terça-feira, 28, abril , 2026 10:18

Uma lição de US$ 30 milhões, paciência e investimentos

Bobby Bonilla é conhecido pelos fãs mais velhos de beisebol como um dos melhores rebatedores do esporte nos anos 1980 e 1990. Para os torcedores mal-humorados do New York Mets, ele é conhecido como o homem que enganou o time e fez com que aceitassem um dos piores contratos da história do beisebol. E, graças a um novo e divertido guia de economia, o Planet Money, ele é conhecido por mim como um homem que nos ensina cinco lições essenciais sobre risco e aposentadoria.

Os fatos básicos são os seguintes. Em 1999, Bonilla já havia passado do auge, mas, pelo seu contrato, o Mets ainda lhe devia quase US$ 6 milhões. Bonilla concordou que, em vez dos US$ 6 millhões imediatos, ele aceitaria quase US$ 30 milhões de forma parcelada e diferenciada.

O valor seria pago em 25 parcelas anuais de mais de US$ 1 milhão, todo dia 1º de julho, a partir de 2011. A cada 1º de julho, os fãs do Mets resmungam ou fazem piada sobre o Dia do Bobby Bonilla, a data mais triste do ano. Bonilla se aposentou há 25 anos —e o Mets ainda lhe deve mais 10 pagamentos milionários.

Não são apenas os fãs do Mets que odeiam isso. O site Business Insider descreveu como “o pior contrato da história do esporte”. No entanto, qualquer pessoa com formação em economia daria de ombros. Como o Planet Money aponta, qualquer um que conseguisse investir US$ 6 milhões a uma taxa de retorno de 10% em 1999 teria quase US$ 19 milhões em 2011.

Nesse ponto, o montante investido geraria renda mais do que suficiente para pagar a Bonilla suas 25 parcelas anuais, deixando o valor principal crescer ainda mais. Em outras palavras, se o Mets conseguisse um retorno de 10% sobre seu dinheiro, poderia apertar a mão de Bonilla, investir os US$ 6 milhões, pagar cada centavo dos US$ 30 milhões que lhe devem e ainda ter dezenas de milhões de dólares sobrando em 2035, quando o acordo expira.

Portanto, não havia nada de estúpido no Mets aceitar o acordo. Talvez Bonilla fosse o tolo? Provavelmente não. O acordo com o Mets garantiu a ele um retorno de 8% com risco muito baixo. Nada mal; bom o suficiente, de qualquer forma.

A primeira lição aqui é que a maioria das pessoas não entende o poder dos juros compostos. Os fãs indignados do Mets sentem que seu time foi passado para trás pelo jogador e seus agentes; não foram. Apenas parece contrário a toda lógica e razão que US$ 6 milhões agora possam valer US$ 30 milhões depois, mas algumas décadas e um retorno anual na casa dos dígitos altos fazem maravilhas. (Muitos leitores do FT já conhecem a regra prática simples: divida 72 pela taxa de crescimento, e esse é o número de anos que seu dinheiro levará para dobrar. 7% dobrará em cerca de 10 anos; 10% dobrará em cerca de 7 anos. Menciono isso apenas porque fico eternamente surpreso com o número de pessoas matematicamente talentosas e treinadas que não conhecem esse atalho cognitivo.)

A segunda lição é sobre a dor psicológica da dívida. Uma das razões pelas quais o Dia do Bobby Bonilla parece tão absurdo para os fãs do Mets é que Bonilla ainda está recebendo cheques tanto tempo depois de se aposentar. Isso é, claro, literalmente como uma aposentadoria funciona —mas também ilustra como pode ser irritante quando alguma compra brilhante feita a crédito está juntando poeira, mas os pagamentos continuam chegando mês após mês. Algumas coisas valem a pena pegar emprestado para pagar, mas também vale a pena pensar no futuro.

