sexta-feira, 24, abril , 2026 06:48

A mulher que eu guardo no armário

Ela já trocou de gaveta, de armário, já enfrentou caminhões de mudança, trocou São Paulo pelo Rio, onde ela combina muito mais. Sobreviveu ao fim de uma paixão que quase me matou, mas não sai para dar uma voltinha desde antes do meu casamento que já dura quase 14 anos. Uma minissaia 36 que ficava muito gostosa recheada com a minha bunda que um dia já foi muito atrevida e que, por sua vez, não sai há tempos do tamanho 40.

Tem também um vestido chiquíssimo de canutilhos que parcelei em 12 vezes e usei numa única ocasião e jaz dentro de uma capa plástica para não embolorar. Deve ter completado bodas de cristal no meu armário. E a clássica calça jeans da qual jamais me desfarei porque há dez anos juro que ainda entro nela de novo. Tem uma regatinha transparente, tem um biquíni escandaloso para uma Ipanema muito mais careta do que em 2010, quando foi comprado e jamais usado.

Não uso. Não sei se um dia usarei. Mas não consigo passar para a frente nenhum desses itens. Faço limpas periódicas em roupas e sapatos e tento manter a regra de que se não levei para desfilar por aí há mais de um ano o destino é a doação. Quando chego em algumas peças simplesmente não consigo. Experimento. Respiro. Respiro fundo para tentar caber mais um pouco da perna, para fechar um botão, para que a polpa da bunda não fique tão depravada.

Um dia vai servir de novo. E assim elas escapam mais uma vez. E esse “um dia” vira meses, anos. Esse “um dia” vira um endereço vago. Não é amanhã, não é no verão. É num tempo mítico em que você terá disciplina, disposição, um corpo diferente do que acorda com você toda manhã. Um corpo que já foi seu corpo –só que há 10 ou 15 anos, quando você reclamava que estava gorda, mesmo vestindo 36.

Eu sei que a minha insistência com o que está guardado não tem nada a ver com moda ou com a ilusão de que o metabolismo vá operar um milagre. Todas essas peças são os últimos vestígios da mulher que já não habita este CEP, mas que eu faço questão de manter no meu inventário emocional. O apego não é ao tecido, é ao carinho por quem fui quando essas roupas embalaram meu corpo e minha vida. É a saudade da leveza, da disposição, da autoconfiança que hoje me parecem tão estrangeiras. Guardar uma saia que não passa pelas ancas é um jeito de garantir que aquelas versões de mim –as que foram felizes, ingênuas, desastradas, invencíveis– ainda tenham um endereço fixo.

Desapegar seria como assinar uma ordem de despejo para as minhas próprias memórias. Eu sei que aquelas roupas não cabem mais no meu estilo, na minha rotina. Mas, enquanto elas ocuparem o cabide, aquela mulher que viveu tudo aquilo continua preservada, protegida da luz do sol e da crueza do tempo. A esperança não é a de voltar no manequim de outrora —ainda que eu secretamente sonhe com isso—, é a de nunca esquecer o gosto que a vida tinha quando tudo parecia servir sem precisar de um único ajuste.


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noticia por : UOL