Kathleen Stock está acostumada a ser cancelada. Formada em Filosofia pelo Exeter College, em Oxford, com doutorado pela Universidade de Leeds, ocupou por 18 anos a cadeira de Filosofia na Universidade de Sussex, à qual renunciou em outubro de 2021 — não exatamente por vontade própria. Sua saída se deu após cerca de três semanas de protestos estudantis que exigiam sua demissão e de ameaças que motivaram investigação policial.
Seu crime: opor-se publicamente à substituição do sexo biológico pela identidade de gênero como critério legal e social e, por consequência, à presença de homens biológicos nos esportes e nos banheiros públicos femininos, bem como ao uso de expressões como “corpos que menstruam” para se referir às mulheres (à época, ela concedeu uma entrevista à Gazeta do Povo sobre o tema).
Cinco anos depois de Material Girls, obra na qual disseca a centralidade da biologia feminina para a eficácia de qualquer iniciativa em defesa das mulheres, a filósofa está de volta à arena — mais uma vez, com um tema candente. No último dia 15 de julho, a Assembleia Nacional francesa aprovou em caráter definitivo o direito à “ajuda para morrer”, e o texto seguiu para exame do Conselho Constitucional; no Reino Unido, o projeto de morte assistida foi ressuscitado em junho por uma deputada do Partido Trabalhista, com nova votação na Câmara dos Comuns marcada para setembro.
Na América Latina, o Uruguai aprovou sua Lei de Morte Digna em outubro de 2025, regulamentou-a em abril e realizou o primeiro procedimento em maio deste ano. Enquanto isso, “pioneiros” como Holanda, Bélgica e Canadá já encaram os resultados da descriminalização da eutanásia, com aumento expressivo na procura pela prática. É nesse pano de fundo que Kathleen Stock lança Do Not Go Gentle: The Case Against Assisted Death, ainda sem tradução para o português.
Sem em nada abdicar da elegância ou da profundidade em nome do didatismo, Stock faz jus tanto ao título de filósofa quanto à vasta experiência acadêmica: em pouco mais de 300 páginas, o livro esmiúça todos os pressupostos que conduzem ao apoio à morte assistida, bem como as suas nefastas consequências, visíveis e — por ora — invisíveis. Vale dizer que, para a autora, ajudar alguém a morrer não é um ato intrinsecamente imoral: para Stock, pode haver situações pontuais, raríssimas, em que tal decisão seja aceitável.
O que ela combate veementemente, porém, é a institucionalização da morte: os “serviços de morte assistida”, estruturas formais gestadas dentro dos sistemas de saúde e sustentadas por políticos, advogados, médicos, enfermeiros e farmacêuticos.
O que os intelectuais esquecem
Para ilustrar seus argumentos, Stock vale-se de dois “arquétipos”, representantes de duas posturas distintas por trás do apoio à morte assistida: o “Amante da Liberdade” e o “Auxiliador Misericordioso”. Enquanto o primeiro defende a existência de um “direito de morrer” com base no princípio da não interferência, o segundo acredita que há situações em que a única forma de aliviar o sofrimento alheio é acelerar a morte.
Aos libertários, Stock oferece a distinção clássica segundo a qual da liberdade negativa — o impedimento à interferência alheia — não se extrai a liberdade positiva de exigir que médicos, hospitais e o Estado organizem o ato. Lembra-nos também da dificuldade de se avaliar a autonomia individual em cenários que podem incluir distúrbios severos, ausência de recursos ou mesmo a pressão — efetiva ou percebida — de terceiros; e de que morremos como vivemos: cercados de gente a quem estamos ligados por vínculos de obrigação e afeto, e que invariavelmente sofrerá as consequências desse exercício de “liberdade”.
“Esposos, pais, filhos e irmãos têm interesses morais significativos. Não sendo especialmente conhecidos por sua empatia, intelectuais às vezes parecem se esquecer disso”, ironiza.
Com relação aos “misericordiosos”, mais numerosos e mais simpáticos ao senso comum, a filósofa examina os argumentos recorrentes e seus gargalos: a disponibilidade real de tratamentos, o ritmo dos avanços da ciência, a dificuldade de estabelecer com precisão o que é sofrimento psíquico irremediável e tudo o que ainda pode ser feito por esses pacientes que estão, ou creem estar, à beira da morte.
Faz o minucioso exercício de percorrer as severas lacunas dos serviços de cuidados paliativos existentes no mundo, mostrando como os próprios termos do debate são irremediavelmente imprecisos, sempre baseados em “prognósticos de seis meses”, “sofrimento insuportável”, “decisão livre e esclarecida”: categorias tratadas como réguas claras pelos legisladores, mas que abarcam uma miríade de variedades para a medicina e para a psicologia.
Graças à terminologia vaga, no Canadá, por exemplo, o diagnóstico terminal sequer é exigido, e deficientes físicos com longa vida pela frente podem optar pela morte com apoio do Estado: só em 2023, 4,7% de todas as mortes canadenses foram por “assistência médica em morrer”, com relatos de aprovações por sensibilidade química, sequelas de Covid longa ou cegueira — muitas vezes em casos marcados por pobreza, falta de moradia e ausência de apoio diário. Stock aponta ainda a evidência incômoda de que, nos países que implantaram a morte assistida, os cuidados paliativos melhoraram três vezes menos do que naqueles que não o fizeram.
A distopia que nos espreita
É, porém, na análise cultural que Stock demonstra suas percepções mais agudas, levando o leitor a questionar em que medida o domínio inquestionável da cultura wellness — a obsessão contemporânea pela saúde e pelo controle do próprio corpo — não seria mais uma face do eterno esforço humano de esquecer-se da própria mortalidade, contribuindo para que a morte pareça preferível a qualquer limitação física ou a um cenário de dependência parcial ou total, que todos estamos fadados a enfrentar, cedo ou tarde.
Aponta também para o que a mera existência de um serviço de morte assistida comunica: a ideia de que há condições humanas desprovidas de dignidade, a despeito de ser exatamente essa a palavra invocada pelos defensores da “morte digna”.
O destaque dado ao grupo britânico Not Dead Yet, fundado por deficientes e doentes terminais contrários à morte assistida, ilustra o problema: as condições usualmente alegadas para oferecer a morte a um doente terminal — dor crônica, perda de controle das funções, incapacidade de realizar tarefas sem ajuda — são as mesmas com que muitas pessoas convivem por décadas, lutando por visibilidade e cuidados.
Se, porém, a vida com certas limitações, por mais duras que sejam, é oficialmente reconhecida como “insuportável”, quem convive com elas e quer continuar vivendo passa a existir sob suspeita, tendo a “saída honrosa” do suicídio mais à mão do que melhores tratamentos ou cuidados paliativos. “É muito mais fácil matar uma pessoa doente do que ajudá-la a viver bem a vida”, resume a autora.
Mais do que isso, Stock demonstra como as “melhores” intenções dos Amantes da Liberdade e dos Auxiliadores Misericordiosos hão de contribuir, ao fim, para o triunfo do pior dos arquétipos: o utilitarista. Uma vez estabelecido que a morte assistida é razoável, sobretudo quando associada a um serviço de saúde, sempre haverá quem queira estender esse bem a novos grupos que também o “mereceriam”, e grupos de pressão dispostos a lutar por isso.
Em um mundo que envelhece rapidamente, morrer cedo e rápido, a custos certamente inferiores aos de oferecer a todos os devidos cuidados, será mais desejável e lucrativo do que lutar pela vida. Uma distopia que, embora pareça distante, já espreita o Ocidente.
noticia por : Gazeta do Povo




