terça-feira, 16, junho , 2026 04:23

Filme no Festival de Cannes expõe a polarização e a hipocrisia dos progressistas

Mais do que um drama familiar, o filme “Fjord”, de Cristian Mungiu, joga luz sobre a intolerância a ideias conflitantes e a polarização política, tornando-se um forte concorrente para a Palma de Ouro desta edição do Festival de Cannes.

Nele, os pais de uma família radicalmente cristã são acusados de espancar os filhos e, de um dia para o outro, precisam entregar as crianças ao serviço de proteção à criança.

O filme com Sebastian Stan, quase irreconhecível, e Renate Reinsve, indicada ao último Oscar de melhor atriz por “Valor Sentimental”, não dá respostas fáceis, expondo um julgamento que traz questões mais complexas sobre as relações humanas, como fez “Anatomia de Uma Queda”, de Justine Triet, em 2023, ainda que não com a mesma intensidade.

Stan e Reinsve são Mihai e Lisbet, o casal de cristãos fervorosos que se muda para a Noruega, país da mulher, com os cinco filhos. Eles deixam os filhos de castigo se descumprem alguma regra como, por exemplo, não brigar. As crianças também não podem usar celulares, precisam rezar várias vezes ao dia, estudar a bíblia e decorar canções cristãs. Mesmo rígidos, são pais amorosos, porém.

A educação cristã e a privação de tecnologia dos filhos logo chama a atenção das professoras na escola. Todos acham inconvenientes os comentários sobre a Bíblia em meio às aulas. A menina de dez anos, por exemplo, diz a uma colega lésbica que sua orientação sexual é errada aos olhos de Deus.

A antipatia é combustível para denunciar Mihai e Lisbet ao conselho tutelar quando hematomas são observados no corpo de Elia, a segunda filha, que tem por volta de 14 anos.

Em uma visita da assistente social na escola, Elia e seu irmão de mesma idade afirmam que às vezes levam um tapa do pai no traseiro, e isso é suficiente para que as cinco filhos, incluindo o bebê, sejam levados pelo órgão de proteção à criança e ao adolescente.

Quando o julgamento começa, fica claro que a origem romena de Mihai leva a uma predisposição dos procuradores e da corte a vê-lo como culpado, já que cresceu em uma cultura considerada inferior, menos desenvolvida, até bárbara aos olhos dos noruegueses, que se intitulam mais civilizados. Mesmo diante de uma situação desesperadora como perder os filhos, qualquer reação emocional do casal pode ser julgada.

Mungiu não tem medo de se machucar ao tocar em assuntos espinhosos como, por exemplo, a mistura do setor progressista de valores políticos com a justiça. Em certo momento, quando é acusado de defender que a família deve ser formada por um homem e uma mulher, Mihai diz que não está sendo processado por suas ideias.

Na realidade, Mungiu parece provocar o próprio espectador —que no começo do filme, se não for religioso e conservador, instintivamente seria contra a família. Até porque, em um primeiro momento, não fica claro se os pais batem ou não nas crianças.

Além do julgamento, outros conflitos secundários colocam à prova também a declarada benevolência de Mihai e Lesbet. Por exemplo, o desenvolvimento de um sentimento romântico entre Elia e Noora, a vizinha.

Há ainda a amizade entre Lesbet e a mãe de Noora, Mia, que advoga para o casal mesmo discordando de sua ideologia, ou o apoio a Mihai por parte de grupos ultraconservadores depois que o caso viraliza nas redes sociais.

Já “The Unknown”, outro filme da competição principal do festival que estreou nesta segunda (18), não causou tantos comentários entre as salas do Palace, onde acontecem as exibições.

Depois de assinar o roteiro de “Anatomia de uma Queda” com Justine Triet, que venceu o Oscar, e ver o filme ser coroado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2023, Arthur Harari agora dirige o seu próprio filme, protagonizado por Léa Seydoux.

É a segunda aparição da atriz na corrida pela Palma de Ouro, depois de “Gentle Monster”. Em “The Unknown”, ela, na realidade, é ele: sua personagem inicial troca de corpo com um homem, um pouco como a comédia brasileira “Se Eu Fosse Você”.

O filme de Harari, porém, não tem nada de cômico, e é conduzido por um clima de tensão permanente. O protagonista é David, um fotógrafo deprimido e solitário que, em uma noite, transa com Eva, a personagem de Seydoux. Ele acorda no corpo dela, e então parte para recuperar sua estrutura física.

Para a sua surpresa, porém, quando ele a encontra, já é tarde. Eva transou com outra garota e trocou de “alma” com ela. Ou seja, agora quem está no corpo de David é Malia, outra personagem.

Com toques de thriller, a premissa do filme interessa conforme David —no corpo de Eva, ou seja, interpretado por Seydoux— e Malia, no corpo original de David, tentam entender quem está trocando continuamente de corpo e por quê. Mas a narrativa não vai muito longe, apesar de pincelar uma ou outra questão de gênero.

noticia por : UOL