sábado, 13, junho , 2026 09:09

Minha filha e o medo da morte

Nesta segunda (8) fez cinco anos que a minha versão básica, modelo simples, sem acessórios, morreu. Há cinco anos, eu e meu barrigão entrávamos num hospital vazio, enquanto 2.000 pessoas morriam de Covid por dia no Brasil. Eu monitorava os batimentos cardíacos na tela, pela primeira vez pensando que, durante 40 semanas, tive dois corações batendo dentro do mesmo corpo. Agora um deles moraria fora e nunca mais eu seria a mesma pessoa.

Estreei nesta coluna também num dia 8, quando minha filha fez oito meses. No primeiro texto sobre ela, escrevi que a mudança operada pelo seu nascimento foi tão profunda que era como se o conjunto formado por cada uma das minhas células não fosse mais o mesmo. Como um Lego que usa as mesmas peças, mas é montado de um jeito completamente novo.

“A pessoa que sou agora tem tudo que eu era antes, mas o meu eu anterior, aquele que não era mãe, morreu. Não vejo sentido em continuar procurando por ele. Tentar fazer isso é imaginar um mundo em que minha filha não existe, nunca existiu”, escrevi.

Eu ainda não fazia a menor ideia de quão verdade isso se tornaria nos anos seguintes. Ser mãe de um bebê é muito diferente de ser mãe de uma criança cheia de opiniões e sentimentos. O mundo como eu conhecia se transformou de uma forma que eu jamais teria imaginado. E não teria mesmo, porque a maternidade nunca esteve no meu radar.

A Beatriz me ensinou noções de prioridade e urgência do cotidiano que teriam facilitado bastante a minha vida. Depois que minha mãe quase morreu e que minha filha nasceu, aprendi que o tempo passa e tudo termina. O óbvio é mesmo a verdade mais difícil de enxergar.

“No tempo que já não existe, são suas todas as horas”, digo na canção que compus pra Beatriz. Foi mais ou menos quando criei a expressão paradoxo do afeto. Eu queria algo que explicasse desejos de sucesso não desejados, agradecimentos pendentes, manifestações de carinho, boa sorte e parabéns que nunca se concretizaram. Quanto mais quero bem a alguém, menor a chance de que receba a mensagem que eu gostaria de mandar.

Tudo aquilo que imaginei falar fica guardado e quem importa tanto às vezes não recebe nada. Pessoas menos próximas ganham um voto de felicidade pouco poético, enquanto os mais importantes não recebem poesia alguma, porque ela está presa na minha cabeça esperando a lapidação que nunca vem. Afeto em paradoxo. O paradoxo do tempo.

Anteontem, quando estava colocando minha filha de 4 anos virando 5 para dormir, ela me disse que não quer ser adulta. Eu não dei muita importância, Beatriz já disse outras vezes que ser adulto é muito chato. Mas não era isso. “Mamãe, eu não quero crescer. Porque, quando eu crescer, você vai morrer”. Tão pequena e já com noções tão apuradas de tempo.

Tento ser sempre honesta sobre a morte, mas às vezes eu só consigo garantir que não vou morrer tão cedo, com todo o desejo do meu coração de que não esteja contando uma mentira. Ela quis mais. “Quanto tempo você ainda vai sobreviver?”, perguntou séria. Fiquei reflexiva, pensando no verbo. Sobreviver. Estou tão acostumada a falar em sobrevida de pessoas com doenças graves que a palavra me causou estranhamento. Sobreviver soa como algo menor. Mas não deveria. Talvez a sobrevida seja comum a todo mundo que enfrenta a própria finitude com seriedade, porque não existe caminho de volta para o engano.

“A gente não tem como saber, filha, mas ainda vou sobreviver por muito tempo. Por que você está pensando nisso agora?”. “Porque o vovô Dalton morreu. E eu tenho medo de ficar sozinha.” “Você nunca vai estar sozinha.” Isso eu posso prometer.

Faz pouco mais de um ano que minha filha viveu seu primeiro luto. A ideia de que as pessoas não existem mais fora da nossa memória parece ter sido bem processada. Mas, de tempos em tempos, ela se depara com a tristeza da ausência.

Já me perguntaram se, depois da maternidade, tive mais medo de morrer, algo bem comum às mães. Não tive. O nascimento da minha filha inaugurou um novo medo, mas porque eu passei a ter mais um amor, imenso, que podia perder. O medo da sua morte ocupou tudo, nunca sobrou espaço para outra coisa.

Anteontem foi diferente. Imaginei o tamanho da dor que Beatriz sentiria se eu morresse. E a dor dela é ainda maior que a minha, simplesmente porque é dela e tudo nela importa mais.

Conforta-me saber que minha filha é a única pessoa que escapa ao paradoxo do afeto. Tudo que lhe diz respeito é urgente. Nenhuma palavra que demande aprimoramento se torna ausência diante dela. Eu não fico pensando que talvez não tenha oportunidade de vê-la crescer; mas vivo com a intensidade de quem sabe que isso pode acontecer. A gente torna os momentos comuns mais felizes assim. E, quando o futuro vier, como tem vindo há cinco anos, teremos as melhores memórias de quem viveu com plenitude cada presente.


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noticia por : UOL