Uma faixa, empunhada pelos jogadores argentinos ainda no campo após a vitória de 2×1 contra a Inglaterra, agitou o cenário político do país. “Las Malvinas son argentinas”, dizia a faixa, repetindo uma frase inscrita em muitos muros por Buenos Aires. O ato provocou reações diversas entre a classe política. Enquanto o país se unia em torno de Messi, o presidente Javier Milei e sua vice-presidente, Victoria Villarruel, se dividiram.
A controvérsia sobre as Ilhas Malvinas, ou “Falklands”, como os ingleses a chamam, já era preocupação da FIFA, a entidade máxima do futebol. A federação deixou claro que manifestações de cunho político são proibidas dentro dos estádios. Inclusive, os mesmos dizeres foram motivo de punição, em junho de 2014, em amistoso entre Argentina e Eslovênia. A AFA (Associação Argentina de Futebol) foi sancionada com aproximadamente 32 mil euros. A nova manifestação segue pendente de investigação pelo Comitê Disciplinar da entidade.
Milei, ainda que simpático à causa, repreendeu o cartaz da semifinal: “As Malvinas se recuperam com diplomacia, não com gestos de patriotismo barato e berreta. Não se deve cair em slogans populistas, nacionalistas, rançosos”, disse o mandatário em uma entrevista após o jogo. Porém, o mesmo gesto recebeu uma reação bem diferente da vice-presidente, Victoria Villarruel.
“Piratas usurpadores”
Villarruel foi eleita com Milei, na onda da direita que atingiu o país recentemente. Mas, enquanto ele está mais próximo dos anarcocapitalistas e entusiastas da Escola de Chicago (escola de pensamento econômico que defende o livre mercado), ela se alia a uma direita com mais valores. Herdeira direta de uma família de militares, a vice-presidente costuma defender as pautas da classe e é fervorosa devota de Virgem Maria. “Católica e Argentina. Filha de um veterano da Guerra das Malvinas”, resume o seu perfil no X.
O pai da companheira de chapa de Milei foi o tenente-coronel do Exército Eduardo Marcelo Villarruel. Morto em 2021, ele orgulhava-se de ter sido preso pelos ingleses, quando em combate na disputada ilha. Durante o regime militar, ele também atuou em operações de inteligência contra grupos terroristas de esquerda no país. A filha chegou a criar o CELTYV (Centro de Estudos Legais sobre o Terrorismo e suas vítimas), organização pioneira na defesa das vítimas das guerrilhas.
Villarruel foge do perfil tradicional do vice-presidente. Em vez de quieta e reservada, costuma se posicionar claramente e, se preciso, de forma contrária ao líder da chapa. Em abril do ano passado, em ato a favor das Malvinas, condenou o “processo de desmalvinização” que o país sofre e o “trabalho diplomático destinado a penetrar na mente do nosso povo para desestimular a causa das Malvinas, encontrando alguns ‘anglófilos servis’”.
Pouco antes da partida decisiva contra os “invasores ingleses”, também não se omitiu e conclamou, no X: “Amanhã jogamos contra os piratas usurpadores. Não é um jogo a mais. Não vou ser politicamente correta nem ‘peito frio’. Contra os ingleses sempre é algo mais. É Malvinas, é o Diego, é a última de Leo e é para parar o carro dos invasores. Pra cima, Argentina! Porque até o último suspiro vamos reclamar o que é nosso!”.
Após a vitória épica, reforçou a sua posição, postando uma foto dos jogadores com a faixa, imagem que se transformou em ícone imediato da causa, arrematando: “Proibiram levá-las ao estádio e se esqueceram de que as levamos no sangue e no coração”. Quem não gostou nada foi Milei.
Briga antiga
Em julho do ano passado, uma discussão entre os dois ganhou destaque, quando da aprovação, no Senado, presidido por Villarruel, de um projeto que aumentou as aposentadorias no país. Milei teria a chamado de “traidora”. Victoria respondeu que ele deveria se comportar “como um adulto”.
Outra figura que aprofunda a divergência entre os dois é a ex-primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher, referência entre os liberais. Milei é fã declarado daquela que, com “mãos de ferro”, afastou os argentinos das Malvinas do conflito de 1982, contradição que o presidente, por ora, prefere ignorar. Victoria, por sua vez, escolhe o silêncio e não a reverência.
O protagonismo aspirante de Victoria pode incomodar futuramente Milei, que busca a reeleição em 2027. Ainda neste mês, comemorando o dia da independência argentina, em 04 de julho, ela foi perguntada sobre uma eventual candidatura e respondeu: “Hoje, não penso”. Diante do histórico entre os dois, o que chamou a atenção foi o advérbio de tempo. Porque, amanhã, uma ruptura pode ser definitiva.
noticia por : Gazeta do Povo



