Federação Internacional de Futebol), da Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, da América Central e Caribe) e o consulado brasileiro. Adiante no horizonte, também é possível ver o estádio do Inter Miami, atual time do astro argentino Lionel Messi.
“Tudo está aqui”, resumiu à Folha.
A região representa em Miami um papel semelhante ao dos bairros corporativos de São Paulo, concentrando escritórios, bancos, consulados e sedes de multinacionais. “Os maiores bancos americanos e do mundo estão aqui. É como se fosse a Faria Lima de Miami”, comparou, antes de dar outra dimensão. “Todo o dinheiro do mundo está aqui nos Estados Unidos.”
A escolha do local, feita pelo próprio diretor, teve essa vizinhança como fator determinante. O espaço foi inaugurado em agosto do ano passado.
Quase um ano depois, ao citar os resultados obtidos desde a inauguração, o dirigente preferiu destacar ganhos institucionais e de relacionamento. Não apresentou, porém, números sobre contratos fechados, receitas geradas, investidores atraídos ou recursos efetivamente direcionados ao futebol brasileiro por meio do escritório.
Segundo ele, um dos “objetivos centrais” é conectar investidores americanos com clubes e federações do Brasil. Vice-presidente da Federação de Futebol do Estado de Rondônia, o dirigente explicou que sua função é apresentar as melhores oportunidades no futebol brasileiro levando em conta as diferenças regionais.
“É importante mostrar que existe um ecossistema inteiro além dos grandes clubes. Em muitos estados, investimentos relativamente pequenos podem gerar enorme impacto social, esportivo e de visibilidade”, afirmou.
Costa sustentou que o principal valor da operação está na criação de uma rede de contatos capaz de aproximar a CBF de entidades esportivas, empresas e governos. “As pessoas sabem que, se chegarem até nós, a mensagem vai chegar ao departamento certo”, disse.
Apesar da localização estratégica e do discurso de internacionalização, a estrutura física é enxuta. Costa afirma ser o único funcionário baseado permanentemente em Miami. Segundo ele, os demais departamentos da CBF utilizam o espaço de forma eventual, quando estão nos Estados Unidos.
“Aqui é uma embaixada realmente. Eu toco o escritório. Minha esposa ajuda no pacote, como eu falo. Ela ajuda. Não é funcionária”, disse o dirigente. “Como se fosse a primeira-dama”, brincou.
Enquanto o dirigente concedia a entrevista, Marcela Costa, esposa de Bruno, coordenava a organização de um evento no escritório, marcado para a noite desta terça-feira (23), quando os patrocinadores da seleção brasileira visitariam o local –véspera do confronto entre Brasil e Escócia, em Miami, pela última rodada da fase de grupos da Copa.
Ao comentar sobre a relação da CBF com os parceiros, Bruno Costa fez uma comparação direta com a estratégia comercial da AFA (Associação Argentina de Futebol), que também mantém presença em Miami e intensificou sua atuação internacional após o título conquistado na Copa do Mundo de 2022.
“A AFA aproveitou o momento do Messi. A CBF tem que bater na marca Brasil”, afirmou. “Eles estão num momento de parabéns, mas batem muito no ‘Messi, Messi, Messi’. A CBF não pode ficar presa apenas a um jogador”, criticou.
Após a conquista, e pela força global da imagem de Lionel Messi, a AFA passou a estruturar uma expansão comercial mais agressiva fora do país, com abertura de frentes internacionais, aproximação de mercados estratégicos e fortalecimento de acordos de patrocínio. A chegada de Messi ao Inter Miami, em 2023, ajudou nesse processo.
No lado brasileiro, insiste Costa, a lógica tem de ser diferente. A internacionalização não deve depender de um atleta, mas da consolidação da marca institucional da seleção.
É nesse ponto que ele conecta o debate ao futebol feminino. Segundo ele, o mesmo modelo de presença internacional pode ser decisivo para a próxima etapa de desenvolvimento da modalidade, especialmente no mapeamento de atletas formadas fora do Brasil.
O escritório em Miami, ele afirma, já funciona como ponto de observação e conexão com jogadoras com dupla nacionalidade ou formação no sistema universitário americano.
“É um fluxo que pode ganhar ainda mais relevância no ciclo que antecede a Copa do Mundo feminina de 2027, no Brasil”, afirmou.
noticia por : UOL



