domingo, 26, julho , 2026 01:36

IPOs criam novos milionários, e organizações filantrópicas querem parte desse dinheiro

À medida que uma série de IPOs gigantes cria uma nova geração de ultrarricos, organizações sem fins lucrativos estão tentando descobrir como podem participar dessa bonança.

Departamentos de captação de recursos de universidades estão elaborando listas de potenciais grandes doadores, enquanto executivos do setor filantrópico fazem estimativas rápidas para se preparar para um ganho extraordinário, potencialmente único em uma geração, que pode resultar em centenas de bilhões de dólares em novas doações.

Alguns são menos otimistas do que outros. Nos últimos anos, surgiu uma reação de alguns bilionários contra a filantropia, à medida que uma parcela das pessoas mais ricas do mundo passou a argumentar que o sucesso nos negócios —e não a caridade— é a melhor forma de retribuir à sociedade.

Mas os fundadores da OpenAI e da Anthropic, ambas cotadas para realizar alguns dos maiores IPOs de todos os tempos, têm fortes vínculos com o altruísmo eficaz, uma filosofia filantrópica que busca maximizar o impacto das doações.

E mesmo aqueles que não estejam particularmente inclinados a doar podem ser influenciados pela carga tributária que enfrentarão ao vender suas ações altamente valorizadas. Se, por exemplo, venderem US$ 10 milhões (R$ 50,6 milhões) em ações, poderão receber uma conta de impostos superior a US$ 3,5 milhões (R$ 17,7 milhões).

“É comum ver enormes quantidades de ações com baixo custo de aquisição e grande valorização nas mãos de pessoas que não fazem ideia de qual será sua estratégia de saída”, disse Randy Fox, fundador da Two Hawks, uma consultoria para escritórios de gestão patrimonial familiar. “Uma das únicas formas de eliminar o imposto sobre ganhos de capital é utilizando instrumentos de doação beneficente.”

Como os consultores financeiros também têm interesse em receber honorários pela criação de fundos e fundações beneficentes, o setor sem fins lucrativos poderá receber um aporte anual superior a US$ 100 bilhões (R$ 506 bilhões), segundo algumas estimativas.

Um ganho secundário inesperado

Nan Ransohoff, responsável pela área de bens públicos da empresa de pagamentos Stripe, fez alguns cálculos rápidos para estimar o tamanho desse potencial ganho.

Com base nas avaliações atuais, ela calculou que a OpenAI Foundation, organização sem fins lucrativos que detém 26% da OpenAI, teria cerca de US$ 220 bilhões (R$ 1,1 trilhão) em ativos liquidados quando a empresa abrir capital.

Os sete fundadores da Anthropic, cuja abertura de capital também deverá ser gigantesca, possivelmente já neste outono no hemisfério norte, prometeram doar 80% de suas fortunas, o que pode representar cerca de US$ 90 bilhões (R$ 455,9 bilhões). A Anthropic também possui um programa de contrapartida filantrópica, que poderá direcionar mais US$ 60 bilhões (R$ 303,9 bilhões) para doações.

Ao todo, estimou Ransohoff em uma publicação no Substack, de US$ 37 bilhões a US$ 100 bilhões (R$ 187,4 bilhões a R$ 506,6 bilhões) poderão ficar disponíveis para instituições de caridade todos os anos.

“Seria possível financiar integralmente a Fundação Gates muitas vezes, e ainda assim sobraria dinheiro para ser distribuído”, afirmou ela ao DealBook, do jornal The New York Times.

E isso nem sequer inclui os funcionários da OpenAI. Nem os novos ricos criados pela SpaceX, cujo IPO gerou uma estimativa de 4.400 milionários (além de cerca de 400 funcionários com patrimônio superior a US$ 100 milhões). Tampouco considera diversas outras empresas que estão na fila para abrir capital. Segundo o Goldman Sachs, o volume dessas ofertas públicas poderá alcançar US$ 160 bilhões (R$ 810,5 bilhões), tornando este o maior ano da história em valor absoluto captado por IPOs.

Incentivos fiscais

Doar dinheiro é uma estratégia comum para reduzir impostos. Segundo o Institute for Policy Studies, até 74 centavos de cada dólar doado à caridade teriam sido pagos em impostos se não houvesse a doação. A instituição estima que apenas em 2022 as doações beneficentes resultaram em US$ 73 bilhões (R$ 369,8 bilhões) em perda de arrecadação tributária.

