sábado, 8, agosto , 2026 11:30

Como os grupos terroristas estão usando a Inteligência Artificial a seu favor

O Vale do Silício sabe que colocou instrumentos de destruição em massa nas mãos de grupos terroristas islâmicos? A pergunta, que até poucos anos atrás soaria como ficção científica, encontra hoje uma resposta documentada em uma pesquisa conduzida pela Universidade de Cambridge. O estudo relata como a inteligência artificial deixou de ser, para certas organizações jihadistas, um simples megafone de propaganda para se transformar em um verdadeiro assistente capaz de organizar atentados, ensinar técnicas de combate e construir bombas.

Entre 2022 e 2025, Antonia Juelich, especialista em terrorismo e novas tecnologias, conduziu para o Cambridge Programme on AI Science & Policy — do qual é responsável — 57 entrevistas, cada uma com uma hora e meia de duração, com 27 ex-membros do Boko Haram, grupo jihadista do norte da Nigéria. O resultado foi um relatório de 93 páginas — o primeiro estudo do gênero —, publicado há poucos dias, que traz um quadro muito mais inquietante do que as análises anteriores deixavam supor sobre o uso da inteligência artificial pelo terrorismo islâmico.

Os entrevistados, em sua maioria ex-comandantes ou “especialistas técnicos”, demonstraram conhecer bem os seis principais provedores de IA disponíveis no mercado e saber como utilizá-los para suporte bélico, planejamento tático, segurança operacional e revisão pós-missão.

A reviravolta ocorreu entre 2023 e 2025, quando o Estado Islâmico — tido por muitos como enfraquecido, se não extinto — revelou ter construído uma rede inteira de instrutores especializados em inteligência artificial, ativos entre seus seguidores na Nigéria e em Camarões. O relatório destaca que os jihadistas não aprenderam a usar a IA de forma autônoma, mas foram treinados. Homens da Líbia, França e Iraque, descritos pelos ex-militantes simplesmente como “brancos que vieram nos treinar”, organizaram visitas ao Estado de Borno, no nordeste da Nigéria, com grupos que contavam com até vinte instrutores — alguns especializados em drones e artefatos explosivos, outros inteiramente dedicados à IA. “Também havia muitos árabes vindos do Afeganistão e do Iraque que nos deram treinamento. Essa é a razão principal pela qual fizemos progresso”, relata um dos entrevistados. E foi justamente após essas sessões de formação que um novo mantra começou a circular entre as fileiras do Boko Haram: “Alá nos ajudou, e a IA também ajudará”.