Quando a lei que introduz a ajuda ativa para morrer estava prestes a ser aprovada na França, o escritor Michel Houellebecq e Laurent Frémont, professor da Sciences Po e cofundador do grupo “Democracia, Ética e Solidariedade”, rebelaram-se em um artigo de opinião publicado na revista Le Point.
O texto da lei foi aprovado em três ocasiões pela Assembleia Nacional e rejeitado em outras tantas pelo Senado. Em 15 de julho, os deputados deram a palavra final em uma votação definitiva, sem possibilidade de emendas.
Houellebecq e Frémont começam lembrando a máxima de Toynbee de que as civilizações não morrem assassinadas: elas se suicidam. A metáfora se tornaria agora uma política oficial. “Antes que os deputados levantem a mão, talvez não seja inútil perguntar-se o que é uma civilização e como se reconhece que ela está chegando ao fim.”
Vico dedicou sua vida a investigar o que as nações têm em comum e destacou três elementos: religião, casamentos e sepulturas; e acresentou que humanitas procede de humare, sepultar: “A humanidade recebe seu nome pelo cuidado com os seus mortos”. Fustel de Coulanges comprovará isso na cidade antiga: antes da ágora, o túmulo. A humanidade começa aí: “no momento em que ainda se dá a quem já não devolverá nada”.
A civilização criou um “sistema de exceções”: o domingo, a noite, a infância, o leito de morte. “A modernidade as eliminou uma a uma: o domingo caiu, a noite se desvaneceu, a infância se transformou em um mercado. Restava o leito do moribundo, último território onde a utilidade não tinha lugar. Chesterton só pedia uma coisa antes de retirar uma cerca: saber por que ela tinha sido colocada; esta tem a antiguidade da espécie humana, e vai ser retirada com um levantar de mãos.” Os autores do artigo chamam de descivilização a rejeição da última exceção.
Norbert Elias dedicou uma de suas últimas obras à solidão dos moribundos, apontam Houellebecq e Frémont. “Nossas sociedades são as primeiras da história a ocultar a agonia, a tirá-la da vista, porque desmente com crudeza excessiva a promessa de autonomia perpétua. A eutanásia leva esse incômodo à sua conclusão lógica: já que não se pode eliminar a morte, elimina-se o moribundo; o problema não é resolvido, é arquivado.” E é descrita com a habitual linguagem edulcorada: não se mata, “acompanha-se”; não há agonia, mas sim “itinerários de fim de vida”; a injeção letal é chamada de “ajuda ativa para morrer”. “As civilizações nomeiam; as descivilizações rebatizam.”
Lévinas dizia que o rosto do outro, antes de qualquer palavra, pronuncia um único mandamento: não matarás; e “nenhum rosto está mais indefeso do que o de um moribundo”. A proibição da eutanásia protegia aqueles que já não podem fazer nada: “nisso se distingue uma proibição de um cálculo”.
Liberdade, autonomia, cada um dono do seu próprio fim: o discurso não carece de força, reconhecem os autores. “Illich tinha descrito, nos anos setenta, a expropriação da morte pela medicina moderna; a eutanásia pretende devolvê-la a nós.” Assim, a morte, concedida após a tramitação de um processo, nos é vendida como o triunfo da autonomia. Na realidade, a eutanásia não nos restitui a morte, mas sim muda o seu dono. “Estranho direito que anula o seu titular, única liberdade que se consuma ao consumir o seu sujeito.” O novo direito será concedido mediante “uma pergunta que, sussurrada ao lado do leito de um idoso que sabe que é um fardo, contém sua própria resposta. Os doentes não lerão os regulamentos de aplicação; lerão os olhares.”
De dinheiro não se falará. “As cifras, no entanto, são simples: um moribundo custa dinheiro, um morto não custa nada.” O civilizado é construir asilos; a nova lei opta pelo mais rápido e praticamente gratuito. “O que começou como compaixão termina em contabilidade.”
“A liberdade de morrer é uma liberdade interior; quando se transforma em um serviço público, muda de natureza e de campo. Rilke suplicava que a cada um fosse concedida a sua própria morte, aquela que amadurece no interior de uma vida como o seu fruto; um século mais tarde, responde-se a ele com uma morte sob medida: programada, dosada, homologada.”
Humanitas proviria de humare: devemos o nome ao cuidado dos nossos mortos e, com maior razão, dos moribundos. Se a lei for aprovada, nada de visível acontecerá. “Simplesmente, a última exceção terá se extinto.”
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Dos intelectuales franceses se rebelan contra la eutanasia.
noticia por : Gazeta do Povo



