domingo, 26, julho , 2026 05:54

Medo de parecer islamofóbico

Num outro momento do mundo, um ataque contra a Parada do Orgulho em Berlim, com um morto e dezenas de feridos, teria inundado as redes de mensagens de repúdio à homofobia. O mesmo ocorreria com a notícia do cruzeiro gay impedido de atracar no Egito e na Turquia em nome da “defesa dos valores morais”. O que se vê é silêncio ou manifestações cheias de cautela.

A razão desse freio é simples: o medo de parecer islamofóbico ficou maior do que a defesa da própria existência de uma parte do mundo LGBTQIA+. Quando a polícia alemã ligou o autor do terrorismo ao extremismo islâmico, a militância se engasgou. O receio é de que dar nome aos bois seja lido como preconceito ou que qualquer crítica possa enfraquecer uma pauta ainda mais popular no momento que é a defesa da Palestina Livre.

É preciso desenhar o óbvio: denunciar o extremismo e as leis teocráticas que matam mulheres e gays não é atacar o Islã como fé, os muçulmanos como pessoas ou se opor à vida com liberdade e dignidade em Gaza. Mas a coerência virou artigo de luxo.

Assistimos ao malabarismo de quem faz vista grossa para regimes e grupos que enforcam homossexuais no Irã, apedrejam gays no Afeganistão ou condenam pessoas a anos de trabalhos forçados no Egito. A mesma seletividade opera em relação às mulheres. O estupro como arma de guerra usado pelo Hamas contra mulheres judias foi ignorado e até mesmo justificado porque o agressor atende à cartilha ideológica correta, mas virou tema de repúdio quando a narrativa é de que o exército de Israel tenha cometido o mesmo tipo de crime.

O ápice do absurdo é a convergência dos extremos. Nas redes, enquanto homofóbicos da extrema-direita se referem ao assassino de Berlim como “herói”, parte da militância progressista prefere ignorar as motivações e a origem do autor do ataque, enquanto a outra murmura que não é hora de discutir violações de direitos humanos relacionadas ao islamismo. Bem-vindos à distopia em que as vítimas se calam diante de seus possíveis carrascos.


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noticia por : UOL