terça-feira, 10, março , 2026 02:04

42,7% das evangélicas já sofreram violência doméstica


Levantamento divulgado em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Datafolha, aponta que 42,7% das mulheres evangélicas no Brasil afirmaram ter sofrido algum tipo de violência doméstica praticada por parceiros ou ex-parceiros ao longo da vida.

O estudo abrange agressões físicas, sexuais e outras formas de abuso no contexto de relacionamentos íntimos.

No recorte nacional, 32,4% das brasileiras com 16 anos ou mais relataram já ter vivenciado violência física ou sexual cometida por companheiros ou ex-companheiros. O índice supera a média global estimada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 27% para mulheres entre 15 e 49 anos .

Múltiplas formas de agressão e controle

A pesquisa detalha as diferentes manifestações de violência enfrentadas pelas mulheres. Entre as vítimas, 21,1% declararam ter sido forçadas a manter relações sexuais contra a própria vontade.

Humilhações ou xingamentos frequentes por parte do parceiro foram relatados por 32,4% das entrevistadas. O estudo também revela que uma em cada quatro mulheres brasileiras já sofreu agressão física dentro de um relacionamento .

O relatório ainda aponta outras formas de controle e abuso psicológico. Cerca de 29,1% das mulheres disseram que o parceiro invadiu celular (sem consentimento) ou computador para monitorar mensagens e atividades. Outros 17,1% afirmaram ter sido pressionadas a abandonar o trabalho ou os estudos por ciúmes do companheiro, caracterizando tentativa de isolamento e dependência .

Comparação entre grupos religiosos

O estudo revela diferenças nos índices de violência entre segmentos religiosos. Entre as mulheres evangélicas, 49,7% afirmaram ter vivido ao menos uma situação de controle ou violência dentro do relacionamento.

Entre católicas, o índice foi de 44,3%. A diferença, embora não expressiva, indica que a violência de gênero é um problema presente em ambos os contextos, com incidência ligeiramente maior entre evangélicas .

Bispa critica silêncio religioso e convoca mulheres para acolhimento

A bispa Sônia Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo e do grupo Renascer Praise, manifestou-se publicamente sobre o tema em suas redes sociais. Em publicação, ela criticou a postura de silêncio adotada por alguns ambientes religiosos diante de casos de violência doméstica .

“Não podemos simplesmente ouvir histórias como estas e cruzar os braços! Mais de 40% de mulheres que sofrem como estas são cristãs e muitas são instruídas a se calarem em nome de Deus! Aonde está isso na Bíblia?”, questionou a bispa .

A declaração de Sônia Hernandes reflete uma preocupação recorrente em círculos religiosos. Relatos de vítimas frequentemente mencionam aconselhamentos que priorizam a preservação do casamento e a submissão como virtude cristã, em detrimento da denúncia e da proteção da mulher .

A bispa também convidou mulheres para o evento “+QV”, marcado para o dia 14 de março na sede da Igreja Renascer em São Paulo. Segundo ela, o encontro pretende incentivar o apoio, a orientação e o acolhimento para mulheres que enfrentam situações de violência, oferecendo um espaço seguro para compartilhamento de experiências e acesso a informações sobre direitos e recursos de proteção .

Iniciativas religiosas de enfrentamento

Diferentes denominações têm buscado formas de lidar com a questão. A própria Igreja Renascer, por meio de sua fundadora, já declarou atender cerca de 100 mulheres por mês em situação de violência, muitas chegando aos cultos com marcas físicas das agressões.

A igreja mantém grupo de advogados voluntários para orientação jurídica das vítimas e planeja expandir o programa “Tempo de Despertar”, voltado à ressocialização de homens agressores .

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) divulgou comunicado orientando líderes religiosos a não se limitarem a aconselhar oração e paciência às vítimas, mas a encaminhá-las às autoridades competentes, sob pena de se tornarem cúmplices da violência .

Estudo acadêmico desenvolvido na Faculdade Evangélica das Assembleias de Deus no Brasil (FAECAD) aponta que, quando questionadas sobre a quem recorreria primeiro em caso de agressão, 50% das mulheres optaram pela família, 40% pela delegacia especializada e apenas 10% pela igreja, revelando a percepção de que as instituições religiosas nem sempre estão preparadas para acolher adequadamente essas vítimas .

A violência doméstica contra a mulher no Brasil permanece como problema estrutural, e os dados específicos sobre o segmento evangélico acendem alerta para a necessidade de atuação conjunta entre instituições religiosas, poder público e sociedade civil na proteção das vítimas e na promoção de relacionamentos saudáveis. Com: Exibir Gospel.





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