No chão onde, há quase um ano, corpos foram enfileirados sob uma lona azul ao lado da praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, crianças brincaram nesta segunda-feira (12) em uma piscina improvisada feita com uma lona da mesma cor. A festa de Dia das Crianças, organizada por moradores, foi a primeira edição do projeto Infância Raiz.
Foi para a praça que moradores levaram, na madrugada de 29 de outubro de 2025, dezenas de corpos retirados da mata da serra da Misericórdia, um dia depois da Operação Contenção, das polícias Civil e Militar, nos complexos da Penha e do Alemão. A ação deixou 122 mortos, sendo 117 civis e cinco policiais, e é considerada a mais letal da história do país.
A escolha do endereço para a festa das crianças não foi por acaso, afirma Celison Procópio, morador e um dos idealizadores do projeto.
“A última imagem que temos dessa rua aqui foi uma tristeza grande, onde todo mundo acompanhou e muitas perdas, muitas mães chorando, irmãos, filhos”, disse Procópio. “Então isso aí foi mais um motivo da gente trazer para essa rua aí, para deixar um pouco aquela imagem de lado e trazer uma imagem diferente, que é a felicidade das crianças”.
A festa foi paga, segundo ele, pela associação de moradores, por comerciantes e por vizinhos que contribuíram com o evento.
Além da piscina, havia pula-pula, tobogã, touro mecânico, futebol de sabão, corrida do saco, amarelinha, bolinha de gude, pintura facial, e comidas como cachorro-quente, algodão-doce e maçã do amor.
A proposta, segundo o morador, era a de resgatar brincadeiras da infância dos organizadores e afastar um pouco as crianças da internet.
Taís Marques, 35, mora na comunidade há 15 anos e levou as filhas à festa. Uma delas nasceu na própria praça São Lucas: segundo Taís, ela deu à luz ali porque não conseguiu chegar a tempo ao hospital, já que obras na região dificultavam o transporte na época. Para ela, a festa ajuda a mudar a imagem de como o lugar é lembrado.
“É bom, é bom para mostrar que não só foi a tragédia, entendeu? Só uma brincadeira para as crianças, entendeu?”, disse
Perguntada sobre o impacto da violência nas filhas, Taís resumiu: “Elas têm medo. Quando solta fogos, elas se assustam. Hoje estão muito animadas”.
Entre os presentes estava Tauã Brito, mãe de Wellington Brito, 20, um dos mortos na operação. Confeiteira, foi ela quem fez o bolo que levou 16 caixas de leite condensado.
Segundo Tauã, o filho ficou encurralado na mata da Vacaria, na Penha, e mandou uma mensagem por volta das 8h daquela terça-feira pedindo que ela fosse buscá-lo.
Depois da morte do filho, Tauã se mudou para Rio das Ostras, na região dos Lagos, onde vende bolos e doces num balcão com vitrine na feira.
Ela diz que, no último ano, não recebeu apoio público. O único contato com a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) foi uma audiência pública, que a convidou para falar sobre a violência vivida pelos moradores.
Ela conta que hesitou durante meses ao responder quantos filhos tem. “Eu nunca falo que eu tenho só a Belinha [filha pequena]. Eu me questionei muito sobre isso. ‘Quantos filhos você tem?’ Aí eu ficava, meu Deus, o que eu respondo agora, né? Mas eu falo, eu tenho dois filhos. O Wellington não deixou de ser meu filho.”
A programação incluiu ainda uma etapa estadual da Batalha dos Barbeiros, competição criada pela cabeleireira e produtora cultural Erika Nunes.
Os competidores disputaram na categoria reflexo alinhado, corte com descoloração popular nas favelas. O vencedor vai à final, marcada para novembro, dentro do festival Favela Cria. Segundo Erika, a intenção é formar os barbeiros também como empreendedores.
O corte ganhou projeção com uma música do MC Copinho, morador do Complexo da Penha e MC há 19 anos. Formado em educação física, ele diz que o tênis mudou sua trajetória e cobra investimento em esporte, educação e cultura nas comunidades.
O professor Marcelo Martins, nascido e criado na Vila Cruzeiro, trabalhou como voluntário na festa. Ele é criador do pré-vestibular comunitário Estudando para Vencer, que fica em frente ao local para onde os corpos foram levados.
“A infância é primordial e vale ressaltar que a infância do pobre é sempre roubada”, afirmou Martins.
Sobre a operação de um ano atrás, o professor lembra-se de vidas perdidas, “seja de um lado, seja de outro”.
“Quando fala de vida, a gente fala de mãe, a gente fala de irmão, a gente fala de sofrimento, a gente fala de sonhos interrompidos”, diz. “Só com estudo a gente vai mudar a cabeça do jovem e vai criar um povo mais inteligente. Mas basta saber se isso é interessante para quem tá lá em cima”.
noticia por : UOL



