No início de setembro, 215 vítimas de abusos espirituais procedentes de 37 comunidades católicas francesas – e não exatamente as menos importantes – enviaram uma carta a Leão XIV, a poucas semanas de sua chegada à França.
Esta iniciativa incomum, destinada a chamar a atenção para um problema bem conhecido pelo papa e pelos bispos franceses — e que é objeto de toda a sua atenção: o papa se reunirá em Lourdes com um grupo de vítimas —, não deveria nos fazer esquecer que mais de um milhão de pessoas se inscreveram espontaneamente nas diferentes plataformas abertas desde o último mês de agosto nas diversas localidades que o papa vai visitar: Paris, Metz e Lourdes. Entre elas, há muitos jovens.
Poderia-se inclusive interpretar essa provocativa chamada de atenção como um reconhecimento da magnitude do sucesso da visita.
Aos oficialmente inscritos somar-se-ão todos aqueles que, em Paris, assistirão de longe, a partir da famosa avenida Champs-Élysées, à missa celebrada na não menos famosa e histórica Place de la Concorde, assim como aqueles que acorrerão em massa aos locais que Leão XIV planeja visitar, tanto na capital quanto nas outras duas cidades. Lourdes atrairá, sem dúvida, muita gente.
Sinais de vitalidade
Mas esse entusiasmo inesperado não se deve apenas à crescente popularidade do sucessor do papa Francisco. A Igreja da França dá sinais de certa vitalidade, mesmo levando em conta a queda significativa nos batismos de crianças e na frequência à missa dominical. Os que continuam praticantes são fervorosos e, frequentemente, participam ativamente em diversos compromissos cristãos, paroquiais ou de outra natureza, preocupados com a justiça social, na linha da encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, prolongada e renovada em um novo contexto informático e midiático.
Os diversos ramos do escotismo de inspiração católica, não mistos, continuam ativos.
Os bispos estão atentos aos ensinamentos e ao incentivo do papa. O ecumenismo está muito vivo nas iniciativas dos teólogos envolvidos nesse processo e nas mentalidades comuns.
A repercussão midiática da encíclica Magnifica Humanitas transcende amplamente o âmbito católico.
Conversões
Além disso, há alguns anos surge um fenômeno novo: as paróquias recebem uma avalanche de pedidos de conversão. Elas não procedem apenas de pessoas não batizadas que desejam contrair matrimônio canônico com um católico, mas, em muitos casos, de jovens ou pessoas de mais idade que buscam o absoluto e a espiritualidade, e que não encontram uma resposta satisfatória em um mundo que consideram materialista e individualista.
Esta novidade recorda a França dos anos 1930, onde ocorriam conversões espetaculares em um país amplamente descristianizado.
Mas (e aí radica a diferença) onde estão hoje os Claudel, os Huysmans, os Maritain, os Max Jacob, que deram testemunho de sua descoberta da fé católica e de como ela reorientou radicalmente suas vidas e obras? As conversões de hoje são de pessoas anônimas, mais do que de figuras conhecidas pelo público culto. Entre estas, são poucas as que dão testemunho de sua prática religiosa, como o escritor Didier Decoin, ganhador do Prêmio Goncourt e ex-presidente da Academia de mesmo nome, falecido há poucas semanas. Alguns grandes nomes se declaram, antes, e com grande sinceridade, próximos da fé, sem que isso os leve a uma prática religiosa.
Os bispos, no seio da Conferência Episcopal, e as paróquias, em seu nível, se esforçam para promover a perseverança destes neófitos inesperados, cuidando de sua formação.
Surpreende que muitos dos mais jovens se sintam atraídos pelas belas liturgias, de preferência em latim, o que leva alguns a frequentar igrejas e capelas onde se celebram missas tradicionais, e aquelas que estão a cargo seja da Fraternidade São Pedro, reconhecida por Roma, seja da fraternidade integrista São Pio X, que continua muito presente na França, fechada em si mesma (40.000 fiéis praticantes regulares no máximo), mas com uma média de idade inferior à da população francesa e em ligeiro aumento no que diz respeito às ordenações.
Despertar as consciências
O papa chegará, portanto, a este país de antiga tradição cristã que é a França, mas não tão descristianizado como se costuma dizer. Ele sabe disso, e cabe esperar que suas mensagens levem isso em consideração e tenham como objetivo despertar as consciências dos católicos, interpelando-os, tal como fez João Paulo II em 1980, durante sua primeira viagem apostólica: “França, que fizeste com as promessas do teu batismo?”.
As próximas semanas dirão se o grande movimento de simpatia que a viagem pontifícia suscita – pastoral e não político, tal como esperavam os dirigentes deste país, com o presidente Emmanuel Macron à frente – terá cumprido suas promessas ou as terá superado.
Etapas da viagem
Na grande expectativa diante dos diversos eventos, não se exclui um ponto de curiosidade: João Paulo II e Bento XVI eram bem conhecidos antes de visitar a França; agora, católicos e não crentes têm a oportunidade de se aproximar de um bispo de Roma que mal começa o segundo ano de seu pontificado.
A hierarquia da Igreja tem demonstrado nos últimos anos uma solicitude especial em matéria de catecumenato. Os números são eloquentes: mais de 20.000 em 2026, contando os adolescentes. Compreende-se que o pontífice se reúna em Paris com os membros da Assembleia Sinodal Provincial, os catecúmenos e os neófitos (sábado, 26 de setembro).
Os organizadores da grande vigília dos jovens, no Stade de France em Saint-Denis (sexta-feira, 25), esperam também manifestar a unidade dentro de uma diversidade que une e não separa: os jovens católicos convidaram amigos judeus, muçulmanos, sikhs, budistas e hinduístas: “Vivem juntos o ano todo e sentiram o desejo de compartilhar este grande momento”, disse Dom Étienne Guillet, bispo de Saint-Denis.
Será importante também a visita à sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), também na sexta-feira. Muito provavelmente serão cumpridas as expectativas destacadas ao La Croix por Khaled El-Enany, diretor desse organismo da ONU: “Quis convidar o papa Leão XIV porque sua visão e seu compromisso coincidem profundamente com as prioridades da Unesco: a proteção dos jovens, a educação como fundamento da paz, o diálogo intercultural e inter-religioso, bem como os desafios éticos relacionados às novas tecnologias”.
Essas preocupações são inseparáveis da solicitude do papa pelos migrantes: a jornada do sábado, 26, começará com sua visita ao Centro de Acompanhamento e Integração Social “Maison Bakhita”.
A etapa de Lourdes, de sábado a domingo, será profundamente espiritual, com um afluxo incomum de fiéis que desejam viver uma experiência de peregrinação ao lado de um peregrino especial: o papa.
A visita do pontífice se encerrará na segunda-feira, 28, em Metz, capital da Lorena, cidade fronteiriça que superou duras inimizades e é hoje símbolo da amizade entre os povos e lugar propício para o diálogo inter-religioso. Ali nasceu um dos pais fundadores da União Europeia, Robert Schuman – declarado venerável pelo papa Francisco –, que teve o espírito de reconciliação no centro de sua alma.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Una Francia no tan descristianizada recibe a León XIV.
noticia por : Gazeta do Povo



