terça-feira, 14, julho , 2026 01:14

O certo é dizer 'na África' ou 'em África'? E é gol 'do Senegal' ou 'de Senegal'?

Ainda a Copa? É que tem um negócio na minha cabeça que pode servir pra falar de uma daquelas coisas de que a gente tem que falar o tempo todo: a língua é um conjunto de regras determinadas pelo coletivo geral dos usuários.

As gramáticas, os dicionários, os professores têm sempre que correr atrás, seja de tentar “reverter” mudanças que consideram negativas (e toda mudança, quando surge, tende a ser vista como negativa por quem está por cima da carne seca), seja de tentar incorporar a inovação.

Foi assim que o latim virou português, o português se tornou brasileiro e o brasileiro de séculos atrás gerou o de hoje. Tudo normal.

Um campo bacana de ver essa briga acontecer hoje ficou escancarado na Copa do Mundo: o uso (ou não) de artigos definidos diante dos nomes de países. Nós, por exemplo, falamos DO Brasil, mas DE Portugal. Pensamos NA França, mas EM Gana.

É claro que essas regras variam no tempo (já dissemos “em França”) e no espaço (os portugueses e africanos têm usos diferentes dos nossos). Mas quem determina esse uso não são os gramáticos ou os dicionaristas.

Eles, quando montam listas e elaboram “macetes” (sempre cheios de exceções), estão apenas tentando compreender algo que no fundo é mais caótico, determinado por esse movimento permanente da língua —eterna revoada de estorninhos— em que nenhum indivíduo detém o controle, mas o coletivo manda em tudo.

O uso desses artigos é um caso que, do ponto de vista dos linguistas, trata da “gramática” de cada palavra isolada.

Cada falante, ao aprender um novo nome de país, aprende com ou sem artigo e mantém esse uso. Ou mantém até que a tendência mude e, com ela, a construção. Não existe regra dura, geral: é caso a caso mesmo. E esse tipo de situação tende a estar ainda mais aberto à mudança.

Entre nós, em tempos recentes, parece que a mudança ampla começou com a África, ou com África, como tem se ouvido cada vez mais. Nesse caso, é fácil inclusive ver a linha de cisão na sociedade. Quase dá pra cravar em quem votam as pessoas que escolhem dizer “em África”.

E, de novo, nada de estranho nisso. Língua, afinal, é sociedade.

Além do mais, não é difícil perceber que os nomes de países que frequentam mais o nosso imaginário, ou as páginas de um jornal, tendem a ter sua gramática mais martelada na cabeça de cada usuário e, assim, a ser mais estáveis em sua construção. Ninguém vai arriscar dizer “em Bélgica”, sem querer soar estranho e cabotino.

Mas os países da África (ou de África), precisamente por passarem mais longe do nosso típico radarzinho eurocêntrico e primeiro-mundista, tendem a ser mais “desconhecidos” e sempre geraram dúvida: em Senegal ou no Senegal?

E a questão é que, entre os narradores da Copa, essa dúvida tem apresentado uma estranha tendência a se regularizar na direção da ausência do artigo, mesmo em países que “tradicionalmente” apareciam com ele. É gol DE Gana pra cá, drible DE Senegal pra lá, ataque DE Marrocos num dia e até (o que eu acho estranhíssimo) eliminação DE Egito no outro.

Eu ouvi isso também com países europeus, mas muito, muito menos.

E, com isso, parece que estaríamos, como coletivo, optando por uma nova regra (sempre com suas exceções), que tende a usar artigo (e tratar como “familiar”) o país branco, rico, que estudamos desde sempre na escolinha. E a deixar sem ele (“o atacante de Congo”) aqueles de que lamentavelmente ouvimos falar tão pouco.


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noticia por : UOL