(Se bem que nada é urgente para quem mede o tempo com uma ampulheta).
Comprei uma ampulheta. No supermercado. Uma entre as dez ampulhetas que estavam expostas no setor de jardinagem e que eu virei compulsivamente, como se fosse o menino atentado que insisto em ser.
E que maravilha é poder comprar uma ampulheta assim, por impulso, uma tarde de domingo. Ampulhetas que sempre habitaram meus sonhos de viver num ritmo mais lento e despreocupado. Afinal, ninguém olha para uma ampulheta e diz: “Vish, estou atrasado!”
Ela é linda
Ela é linda, a ampulheta. De vidro, fabricada pela indústria Wolff, que um selinho diz que existe desde 1894 e eu escolho acreditar. A ampulheta talvez tenha sido fabricada na semana passada, e na China!, mas o selinho confere a ela um ar de antiguidade e tradição. No qual, mais uma vez, escolho acreditar.
Assim que tirei a ampulheta da caixa, me permiti voltar no tempo. E fiquei estudando o objeto fascinantemente inútil. Como um poema. Não, não, não! Melhor: como uma crônica sobre uma ampulheta e que implora para ser lida com generosidade em meio ao furdunço da política ou qualquer que seja o tema da briga de hoje.
A areia
O vidro antes pastoso e incandescente e agora de uma solidez frágil e translúcida. O formato que sugere um precário equilíbrio das formas cônicas de dois balões. O ar ali enclausurado, ansioso pelo dia em que a Catota derrubará a ampulheta e ele voltará a ser vento. O orifício minúsculo pelo qual passam os grãos da areia fina, muito fina, e brilhosa.
Uma areia bem diferente da de Caiobá e daquela que os caminhões depositavam em frente às construções da minha infância. Everests de areia nos quais minhas habilidosas mãos infantis cavavam túneis e construíam estradas à beira de instáveis precipícios. Tenho para mim que a areia da minha ampulheta vem de Nauru. De novo, escolho acreditar.
Mais ou menos
Depois perdi uma hora usando a tecnologia para descobrir que a ampulheta não é lá dos instrumentos de medição do tempo mais precisos. (Mentira, já sabia). Na primeira rodada, o cronômetro do celular marcou 16 minutos e 25 segundos. Na segunda, 16 minutos e 21 segundos. Não sei o que fazer nem o que pensar dessa diferença.
Agora viro a ampulheta sempre que posso e me apetece. “Daqui a 16 minutos, mais ou menos, estarei mais ou menos 16 minutos mais velho. Mais ou menos 16 minutos mais (nunca menos) próximo da morte”, penso e, em pensando, perco muito mais do que mais ou menos 16 minutos imaginando o dia em que não estarei mais aqui para virar a ampulheta. Mas, calma. Não quero avançar no tempo.
Tralha
A ampulheta que está no meu criado-mudo, juntamente com o que minha mulher chama carinhosamente de “tralha”: uma pilha de livros, o Kindle, dois porta-copos que não uso e só me rendem broncas, uma luminária, um bicho-preguiça de pelúcia (seu sei), o carregador do celular, o próprio celular e, ocasionalmente, o estojo do alinhador dental.
Às vezes aproximo a ampulheta do ouvido, na tentativa de ouvir a chuvinha de areia. Também descobri que, mexendo a ampulheta de um lado e para o outro, dá para direcionar a areia e formar morrinhos que não se assemelham a nada. Nem querem. Outro dia consegui formar um “P”, mas foi rápido demais, não consegui parar o tempo para—
— Poxa, Catota! Bem agora que a crônica tava terminando? Olha só que bagunça! Como é que eu vou limpar isso?! Sai, xô! Sai já daqui senão você vai se cortar. Caramba.
noticia por : Gazeta do Povo


