terça-feira, 28, julho , 2026 10:30

Atentado em Berlim mostra que a “desradicalização” fracassou

Abdul Ballout não cresceu em uma periferia degradada, daquelas que costumam ser evocadas para explicar a violência. Cresceu em Schoeneberg, um dos bairros mais multietnicos e vibrantes de Berlim, coração histórico das lutas LGBTQ+ e de uma Parada do Orgulho que aqui dura um mês inteiro. Na noite de sábado, 25 de julho, bastou-lhe percorrer poucas centenas de metros a partir de sua casa — onde vivia com a família — para se lançar com uma van contra a multidão da parada do Christopher Street Day: uma mulher morta, vinte e nove feridos. Após conseguir despistar as autoridades por um dia inteiro, foi morto pela polícia na noite de domingo, no bairro de Spandau, ao fim de uma vasta operação.

As autoridades alemãs o conheciam há anos, e em detalhes. Desde a tentativa de fuga para a Síria em 2025, passando pela prisão no Líbano e pelo repatriamento forçado; depois, a condenação — um ano e dez meses, julgada branda demais pela própria promotoria — por ter planejado outro atentado de matriz islâmica; e sabiam das mensagens de ódio publicadas online, de forma contínua, em apoio a grupos jihadistas. Tinham-no colocado em liberdade após apenas um ano de reformatório, embora os investigadores o considerassem há tempos um indivíduo de alto risco, e continuavam a mantê-lo sob vigilância. Poucos dias antes do atentado, assistentes sociais haviam iniciado com ele um processo de desradicalização. Após as duas primeiras conversas, deduziram que não havia qualquer sinal de perigo iminente. O terceiro encontro seria justamente na segunda-feira seguinte ao atentado.

É nesta distância — entre o que as autoridades sabiam e o que foram capazes de impedir — que se mede a dimensão real do problema islamista na Alemanha, e é a partir daqui que surgem as perguntas levantadas por quem estuda o fenômeno há anos. Peter Neumann, um dos maiores especialistas alemães em terrorismo, reconstituiu o caso em uma entrevista ao Bild, definindo como “uma loucura total” o fato de uma pessoa classificada com risco tão elevado ter sido libertada sob condicional. Para Neumann, a fuga do terrorista não é uma anomalia, mas um roteiro já visto: aconteceu também com Anis Amri, o homem que em 2016 jogou um caminhão contra uma feira de Natal na Breitscheidplatz e conseguiu escapar.

Quanto ao motivo pelo qual um homem já considerado perigoso ainda estava livre, Neumann explica que, na Alemanha, nem mesmo os indivíduos classificados como extremamente perigosos são vigiados de forma permanente: é uma atividade que consome recursos enormes e, segundo suas estimativas, não mais do que cerca de vinte pessoas em todo o país são realmente monitoradas. As medidas efetivamente em uso são outras — escutas telefônicas, observações esporádicas, conversas com a polícia, processos de desradicalização e, em alguns casos, advertências diretas, com agentes batendo à porta para avisar ao indivíduo que ele está sendo vigiado. E sobre a opção de apostar na derradicalização em vez da prisão, Neumann é taxativo: esses programas podem funcionar com quem deseja voluntariamente se afastar de um ambiente radical, mas continuam sendo totalmente inúteis diante de quem é um islamista convicto. Para o especialista, o sistema judiciário alemão acabou dando peso demais à reabilitação e peso de menos à proteção da coletividade.