Você já ouviu alguém dizer que “o corpo guarda as marcas”? Para muitas pessoas, essa frase é uma forma útil de nomear o impacto físico que o estresse e o trauma podem causar quando o corpo está em modo de “luta ou fuga”.
O uso dessa expressão também demonstra o alcance extraordinário do livro de não ficção de 2014 que a popularizou, “O Corpo Guarda as Marcas”, do psiquiatra holandês Bessel van der Kolk. Mas, à medida que a ideia se espalhou, ela também foi simplificada.
Na verdade, este livro, que passou quase seis anos na lista de mais vendidos do The New York Times, vai além de argumentar que o trauma afeta o corpo. Ele se baseia em uma afirmação muito mais controversa: que memórias traumáticas vivem no corpo, inacessíveis à memória consciente.
Essa ideia de memórias reprimidas tem uma história longa e controversa. Eis por que estamos preocupados com seu retorno.
As guerras da memória
Durante a década de 1990, a ideia de memórias reprimidas provocou uma grande disputa científica conhecida como “guerras da memória”. Clínicos e pesquisadores discordavam sobre se eventos traumáticos poderiam ser completamente inacessíveis à memória consciente, apenas para serem recuperados posteriormente em terapia.
A ideia central, enraizada na teoria psicanalítica, era que experiências traumáticas são tão avassaladoras que a mente inconscientemente as reprime como mecanismo de defesa, removendo-as da consciência enquanto continuam a produzir sintomas psicológicos.
Após mais de uma década de pesquisas levantando sérias dúvidas sobre a repressão como mecanismo confiável, muitos acreditavam que esse debate havia sido encerrado. No entanto, a ideia de memórias reprimidas está retornando.
Hoje, a alegação não é apenas que memória s traumáticas podem ser reprimidas, mas que o corpo as armazena, e elas supostamente reemergem mais tarde através de sintomas físicos.
O livro sugere que a cura requer “liberar” ou “integrar” essas memórias ocultas de trauma através de uma variedade de terapias alternativas, frequentemente sem base em evidências, como yoga, terapia assistida por psicodélicos e visualização guiada.
As experiências traumáticas são ainda descritas como perturbadoras do sistema nervoso de formas duradouras, mesmo além da consciência ou memória da pessoa sobre o que aconteceu. Esse argumento mudou as percepções públicas sobre o trauma.
Trauma e corpo
O tipo de pesquisa de memória que fazemos não nega o trauma, nem que ele pode afetar o corpo. A preocupação é especificamente sobre como isso se relaciona com a memória.
Há amplo consenso científico de que o estresse, frequentemente associado a experiências traumáticas, pode alterar os níveis hormonais como adrenalina, noradrenalina e cortisol, que podem então impactar outros sistemas do corpo. Isso pode elevar a pressão arterial, afetar a libido e influenciar como o mundo parece seguro ou inseguro em um nível corporal.
Para algumas pessoas, o trauma pode levar ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que envolve sintomas físicos como náusea, ataques de pânico, dificuldade para respirar, problemas para dormir e sensação de exaustão por estar constantemente “em alerta”.
Como a memória funciona
A memória não funciona como um dispositivo de gravação que podemos simplesmente “reproduzir”.
Décadas de pesquisa mostram que a memória autobiográfica é reconstruída cada vez que um evento é lembrado. Isso significa que o contexto em que estamos, incluindo novas informações, nossas emoções e as expectativas de outras pessoas, pode influenciar o que lembramos. Isso pode distorcer ou alterar nossas memórias.
Técnicas terapêuticas sugestivas, por exemplo, hipnose ou visualização guiada, onde os pacientes entram em um estado altamente sugestionável, são especialmente propensas a implantar falsas memórias.
Grandes organizações profissionais, como a Associação Americana de Psicologia e a Sociedade Britânica de Psicologia, alertaram repetidamente que essas técnicas terapêuticas projetadas para recuperar memórias supostamente enterradas podem criar falsas memórias.
Terapias alternativas
O “Corpo Guarda as Marcas” promove uma ampla gama de terapias para trauma como alternativas a tratamentos mais estabelecidos para TEPT, incluindo ioga e psicodrama, que é o uso de encenação para reencenar a experiência traumática.
Algumas dessas abordagens podem ser úteis para algumas pessoas. Não há mal em fazer ioga se você tem TEPT e sente que ajuda a reduzir o estresse.
No entanto, surgem problemas quando se afirma que essas técnicas podem ajudar as pessoas a “acessar memórias reprimidas”.
Essa ideia pode ser explorada. Anúncios recentes nas redes sociais sugerem que pesadelos ou dificuldade para dormir podem ser devidos a traumas extensos que você não lembra. Um teste rápido entregará seus resultados e o redirecionará para um programa de coaching online “informado sobre trauma” pelo qual você paga.
E quanto aos psicodélicos e MDMA?
Mais recentemente, van der Kolk e outros voltaram sua atenção para a terapia assistida por psicodélicos.
Substâncias como MDMA e psilocibina mostraram resultados promissores em ambientes de pesquisa rigorosamente controlados. Elas parecem influenciar vias cerebrais, embora os mecanismos ainda não sejam totalmente compreendidos.
Do ponto de vista da memória, os psicodélicos levantam preocupações específicas. Pesquisas sugerem que os psicodélicos podem afetar a memória de algumas formas preocupantes.
Eles tornam as pessoas mais sugestionáveis, o que significa que são mais propensas a aceitar ideias ou histórias como verdadeiras, mesmo quando vêm de uma fonte externa. Eles também criam uma sensação poderosa de que o que as pessoas experimentam é profunda e certamente real.
Essa é uma combinação arriscada, porque uma pessoa pode sair com uma falsa memória da qual está convencida de que aconteceu.
Relatos qualitativos iniciais já descrevem casos em que aparentes memórias de trauma emergiram durante terapia psicodélica, com incerteza sobre sua precisão.
Pesquisas recentes nos EUA descobriram que a grande maioria das pessoas endossa a crença em memórias reprimidas e a ideia de que “o corpo guarda as marcas”. Essa pesquisa está sendo replicada atualmente na Austrália, com resultados preliminares sugerindo que essas crenças podem ser ainda mais difundidas por lá.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
noticia por : UOL