A terceira lição é que mesmo no que parece ser uma negociação de soma zero, frequentemente há ganhos mútuos a serem encontrados. O Mets queria pagar o mínimo possível, e Bonilla queria receber o máximo que pudesse, mas ainda havia espaço para deixar ambos os lados felizes. O Mets precisava urgentemente dos US$ 6 milhões, enquanto Bobby Bonilla não. Jogadores profissionais de beisebol geralmente são ricos e jovens, não têm habilidades específicas em investimentos e são vulneráveis tanto a tubarões quanto aos seus próprios piores impulsos.

Bonilla não queria ir à falência tentando investir seus US$ 6 milhões em algum lugar. Ele só queria se aposentar e relaxar, sabendo que tinha uma renda regular garantida. Convinha tanto ao jogador quanto ao Mets concordar em adiar os pagamentos.

Uma quarta lição é que alguns riscos não podem ser eliminados, ou são tão caros de segurar que poucas pessoas se dariam ao trabalho. O acordo de Bonilla o expõe a três desses riscos: longevidade, inflação e risco de contraparte.

O risco de longevidade é simplesmente que, enquanto os pagamentos expiram em 2035, Bonilla provavelmente não. Se ele morrer antes dos pagamentos terminarem em 2035, não conseguirá aproveitar os benefícios de um contrato que poderia tê-lo pago integralmente em 1999. Por outro lado, ele pode viver, por exemplo, até 2045 (quando terá 87 anos), o que significaria se virar por uma década sem aqueles belos cheques todo dia 1º de julho.

O risco de inflação pode não ter parecido digno de preocupação quando Bonilla concordou com o acordo em 1999, mas é real. Um cheque de US$ 1 milhão hoje compra aproximadamente o mesmo que um cheque de US$ 500 mil em 1999 —e isso depois de uma inflação contida durante (a maior parte dos) últimos 25 anos.

Se os anos 2010 tivessem sido uma repetição dos anos 1970, com inflação tipicamente entre 5 e 10% ao ano, o poder de compra dos cheques anuais de Bonilla teria encolhido espetacularmente até agora. A moral da história é que qualquer contrato de longo prazo acordado em termos nominais contém uma aposta oculta na taxa de inflação.

Bonilla também enfrenta risco de contrapartida: o risco de que o Mets de alguma forma não possa ou não queira pagar. Felizmente, Bonilla tem um plano B: ele vem recebendo US$ 500 mil por ano do Baltimore Orioles, outra equipe da liga profissional, desde 2004.

É bom ver Bonilla sendo apresentado como um estudo de caso em planejamento de aposentadoria. Os juros compostos parecem muito abstratos. O que os torna reais é ver Bonilla transformar US$ 6 milhões em US$ 30 milhões pelo simples exercício da gratificação adiada.

Devo confessar que a matemática específica do contrato de Bonilla me tocou. Ele concordou em esperar 12 anos em troca de receber mais 25 anos de renda anual. Tenho 52 anos, então tal acordo me pagaria entre as idades de 64 e 89, o que parece praticamente perfeito em termos de timing de plano de aposentadoria.

Lamentavelmente, ninguém me deve US$ 6 milhões. Mas se eu pudesse investir 6.000 libras (R$ 8.040) extras agora —e conseguir um retorno de 8% em algum lugar— isso aumentaria minha renda de aposentadoria em 1.000 libras (R$ 1.341) por ano. Cinquenta e dois anos é mais tarde do que o ideal para planejar a aposentadoria, mas ainda não é tarde demais.

O que é isso que ouço você dizer? Foram prometidas cinco lições?

Aqui está a quinta: o Mets gastou seus US$ 6 milhões em um novo arremessador e chegou à decisão da liga; então reinvestiu todos os lucros de seu sucesso. O sujeito que colocaram no comando do investimento foi Bernard Madoff, que ficou conhecido pelo maior esquema de pirâmide financeira da história.

Todo aquele crescimento composto parece ótimo na planilha, mas em investimentos —como na vida— nada é certo.

noticia por : UOL