quarta-feira, 1, julho , 2026 07:29

Cofundador da Wikipédia defende “diversidade intelectual” e é banido do site

No fim de junho, a Wikipédia bloqueou Larry Sanger por tempo indeterminado. Não foi um vândalo nem um desconhecido. Foi o homem que batizou o site, escreveu boa parte de suas regras fundadoras e, ao lado de Jimmy Wales, decidiu em 2001 que uma enciclopédia poderia ser escrita por qualquer voluntário, e não por especialistas credenciados. Vinte e cinco anos depois, esses mesmos voluntários decidiram que ele não pertencia mais ao projeto que tem em sua base a liberdade de expressão.

O motivo oficial chama-se canvassing, um termo do jargão interno da plataforma para descrever a prática de recrutar gente de fora para influenciar uma votação de dentro. Sanger havia proposto um WikiProject (grupo de editores organizado em torno de um tema) batizado de “Diversidade Intelectual”, com o objetivo declarado de trazer para os verbetes pontos de vista que, segundo ele, o site sistematicamente exclui. Avisou seus seguidores nas redes sociais de que a proposta estava em discussão. Foi o suficiente para que um administrador fechasse o caso e aplicasse a pena máxima da casa.

O duplo vínculo

Em entrevista à Gazeta do Povo, Sanger descreveu o processo como uma armadilha sem saída. As próprias regras da Wikipédia instruem quem propõe um WikiProject a recrutar membros. Ele recrutou, em parte dentro do site, em parte fora dele, porque é fora do site que as pessoas estão. O problema é que, segundo ele, não existe forma de divulgar um esforço de reforma em escala suficiente para ter efeito sem que essa mesma escala seja usada como prova do crime. “Quanto mais eficaz o esforço, mais altas ficam as acusações”, diz Sanger. “Eles fecharam todas as saídas.”

Não houve acusação formal nem ninguém isento de interesse no resultado para arbitrar. Sanger teve de reconstruir o processo contra si mesmo a partir de comentários dispersos de quem, ao mesmo tempo, o acusava e votava sua pena. Foi banido antes do prazo regimental de setenta e duas horas para esse tipo de discussão se encerrar, desbanido em seguida por intervenção de Wales, e banido de novo quando o prazo finalmente expirou. A ironia é que a enciclopédia fundada sobre o princípio da verificabilidade processou seu fundador sem nunca verificar, em sentido estrito, nada.

GASP

Sanger resume o viés que enxerga na Wikipédia em inglês com um acrônimo: GASP, globalista, acadêmico, secular e progressista. “Quando a Wikipédia só permite ideias dentro do que chamo de GASP, isso se torna a epistemologia padrão da internet em muitas línguas”, diz.  Ele afirma ter revisado uma série de verbetes sobre temas brasileiros na Wikipédia em inglês e encontrado, na maioria deles, fontes em inglês no lugar de fontes em português, mesmo quando o assunto é genuinamente nacional. A própria política de verificabilidade do site recomenda essa hierarquia: fontes em inglês têm preferência sobre fontes em outras línguas, quando disponíveis.

O ponto que Sanger faz, e que vale para muito além da Wikipédia, é que modelos de linguagem (os sistemas de inteligência artificial por trás de assistentes como o ChatGPT) são treinados majoritariamente nessa Wikipédia em inglês e depois respondem em português a brasileiros sobre o Brasil. A língua é apenas o meio; o conteúdo que ela carrega pode continuar sendo americano. “A forma como a Wikipédia em inglês cobre o Brasil é usada para treinar os modelos que os brasileiros usam”, afirma. “E isso pode muito bem refletir visões americanas e britânicas sobre o Brasil, em vez de visões brasileiras.”

Discordar, uma ofensa

Segundo Sanger, administradores exigiram dele, repetidas vezes e com irritação crescente, que admitisse culpa. Que a Wikipédia resista a mudanças não o surpreende; isso é banal em qualquer instituição do seu tamanho. “Fiquei sinceramente surpreso ao descobrir que, além de resistentes à reforma, os líderes do projeto encaram o próprio ato de propor uma reforma como uma ofensa punível”, diz.

Para Sanger, a enciclopédia se tornou “na prática, um Estado de partido único”, dada sua influência sobre o conhecimento público e sobre os modelos de IA. Sua queixa vai além de um verbete ou outro. Ele descreve um ecossistema editorial que se apresenta como neutro e, ao mesmo tempo, fecha as saídas para quem tenta ampliar o espectro de quem tem permissão para discordar. Sobrou pouca distância, na leitura dele, entre fiscalizar abusos de fato e inviabilizar qualquer dissidência organizada de direita dentro de uma comunidade que se vê, ela própria, como progressista por padrão. “Minha ofensa não foi um tuíte”, resume. “Foi propor que a Wikipédia tolerasse uma gama mais ampla de visões.”

Reforma de dentro, pressão de fora

Sanger não nega que tentou a via institucional até o fim. Passou meses escrevendo o que chamou de Nove Teses sobre a Wikipédia, outros tantos meses construindo o WikiProject dentro das regras, reunindo mais de vinte e cinco membros, alguns com milhares de edições no currículo. Quando a proposta sofreu resistência, ele redigiu um documento respondendo uma dúzia de objeções, uma a uma. Nada disso alterou o desfecho.

O que essa derrota lhe ensinou, segundo ele, é que o sistema da Wikipédia é estruturalmente incapaz de tolerar dissidência organizada: qualquer tentativa de reformá-lo pode ser reclassificada, com as mesmas regras, como o próprio crime que se busca combater. Recrutar membros vira canvassing; querer mudar as políticas vira prova de que o sujeito não está ali para construir a enciclopédia.

Sanger ainda acredita que a Wikipédia precisa ser reformada, dada sua influência sobre o conhecimento público e sobre as próprias IAs, mas já não acredita que a reforma virá de dentro. Sua aposta agora está em pressão externa: governos, imprensa, plataformas concorrentes como a Grokipedia e o que chama de encyclosphere, o conjunto de enciclopédias alternativas que tentam ocupar o espaço que a Wikipédia não quer dividir.

O que sobra depois do banimento

Perguntado se a Wikipédia ainda é relevante num mundo em que assistentes de IA respondem diretamente às perguntas que antes levavam alguém até o site, Sanger inverte o problema. A relevância não diminuiu, aumentou, e o site é hoje, nas palavras dele, “talvez mais influente do que nunca”. Como os modelos de linguagem são treinados e retreinados sobre o mesmo corpus, e como muitos deles ainda fazem buscas externas que recaem sobre a Wikipédia, o site se tornou uma camada invisível por baixo de praticamente toda resposta automatizada sobre qualquer assunto. “Os modelos de linguagem não operam no vácuo”, observa. “São mais ou menos resumos ou extrapolações daquilo que seres humanos escreveram.”

É essa camada invisível que torna o caso Sanger maior do que uma briga de procedimento entre editores voluntários. Saber se ele acertou ou não no diagnóstico do viés é uma discussão que vai durar anos. Mais urgente é outra coisa: quem decide o que conta como neutralidade, agora que essa decisão deixou de valer para um verbete e passou a moldar, por tabela, o que uma máquina responde a milhões de pessoas que nunca abriram a Wikipédia na vida.

noticia por : Gazeta do Povo