domingo, 14, junho , 2026 07:49

Igrejas anglicanas formam aliança para retornar à Bíblia Sagrada


Líderes anglicanos de diferentes países aprovaram uma nova declaração que propõe uma reorganização da comunhão global da denominação e amplia o distanciamento institucional em relação à liderança tradicional vinculada à Sé de Cantuária, na Inglaterra.

Entre os dias 3 e 6 de março, 347 bispos de 27 províncias anglicanas, além de 127 líderes leigos e membros do clero, participaram de uma conferência em Abuja, capital da Nigéria. Durante o encontro, foi adotado um documento chamado “Afirmação de Abuja”, considerado pelos participantes um marco na reorganização do movimento representado pela Global Fellowship of Confessing Anglicans (Gafcon).

A organização afirma ter surgido em resposta à perda de confiança na atual estrutura da Comunhão Anglicana e na condução da Igreja da Inglaterra. Segundo o documento aprovado, os mecanismos históricos de liderança falharam em preservar a doutrina bíblica e a disciplina eclesiástica ao longo das últimas décadas.

A declaração rejeita formalmente os chamados “Instrumentos de Comunhão”, estruturas ligadas à liderança de Canterbury, incluindo o Arcebispo de Canterbury, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano e a Reunião dos Primazes. Os participantes afirmaram que esses órgãos passaram a conviver institucionalmente com províncias e líderes que, segundo eles, se afastaram dos ensinamentos históricos do cristianismo.

A Afirmação de Abuja sustenta que a crise ultrapassa debates sobre sexualidade humana e envolve questões mais amplas relacionadas à autoridade das Escrituras e à interpretação da doutrina cristã. Os signatários também criticaram decisões recentes da Igreja da Inglaterra, especialmente a autorização de recursos litúrgicos destinados à bênção de casais do mesmo sexo.

Segundo a declaração, a liderança anglicana apresentou divergências doutrinárias como uma forma legítima de convivência dentro da comunhão, posição que os participantes do encontro contestam. O documento afirma ainda que a autoridade moral e espiritual historicamente associada à Sé de Cantuária foi comprometida.

Como alternativa ao modelo atual, a Gafcon defende uma estrutura definida como “comunhão confessional”, baseada em convicções doutrinárias compartilhadas. Entre os documentos de referência estão a Declaração de Jerusalém, adotada em 2008, os Trinta e Nove Artigos da Religião e o Livro de Oração Comum de 1662.

Os participantes argumentam que não estão criando uma comunhão paralela, mas reorganizando internamente o que consideram ser a expressão histórica do anglicanismo. A declaração afirma que existem atualmente duas compreensões distintas de comunhão: uma fundamentada em estruturas institucionais e outra baseada em princípios confessionais.

O encontro também destacou o crescimento da influência de igrejas localizadas no hemisfério sul. O bispo ruandês Laurent Mbanda foi confirmado como presidente do novo Conselho Anglicano Global. O brasileiro Miguel Uchôa assumiu a vice-presidência, enquanto Paul Donison foi escolhido secretário-geral.

A nova estrutura também defende uma separação gradual de Canterbury. As províncias participantes foram incentivadas a revisar seus estatutos para remover referências formais à comunhão com a Sé de Cantuária, embora reconheçam que o processo poderá exigir mudanças jurídicas e canônicas ao longo dos próximos anos.

As divergências dentro do anglicanismo vêm se intensificando há mais de duas décadas. Um dos marcos desse processo ocorreu em 2003, quando Gene Robinson se tornou o primeiro bispo assumidamente gay da Comunhão Anglicana. Cinco anos depois, a criação da Gafcon, em Jerusalém, fortaleceu a articulação internacional de igrejas alinhadas a posições doutrinárias tradicionais, ampliando os debates sobre autoridade e identidade dentro do anglicanismo mundial.





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