quarta-feira, 29, abril , 2026 04:16

Uso da fé? Lula faz acenos a evangélicos com terrenos e eventos


Nos últimos dois anos, o governo do presidente Lula tem adotado uma série de medidas administrativas, parcerias e gestos institucionais com o objetivo de se aproximar do eleitorado evangélico, que representa cerca de um terço da população brasileira.

As ações vão desde a liberação de áreas em assentamentos para a construção de igrejas até o repasse de verbas para eventos religiosos, buscando diminuir a rejeição e melhorar a avaliação nas pesquisas de intenção de voto.

Na questão fundiária, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) oficializou a cessão de uso de terrenos em assentamentos para instituições religiosas, incluindo denominações como Assembleia de Deus e Igreja Universal.

A prática, que já existia para outras finalidades comunitárias, permite que igrejas utilizem áreas públicas para erguer templos sem transferência de propriedade, e ganhou maior visibilidade ao atender grupos evangélicos em várias regiões do país.

No campo orçamentário, foram firmados pelo menos sete convênios entre 2023 e 2025, com recursos federais destinados à realização de Marchas para Jesus e festivais gospel. Os valores dos repasses variam de R220milaR 450 mil por evento, contemplando cidades como Santa Maria (RS), Presidente Prudente (SP) e Aratuba (CE).

Um pacote adicional no final de 2025 destinou cerca de R$ 950 mil para eventos em Porto Alegre (RS) e Cuiabá (MT), legalmente enquadrados como incentivo ao turismo e à cultura, seguindo prática já consolidada para grandes eventos oficiais.

O uso de equipamentos públicos também integra a estratégia. Em um caso registrado, o Ministério do Esporte autorizou a cessão da Arena Carioca, no Rio de Janeiro, para atividades promovidas pela Igreja Internacional da Graça de Deus, evidenciando a abertura de estruturas estatais para eventos religiosos de grande porte mediante critérios administrativos.

Na esfera social, o programa “Acredita no Primeiro Passo”, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Social, incluiu ao menos 16 organizações evangélicas como parceiras na execução de políticas de qualificação profissional e inclusão produtiva. Essas entidades atuam diretamente com beneficiários do Cadastro Único, ampliando a presença do Estado em regiões com pouca infraestrutura social.

Institucionalmente, o governo intensificou gestos simbólicos, como o envio de mensagens oficiais à Marcha para Jesus e o reconhecimento do papel social das igrejas, buscando reconstruir laços com um eleitorado que rejeitou fortemente o atual presidente em 2022.

Críticas apontam uso eleitoreiro da fé

O pastor e pesquisador Felippe Amorim alerta para o emprego estratégico da fé como instrumento eleitoral por parte de políticos, motivado pelo peso do eleitorado religioso. “A impressão muito forte que eu tenho é que uma boa parte desses benefícios dados aos evangélicos tem funções eleitoreiras”, observa, destacando que a prática não se restringe a um único espectro político.

Segundo Amorim, essa lógica se manifesta na presença frequente de políticos em igrejas, especialmente em períodos pré-eleitorais, onde “os dois lados estão indo à igreja… eles querem eleitores”.

Ele aponta que tal movimentação do governo Lula pode indicar menos uma convicção religiosa genuína e mais uma tentativa de conexão com um público numeroso, afirmando que “há um aproveitamento muitas vezes de má fé de alguns políticos [que] vão à igreja apenas para ganhar voto”.

O pesquisador reforça a necessidade de discernimento por parte dos fiéis, orientando que a escolha de um candidato por um cristão deve se basear em princípios profundos, não apenas em identificação religiosa ou discurso político imediato.

“Um cristão deve escolher o seu candidato de acordo com os critérios cristãos que ele vive”, defende, incentivando reflexão e estudo antes da decisão de voto, especialmente em meio à desinformação e à polarização. Com: Folha Gospel.





Source link