terça-feira, 25, agosto , 2026 07:11

Na ponta da língua

Eu confesso! No passado, já abracei a heresia, de inspiração levemente heideggeriana, segundo a qual palavras conservariam um sentido original que seria mais verdadeiro que os demais e ao qual teríamos acesso pela análise etimológica.

Isso é uma tremenda de uma bobagem. Palavras não carregam sentidos secretos e todas as suas utilizações são igualmente legítimas. Encontrei forças para me livrar dessa visão quase religiosa da linguagem, mas conservei uma quedinha por etimologias. E isso explica por que gostei de “Na Ponta da Língua”, de Caetano Galindo.

O livro pode ser descrito como um passeio etimológico por partes do corpo humano, da cabeça aos pés e sem esquecer as vergonhas. Mas é claro que Galindo não se limita ao projeto original e estica o périplo para vários outros domínios. E o faz com muita descontração, bom humor e sem perder a elegância, mesmo quando fala de pênis e vulvas.

Sobra até para outros idiomas. Há trechos muito engraçados em que ele comenta particularidades mais exóticas dos sistemas de escrita inglês e francês. A palavra “eau” (água), por exemplo, é pronunciada em francês como um “ô”, isto é, com um som que não é o de nenhuma das três vogais que a compõem.

As gracinhas são, porém, incidentais. O propósito de Galindo, além de contar boas histórias, é contribuir para criar uma espécie de consciência linguística, pela qual as pessoas se dariam conta de que idiomas estão em constante evolução.

E isso deveria bastar para nos fazer abandonar certos mitos, como a ideia de que a origem da palavra revela verdades secretas sobre ela e sobre o mundo, ou a de que existe certo e errado em matéria de idioma, ou mesmo a de que uma palavra não registrada nos dicionários não existe. Ora, o lexicógrafo só pode abonar aquilo que as pessoas falam.

Para não ficar só em elogios, lamento que Galindo tenha sido tão econômico na bibliografia. Não é porque um texto é de divulgação científica que o leitor deve ser privado de referências mais detalhadas. Pelo contrário, até.


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noticia por : UOL