domingo, 9, agosto , 2026 06:01

Quando o dinheiro fica caro, só o essencial sobrevive

Imagine que você está em uma estrada que liga o presente ao seu futuro financeiro. E que cada vez que você pensa em desviar para uma nova rota, precisa pagar uma taxa. Se a cobrança for pequena, qualquer desvio parece justificável. Mas se o pedágio custar caro, você pensa duas, três, talvez dez vezes antes de sair da pista principal. Assim funciona o investimento em um ambiente com juros altos: o custo de oportunidade é o pedágio que força escolhas mais criteriosas.

Com a Selic a 15% ao ano, investir se tornou uma decisão mais cara — não por causa do valor investido, mas pelo que se deixa de ganhar se errar o caminho. Em tempos assim, qualquer aplicação precisa justificar bem sua existência. Se a renda fixa prefixada, no longo prazo, está pagando 13% a 14% ao ano com risco mínimo, o que você for escolher precisa superar esse patamar. Caso contrário, você pagou o pedágio — e saiu perdendo.

Esse novo cenário impõe disciplina. Não basta o investidor se perguntar “isso pode subir?”, precisa questionar “isso vai subir mais do que o CDI?”. É uma mudança de mentalidade. Aquela aposta incerta, o ativo que está parado, o projeto que demora para girar — tudo isso passa a custar mais, simplesmente porque existe uma alternativa segura crescendo sozinha no piloto automático.

Veja o custo da espera: com uma taxa de juros prefixada média de cinco anos em 13,7% ao ano, um capital dobra em, praticamente, cinco anos. Isso significa que, mesmo sem pressa, um investidor conservador pode multiplicar o patrimônio só esperando — e com pouco risco. Por outro lado, deixar o dinheiro em algo que não rende rápido ou que demora para entregar resultado virou um luxo caro.

Nietzsche dizia que “a força de um espírito se mede pela quantidade de verdade que ele é capaz de suportar”. E uma verdade dura no mercado é essa: quando os juros estão altos, não dá para brincar de investir. O filtro é objetivo. Ideias frágeis, apostas baseadas apenas em fé ou narrativas, negócios sem geração de caixa — tudo isso fica pelo caminho.

Howard Marks, um dos grandes nomes da gestão de fundos, costuma lembrar que “a disciplina é mais importante do que a previsão”. Num ambiente como o atual, isso se torna ainda mais verdadeiro. A tentação de correr atrás de promessas mirabolantes cresce, mas o custo de errar é bem maior.

Quando você pensar: vale investir naquele ativo que já subiu muito? Reflita com cuidado se ele realmente vai dobrar em cerca de cinco anos. Caso contrário, pode ter o mesmo ou menos com mais risco. Ou seja, pode ser um ativo que só contribui com adrenalina.

Juros altos não são apenas um obstáculo. São uma peneira. Eles separam os investimentos que realmente valem a pena daqueles que só pareciam interessantes quando o dinheiro estava barato. E isso vale até para você: talvez esteja na hora de revisar sua carteira. Afinal, quando o dinheiro custa caro, só o que é realmente bom sobrevive.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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noticia por : UOL