Na Califórnia, onde estão sediadas tanto a OpenAI quanto a Anthropic, e onde a SpaceX emprega milhares de pessoas, alguns novos bilionários também podem estar correndo para reduzir seu patrimônio antes que o Legislativo estadual tente aprovar um imposto extraordinário de 5% sobre bilionários. Isso lhes dá um incentivo adicional para doar.

Jon Feldhammer, sócio do escritório de advocacia Baker Botts, afirmou que um cliente com US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) em opções de ações de uma importante empresa de inteligência artificial que pretende abrir capital este ano está considerando deixar o estado.

“Ele está avaliando todas as possibilidades”, disse Feldhammer. “Tenho muitos clientes considerando sair da Califórnia de forma muito mais séria e em número muito maior do que jamais vi.”

Entre as estratégias mais comuns de doação estão doar ações, em vez de dinheiro, para evitar o imposto sobre ganhos de capital, e criar um fundo fiduciário que distribua uma renda fixa ao doador (ou a seus herdeiros) e à instituição beneficente escolhida.

Consultores patrimoniais afirmam que os fundos de doação orientados pelo doador têm sido a opção mais popular entre jovens funcionários que esperam obter grandes ganhos com IPOs neste ano. Esses fundos permitem que o doador faça contribuições em ações com direito a dedução fiscal e, posteriormente, direcione os recursos para diferentes instituições beneficentes ao longo do tempo.

É uma alternativa barata, anônima e simples, afirmou Paul Tramontano, diretor executivo da Cresset Asset Management.

“Não há declarações de imposto nem obrigações burocráticas”, disse. “É, de certa forma, o melhor dos dois mundos.”

Um novo tipo de filantropia

Alguns dos filantropos mais famosos da história —Rockefeller, Gates e Bloomberg— criaram fundações privadas. Mas esse caminho talvez não seja tão atraente para a nova geração de milionários e bilionários da inteligência artificial.

Uma fundação familiar “realmente exige atenção e manutenção constantes”, afirmou Brandon Smith, diretor de planejamento sucessório da LNW Advisors. Ele atende mais de dez funcionários da Anthropic, alguns dos quais deverão ganhar mais de US$ 100 milhões (R$ 506 milhões) quando a empresa abrir capital.

“A maioria desses funcionários simplesmente não terá tempo para isso”, acrescentou.

Ransohoff acredita que os beneficiários dessa nova riqueza estarão interessados em ir além das organizações filantrópicas tradicionais. Segundo ela, muitas pessoas que trabalham com inteligência artificial têm um horizonte de tempo acelerado e preferem organizações filantrópicas que funcionem mais como startups. Elas podem estar dispostas a apostar em projetos de alto risco e alto potencial de impacto.

Sua principal preocupação é que exista uma escassez de organizações compatíveis com os valores e a cultura dos funcionários que deverão se beneficiar dos mega IPOs deste ano.

“Na escala de que estamos falando, seriam necessárias centenas de Arc Institutes ou milhares de Institutes for Progress”, disse ela, referindo-se a duas organizações filantrópicas. “É, de certa forma, uma história de abundância.”

Doar não é garantia

Muitos funcionários desses principais laboratórios de inteligência artificial desejam aproveitar sua nova riqueza por pelo menos alguns anos —ainda que apenas no papel— antes de se comprometerem a doar uma parcela significativa dela.

“Eles têm dificuldade para compreender o que esses valores realmente significam para suas vidas”, disse Frank Alvarez, consultor financeiro da Tidemark Financial Partners.

Ele afirmou atender 26 clientes da SpaceX e também assessorar funcionários da Anthropic e da OpenAI.

“A transição psicológica de deixar de ser um acumulador de riqueza para se tornar um administrador responsável de patrimônio em benefício da sociedade é o aspecto mais difícil”, acrescentou Alvarez.

Feldhammer, porém, afirmou que a melhor estratégia tributária é aquela iniciada muito antes de a empresa abrir capital.

“Existem muitas maneiras de mudar drasticamente sua situação em relação ao imposto sobre herança muito antes de a empresa passar a valer alguma coisa”, afirmou.

Por exemplo, ações privadas com rápida valorização podem ser transferidas para uma Roth IRA (conta individual de aposentadoria isenta de determinados impostos), evitando totalmente a tributação sem a necessidade de recorrer à filantropia.

“É muito triste quando as pessoas nos procuram apenas depois do IPO”, concluiu Feldhammer. “Do ponto de vista financeiro, normalmente as contas não fecham de forma vantajosa —a menos que a pessoa realmente tenha motivação para fazer doações.”

noticia por : UOL