No dia 22 de março de 2024, numa troca de mensagens com a advogada Roberta Luchsinger, Lulinha queixou-se: “Trabalho pra caralho e nunca dá em nada”.
As encrencas em Pindorama são tantas que é necessário recriar o contexto em que elas ocorrem e Lulinha se queixa.
Em 2023, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, logo após sua aposentadoria do STF e antes de se tornar ministro da Justiça de Lula, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. No mesmo ano, o ministro Dias Toffoli suspendeu os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.
Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol, segundo o jornal O Globo. Seria um negócio de R$ 626 milhões.
Era motivo de euforia para Luchsinger: “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom [sic]. Esse povo aqui tá em outra vibe”.
Em 2024, Antunes só era conhecido por seu povo como Careca do INSS. O escândalo do roubo praticado nas aposentadorias só viria a público no ano seguinte.
Além de Lulinha, a dupla acreditava ter como gazua o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
Lulinha e o ‘Careca’
Em janeiro de 2025, Lulinha e sua família viajaram à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. A viagem foi organizada por Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega e “luxury travel specialist”. A vilegiatura foi paga por Roberta Luschinger, que era financiada pelo “Careca do INSS”, seu parceiro no possível negócio dos frascos de canabidiol.
(Nesses dias Flávio Bolsonaro tratava com o banqueiro Daniel Vorcaro de recursos para o filme “Dark Horse” e o grupo J&F, dos irmãos Batista, pagou R$ 25,9 milhões a uma empresa que comprou a participação da família do ministro Dias Toffoli, do STF, no resort Tayayá.)
Meses depois, a Polícia Federal revelou que o Careca do INSS recebeu R$ 53,5 milhões de entidades metidas nas roubalheiras contra os segurados da Previdência.
Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Lulinha foi para o assento 6J e o Careca foi para o 3A. Viajaram em assentos separados, com o mesmo objetivo: prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos 1,2 milhão de frascos de canabidiol. Lulinha admitiu que o Careca pagou as passagens e as diárias do hotel. Careca montou uma empresa, a Candango Consulting, na cidade de Porto e, em fevereiro de 2025, comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.
Em dezembro de 2025, saiu na imprensa a informação de que um ex-funcionário do Careca havia dito que Lulinha recebia do patrão uma mesada de R$ 300 mil e se referia a ele como “filho do rapaz”.
Lulinha, o ‘Careca’ e ‘Marcola’
A venda de canabidiol para o Ministério da Saúde poderia ser um bom negócio, com o filho do presidente no lance, teria o pescoço comprido. Faltava incluir a girafa no rol de medicamentos do SUS. Incluindo-o, o que não é fácil, seria necessário licitá-lo.
A essa altura, entra Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”. Chefe de gabinete e guardião da porta de Lula. No início de agosto, o site Poder360 revelou que o discreto “Marcola” tomou R$ 249 mil emprestados a Luchsinger, quitando-o.
Em 2024, os dois tratam também da compra de joias para o Dia das Mães. (Não se sabe mãe de quem.)
Na quinta-feira, os repórteres Eduardo Gonçalves e Sarah Teófilo revelaram que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Luchsinger e do Careca a minuta de um contrato e o plano de negócio da compra de 1,2 milhão de 36 tipos de remédios à base de canabidiol, sem a praga dos finórios, a licitação. O destinatário da minuta era Marcola.
“É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação”, disse Luchsinger. “Ele” poderia ser “Marcola”.
“Pousei. Vou lá no Berge”, disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo [beijo] pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”, ironizou Lulinha.
Berge é Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, quadro histórico da infantaria petista, hoje no Planalto.
O canabidiol não está no rol de fármacos do SUS, licitação não se suspende só com telefonemas ou almoços e nenhum frasco foi comprado. A cobiça dos finórios e a soberba palaciana bombaram uma crise a um mês da eleição.
Lulinha reclamava que dava duro e seus negócios davam em nada. Ainda bem que a Viúva não comprou o canabidiol do Careca.
Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos. Podiam ter feito isso há meses.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL



