terça-feira, 2, junho , 2026 01:33

Padre enxerga fim do comunismo em Cuba: “Precisaremos aprender a viver na democracia”

Tomates, pedras e ovos. Uma das primeiras lembranças que Alberto Reyes tem de quando, ainda criança, era levado à missa dominical, é a desses objetos voando sobre os biombos que o padre de sua igreja em Camagüey (Cuba) colocava para tentar proteger os fiéis. Eram os anos 70, e nos livros didáticos — copiados dos manuais da URSS — e em qualquer comício, doutrinava-se contra o cristianismo. Normal que alguns se sentissem no “dever patriótico” de hostilizar católicos e evangélicos.

Na agonizante Cuba de hoje, já não há ovos nem tomates para atirar. Restam pedras, mas muitos dos que as lançaram desencantaram-se com as promessas do Partido Comunista sobre um futuro radiante e partiram 90 milhas ao norte, rumo aos EUA, para buscá-lo lá. O Padre Alberto, aquele menino hoje transformado em sacerdote, já não vê projéteis passarem por cima de sua cabeça, mas a hostilidade do regime cubano continua chegando até ele na forma de intimações da Segurança do Estado. Incomodam, e incomodam muito, as denúncias que ele faz em suas redes sociais sobre a situação de prostração moral e econômica na qual o país ficou submerso após 67 anos de um experimento socialista fracassado. Por isso, cada vez que ele encabeça uma de suas publicações no Facebook com a frase “Estive pensando…”, os agentes da segurança ficam pensando em como calar a boca deste incômodo padre.

Durante sua recentemente concluída visita a Madri, o Pe. Alberto aceitou conversar sobre este e outros temas com a Aceprensa. Enquanto todos os cubanos no exterior olham para a ilha e prendem a respiração, dada a grave situação de escassez material pela qual o país passa e a prontidão de combate em que se encontram as forças dos EUA no Caribe, o sacerdote carrega calmamente enormes malas com medicamentos e se prepara para retornar para lá, para sua humilde paróquia de Esmeralda.

Aqueles que se batizaram nos anos 90 em Cuba já não viveram uma hostilidade tão aberta como a daqueles que se batizaram quando crianças nos anos 70. Foram tempos difíceis…

Sim, muito. Eu cresci em uma trincheira, lutando pela minha fé, porque o assédio era diário; era muito comum. Para começar, você se sentia mal visto; como cristão, você era o “bicho estranho”, a pessoa destoante, porque às vezes nós, os crentes, éramos praticamente apenas um em uma sala de aula ou em toda uma escola. Além disso, algo interessante: não nos chamavam de cristãos, porque cristão era visto como um termo muito elegante. Chamavam-nos de religiosos, porque isso tinha a conotação de “ignorante”.

Era comum um professor chegar à sala e dizer: “Fiquem de pé os religiosos”. Então você se levantava, todo mundo olhava para você, e isso fazia você se sentir mal. Tenho uma amiga que, quando tinha nove anos, o professor entrou e disse: “Fiquem de pé os religiosos”. Ela se levantou sozinha e o professor disse: “Agora todos deem risada desta aqui, que é religiosa”. E ela me diz: “Em mim, essa ferida sangra. Cada vez que penso naquilo, lembro-me de toda a sala rindo de mim”. Diziam-nos que, se fôssemos cristãos, não conseguiríamos ir para a universidade. Éramos muito assediados.

No seu caso, como um sacerdote que condena — nas redes e em outros âmbitos — os excessos do governo enquanto o povo sofre uma miséria sem igual, a hostilidade não é coisa do passado. Normalmente, tenta-se calar os sacerdotes com um “os padres não devem se meter em política”. Já lhe disseram isso?

Já me disseram muito. E a minha resposta é sempre a mesma: a Igreja não é chamada a fazer política partidária; não lhe cabe associar-se ou aliar-se a um partido, seja ele qual for. Ela é chamada a ser Mãe de todos, e a mensagem cristã é para todos. Nada de política partidária.

Outra coisa é a política em sentido geral. Política vem da palavra grega polis: cidade; portanto, a política entendida nesse sentido é a preocupação com a cidade (a sociedade), com o seu bem-estar. Quando alguém diz: “Sou apolítico”, na verdade o que está dizendo é “não me importo com a minha sociedade: se há pessoas com fome; se não há remédios; se as ruas se transformaram em um lixão, eu não me importo”.

Isso é ser apolítico. A Igreja é chamada a fazer política no sentido amplo, de buscar por todos os meios o bem-estar da sociedade. Se não o fizesse e ficasse em um discurso de relacionamento com Deus dentro do templo, então sim, ela seria o “ópio do povo”. Como vou pregar um Deus que é Pai, que nos torna irmãos, que quer o nosso bem, e, quando saio da igreja, se há alguém com fome ou sem medicamentos, eu ignoro? Seria uma contradição. Uma traição ao Evangelho.

O que a gente tenta explicar às pessoas é que os leigos sim, estes são chamados a fazer política partidária. Como fez Oswaldo Payá (1). Um leigo cristão tem, sim, o direito de se filiar a um partido ou de fundá-lo, se tiver essa vocação.

Compreendo que o senhor foi “convocado” várias vezes por dizer essas coisas.

Sim. Duas vezes a Segurança do Estado me chamou para me entregar uma “ata de advertência”. Para me dizer, como fizeram com outros sacerdotes — como o Pe. Castor, o Pe. Jorge Luis Pérez Soto, o Pe. Kenny, Frei Lester… —, que se continuarmos falando sobre os problemas de Cuba da maneira como fazemos, denunciando as situações, podemos ser processados judicialmente porque não agimos de acordo com a legalidade.

Acusam-nos, além disso, de sermos promotores do ódio. Quando dizemos que o cubano deve poder defender seus direitos, manifestar-se, eles veem nisso um discurso subversivo. E, certamente, às vezes temos alertado que o governo está encurralando tanto o povo, está tornando a vida tão difícil, que isso pode provocar um desfecho violento. Quando alertamos sobre isso, acusam-nos de incentivar o confronto e o ódio, quando na verdade estamos alertando que, se as condições de vida não melhorarem, chegará um momento em que o povo vai se cansar, e pode ser que responda de forma violenta.

Quando li sobre essas ações intimidatórias contra os dissidentes e contra os senhores, temi que os repressores cruzassem linhas vermelhas críticas. Que atentassem fisicamente contra o senhor e outros sacerdotes…

Olha, tudo é possível. Acredito que o governo tem consciência de que a Igreja — que, apesar da perseguição e do descrédito aos quais foi submetida, tem sido fiel ao povo e o tem acompanhado — alcançou um prestígio. Portanto, eles podem fazer algo contra nós? Sim, mas certamente o custo político também seria muito alto.

Quais ferramentas o clero e os leigos cubanos teriam em mãos para pressionar o governo a implementar mudanças reais?

Acho que cada um tem o seu papel. Não cabe à Igreja liderar as mudanças. Nossa grande força é a verdade, com a qual se pode dizer o que está acontecendo e apelar à consciência. Já o elemento prático não lhe corresponde. Em um diálogo real, ela também seria chamada a ser mediadora, porque a Igreja, por ser Mãe e acolher a todos, está em condições de ser essa intermediária que ajuda os diferentes a buscarem um objetivo comum e a entrarem em acordo. Além disso, o que é a mudança, digamos, fática, a mudança social real, não cabe à Igreja, mas sim à sociedade civil.

Uma sociedade progressivamente domesticada

Como é possível, Padre, que um povo que lutou ferozmente por sua independência no século XIX, que se levantou contra duas ditaduras no século XX — a de Gerardo Machado, deposto em 1933, e a de Fulgencio Batista, em 1959 —, não tenha seguido o rastro de alemães, poloneses, tchecos, etc., que se levantaram e expulsaram seus ditadores comunistas?

Não sinto que devamos esquecer que isso foi um processo. Para começar, o governo soube aproveitar muito bem a ilusão do início. Lembremos que vínhamos de uma ditadura, a de Batista, que já havia se tornado muito sangrenta. Havia uma rejeição popular, um esgotamento muito forte, e Fidel Castro ergueu-se como a grande esperança de uma mudança e de um retorno à democracia.

O ponto de partida esteve ali, em aproveitar o fascínio, a esperança das pessoas no Movimento 26 de Julho…, que, assim que assumiu o poder, começou a fuzilar. Aí há uma primeira mensagem agressiva ao povo: “Não se mexa, você está controlado; se você dissentir, pode morrer”. Instauraram também algo diabolicamente eficaz: os julgamentos populares. Qualquer um podia te acusar, qualquer um podia te julgar ou fazer com que você fosse condenado. E isso semeou o terror. Se somarmos a isso todo o controle das instituições, da educação, da imprensa, unido também ao fato de que somos uma ilha, uma espécie de “prisão com grades de água” da qual é difícil escapar, tudo isso marcou. Adicione-se o fato de que muitos acreditaram realmente na Revolução e que por ela estavam dispostos a tudo: a agredir, a delatar…

Pois bem: com esse caldo de cultura, com as prisões e fuzilamentos, com a mensagem da vulnerabilidade da sociedade, com a doutrinação e a perda de liberdade, houve uma progressiva domesticação do povo. Se a esquerda tem um mecanismo que soube manejar muito bem — e que certamente é muito eficaz —, é esse controle de pouquinho em pouquinho, um pouco mais a cada dia… Então, claro, depois de quase 70 anos assim, não é tão simples voltar ao espírito dos mambises (2). Não é.

Na Europa Oriental houve transições mais ou menos pacíficas. Em Cuba, por outro lado, espalha-se a percepção de que será muito difícil um processo assim, por causa de tanta raiva acumulada: quem não foi impedido de voltar para enterrar a própria mãe (como aconteceu com a cantora exilada Celia Cruz), foi condenado a trabalhos forçados, ou expulso da universidade… Como o senhor vislumbra o desmantelamento do sistema: em paz ou com graves tensões?

Preocupa-me muito a violência e, infelizmente, vejo-a como uma possibilidade real. Em princípio, porque cada vez se deixa menos opção ao povo. Se há mais repressão e menos oportunidades de se expressar, se a vida se torna cada vez mais difícil, e se há muita gente que causou danos a partir da impunidade, então, claro, o povo está muito ferido. Caso não haja uma transição controlada e ocorra um vazio de poder, pode haver um transbordamento das feridas que arrase tudo, que nos faça entrar em uma espiral de vingança.

Conheço um caso de muito tempo atrás: em Havana, em um edifício, vivia um senhor chamado Fidel, muito idoso, e ele caiu da escada. Um vizinho saiu correndo para buscar um carro e levá-lo ao hospital, mas deparou-se com outro que lhe perguntou o que estava acontecendo. “O Fidel caiu!”, respondeu ele, e continuou correndo. O que havia perguntado foi para casa, pegou um taco de beisebol, bateu à porta do presidente do Comitê de Defesa da Revolução (3) e o encheu de pancadas.

Eu temo que isso aconteça em Cuba. Que um descontrole leve a uma violência revanchista. Acredito que as pessoas que causaram danos têm que comparecer perante a justiça; se não, não haverá transição. As feridas inflamariam e nunca seríamos um povo capaz de seguir em frente. Muita gente deverá ser julgada e, se fez o mal, terá que responder por isso. Chama-se justiça transicional. Outra coisa seria o transbordamento da agressividade, que poderia derivar em um desastroso ajuste de contas.

Muito relacionado a isso, há a realidade de que, mesmo que amanhã houvesse uma mudança e chovessem milhões de dólares, seria muito difícil fazer o país andar. Há uma acentuada perda de valores — uma “reguetonização” da sociedade —, além de uma brutal descapitalização humana, pois pelo menos dois milhões de trabalhadores e profissionais foram embora nos últimos anos. A dúvida é quem gostaria de voltar para tentar mudar aquele desastre.

Eu penso que no início precisaremos de muito apoio externo, de muita assessoria para ajudar a sociedade a renascer. Durante quase 70 anos vivemos sem liberdade, sem democracia, sem esse exercício saudável de escutar uns aos outros. O cubano atual é muito intolerante, muito agressivo. “É o que eu digo porque eu digo! Não me importa o que você diz; apenas o meu importa!”. Teremos que aprender a viver na liberdade, na escuta, no trabalho em equipe, na democracia.

Isso não vai ser simples, e me preocupa. Preocupa-me que haja uma guerra de egos e que, em vez de olharmos para um objetivo comum — uma Cuba nova, plural, integradora, feliz, democrática, livre —, nos desgastemos para ver quem finca a sua bandeira.

