Em 2025, a Gazeta do Povo noticiou que Jordan Peterson havia cancelado, em cima da hora, a palestra que faria num evento em São Paulo divulgado pela Brasil Paralelo. O motivo era sua saúde. Quem estava no auditório assistiu a um vídeo gravado por Tammy, esposa dele, no lugar da conferência que não aconteceu.
Quase um ano depois, Peterson reapareceu. Não num palco, e sim num texto. Em 22 de julho, publicou em seu site o primeiro ensaio autoral desde o afastamento, e não escolheu um tema confortável para voltar. Escreveu sobre os abusos sexuais cometidos por grupos organizados de homens contra meninas ao longo de décadas na Inglaterra, o caso que ficou conhecido como o escândalo das grooming gangs (gangues de aliciamento).
A casa com mofo
O sumiço tinha uma razão concreta. Em julho de 2025, Peterson viajou ao norte de Alberta, no Canadá, para o funeral do pai. Segundo a família, passou dias numa casa antiga, de 1965 e nunca reformada, tomada por mofo, ao qual tem sensibilidade extrema, e o contato desencadeou uma crise.
A filha dele, Mikhaila, atribuiu o quadro à CIRS (síndrome da resposta inflamatória crônica), condição associada à dificuldade do organismo de eliminar toxinas de fungos e cuja validade clínica é contestada por parte dos médicos. Fosse qual fosse o nome, o efeito foi grave. Peterson teve pneumonia e sepse, e passou quase um mês internado em terapia intensiva, num episódio que a própria família descreveu como uma quase-morte, com alta em dezembro.
Havia ainda um problema mais antigo. Anos atrás, o psicólogo desenvolveu uma lesão neurológica ligada ao uso de benzodiazepínicos, remédios para ansiedade, e à acatisia, distúrbio que provoca agitação física e mental intensa. Durante a recuperação de 2026, esse quadro voltou. As notícias sobre seu estado chegavam quase sempre pela filha ou pela esposa, raramente por ele.
Em 21 de junho, Peterson assinou a primeira mensagem do próprio punho desde a piora, para anunciar que passaria a liberar uma palestra inédita por semana de seu acervo de turnês. Avisou que ainda não conseguia gravar podcasts nem subir a um palco. O ensaio de 22 de julho é outra coisa: o primeiro texto novo, pensado e escrito, desde que desapareceu.
O caso que ele escolheu
Peterson não escreveu no vácuo. Seu ensaio responde a um documento específico, o inquérito independente que o deputado britânico Rupert Lowe organizou por financiamento coletivo e publicou em junho. O relatório de Lowe fala em 250 mil vítimas desde os anos 1950, número que analistas classificaram como exagerado e que ultrapassa o que os dados oficiais sustentam.
O pano de fundo, porém, é real e documentado. Ao longo dos anos 2000 e 2010, redes de homens aliciaram e exploraram sexualmente meninas vulneráveis em cidades inglesas como Rotherham e Rochdale. Uma auditoria conduzida pela Baronesa Louise Casey, publicada em 2025, foi direta ao afirmar que as autoridades se esquivaram da questão étnica e que examinar a origem dos agressores não é racismo. Nos casos que chegaram a julgamento, os condenados eram majoritariamente homens de origem paquistanesa e muçulmana, e as vítimas, meninas brancas. A mesma auditoria ressalvou que os registros nacionais são incompletos demais para fechar uma estatística sobre a etnia dos autores.
Renomear o crime
O argumento central do texto diz respeito à linguagem. Para Peterson, os nomes que se deram ao caso formaram um “gradiente de evasão”. O uso de termos como “gangue asiática de aliciamento” diluiria a culpa entre grupos étnicos sem qualquer ligação com os crimes, e “gangue de aliciamento” trocaria a violência sexual por um verbo brando. Até “gangue de estupradores”, a mais crua das expressões, nomearia o estupro, mas deixaria de fora o contexto étnico e religioso.
A tese que sustenta tudo isso é curta: “O que não pode ser nomeado não pode ser compreendido”. Peterson trata a escolha das palavras como um ato político, e não como um detalhe de vocabulário. Por isso propõe um nome próprio para o fenômeno. Depois de uma sequência de perguntas em que testa e descarta rótulos como “grooming” e “estupro”, chega ao termo que quer fixar: “sexual conquest gangs” (gangues de conquista sexual), redes para as quais o corpo das meninas seria território a ser tomado, na lógica arcaica do saque e do estupro tribal em tempo de paz.
É aqui que o ensaio fica espinhoso. O nome que Peterson carrega uma tese embutida: a de que os crimes foram uma forma de guerra e conquista de fundo religioso, e não a soma de patologias individuais. Ao rebatizar o fenômeno, ele faz mais do que descrevê-lo, porque a própria escolha do termo já traz dentro de si a explicação que quer defender.
O que Peterson exige
O ensaio não para no diagnóstico. Peterson cobra que os chefes das redes sejam julgados sem qualquer consideração por identidade ou conveniência política, e que os cúmplices respondam também, tanto os que sabiam dentro das comunidades quanto as autoridades que se calaram. Descreve o encobrimento oficial como colusão, não como mera falha administrativa, e lembra que investigações confirmaram o que vítimas e assistentes sociais relatavam havia anos: a polícia e as prefeituras sabiam e preferiram não admitir, com medo de parecer racistas.
Há uma parte mais sombria. Peterson escreve que a ausência de uma resposta à altura tornará certa uma reação exagerada, e que setores da direita para os quais a deportação em massa é a saída mais palatável tendem a ganhar força. O texto se encerra com uma frase que soa ao mesmo tempo como previsão e como aviso: se a maré virar, ela virará com vingança.
O inquérito oficial britânico, presidido pela Baronesa Anne Longfield, ainda deve levar até três anos para concluir seus trabalhos. Peterson, como Lowe, não quis esperar. Voltou da doença justamente para dizer que o problema começa nas palavras, e que enquanto o crime não tiver o nome certo ninguém conseguirá entendê-lo. Resta saber se o nome que ele propõe ajuda a enxergar o que aconteceu ou se já entrega, pronta, a resposta que o leitor deveria alcançar por conta própria.
noticia por : Gazeta do Povo