Quando os dinossauros se forem…

Por outro lado, uma sondagem do meio independente El Toque registrou que mais de 56% os cubanos da ilha e 67% dos da diáspora gostariam que os EUA interviessem militarmente agora mesmo para pôr fim a uma crise tão aguda. Normalmente ninguém iria querer uma incursão armada em seu país, mas chegamos ao ponto de os cubanos a desejarem…

Eu lhe perguntaria: temos opções? Acho que esse é o ponto. Uma pessoa me disse: “Como é possível que o cubano opte por uma intervenção?”, e eu respondi: “O cubano não está na dinâmica ‘intervenção sim, intervenção não’. O desejo dele é outro. É o ‘eu quero que isso acabe já; não aguento mais: que acabe como for, porque estamos desesperados’”. Diante desse grito de angústia, o que se nos apresenta neste momento como opção é a intervenção. E o cubano diz: “Aí está a solução”. Não é que ele a queira. Se nos dissessem que haverá uma saída negociada, pacífica, real, e não uma mudança fraudulenta, nós, cubanos, diríamos: “Então melhor isso do que uma intervenção militar”. O problema é: temos outra opção? Há mais opções? Isso é o que eu não vejo.

Há uma profunda desesperança…

Claro. Avaliemos cenários: outro 11 de julho como o de 2021 (uma jornada de protestos generalizados em todo o país) poderia degenerar em violência, sem contar que, por mais multitudinárias que fossem as manifestações, no final, quem lideraria?, como terminariam? Aquele 11 de julho foi algo extraordinário, heroico e, acima de tudo, foi o grande grito do nosso povo de “não queremos este sistema”. Mas e a solução? Porque nos levantamos como povo, fazemos uma manifestação, conseguimos que o governo saia, mas e depois?

Não resta muita gente lá com a capacidade de liderança e visão política que Payá tinha…

Exato. Esse é o nosso problema. Vamos supor que os americanos entrem e afastem a cúpula governante: o grande problema será quem poderá liderar uma transição. Quando os americanos intervieram no Panamá (dezembro de 1989), tiraram Manuel Antonio Noriega e disseram: “Entregamos o poder a este grupo de pessoas”. E ponto final. Porque, claro, havia uma estrutura. Ou como está acontecendo na Venezuela: a mudança não ocorreu tão rápido quanto esperávamos, mas a Venezuela tinha uma oposição, tinha uma estrutura, e já se destravou; pelo menos as eleições irão se preparando. Havia uma referência, e Cuba não a tem.

Onde está a nossa “María Corina”…?

De fato. É que o governo foi desmembrando sistematicamente todo o tecido civil. Quem tem experiência política? Os do governo! Quem tem experiência de liderança? Eles, porque nunca se permitiu que outros tivessem acesso de forma independente. Portanto, isso vai ser complicado, mas aprenderemos. Seremos capazes de conseguir. Quando se gerar um ambiente de liberdade, será mais fácil que saiam à luz pessoas que agora estão na segunda, terceira, quarta linha, porque têm medo de que cortem suas cabeças.

Lembro-me de uma imagem que achei muito simpática: um dia, falando sobre isso, um amigo me disse: “Olha, Padre, enquanto havia dinossauros, os mamíferos estavam escondidos. Só quando os dinossauros se extinguiram foi que os mamíferos começaram a reinar no planeta. Até então, não podiam sair”. Acho que a metáfora é excelente.

Por último, um exercício difícil: se, nesta situação tão incerta, tivesse que fazer um prognóstico, em qual cenário vê Cuba no horizonte de três a cinco anos?

Não sei; sou um mau prognosticador. O que sim acredito é que algo tem que acontecer. De fato, já está acontecendo, porque não é apenas a pressão do governo Trump, não é apenas que o governo cubano ficou sem ninguém que o sustente: é que o povo está se manifestando cada vez mais. As pessoas estão sendo mais livres na hora de falar, e começaram a sonhar, o que é um ponto importante. As pessoas estão vendo a mudança como algo possível. Algo está acontecendo, e isso cristalizará em uma mudança mais profunda.

Quero pensar que, em três ou cinco anos, Cuba será um país totalmente diferente; uma nação que deixou para trás a estagnação. Sim, sou muito otimista com tudo o que estamos vivendo.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol“Los cubanos tendremos que aprender a vivir en democracia: no será sencillo, pero aprenderemos”.

noticia por : Gazeta do Povo